Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 183 de 262

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Paris, 1992.

Tom Jobim

No Brasil, o sucesso é ofensa pessoal, releio em revista francesa, L'Autre Journal, a afirm ação de Tom Jobim , vítim a perm anente das patrulhas.

Verdade verdadeira, deve-se no entanto estabelecer a distinção, dar nom e aos bois: a invej a, a calúnia, a salafrarice são dogm as das elites, prática da inteligentzia; do povo são o louvor e o bem -querer. No desfile das Escolas de Sam ba, Tom Jobim é enredo da Mangueira, que im portam o insulto, o vôm ito do escriba do j ornal? Vacina infalível, o am or do povo im uniza contra a peçonha dos am argos.

Varsóvia, 1953.

As galinhas

Varsóvia coberta de neve, o vento do pólo norte: ao entrar no hall em ruínas do Hotel Bristol, deparo com José Guilherm e Mendes j unto à calefação; conhecidos de velha data, confraternizam os. O j ornalista realiza um a série de reportagens sobre a im plantação do socialism o na Polônia, está encantado com o socialism o e com a Polônia, j ura pelo sucesso dos proj etos do governo.

Ao j antar vibra de entusiasm o narrando as peripécias da j ornada, dia m ovim entado, de m anhã à noite na cooperativa agrícola Aurora Verm elha. Não viu as plantações de batatas, o cam po está gelado, m as visitou a criação de aves, a granj a exporta ovos e galinhas para os gastronom es de Moscou. Alm oçou em com panhia dos heróis do trabalho socialista em casa do Presidente da Aurora Verm elha, regabofe com vodca e vinho, discursos, brindes, internacionalism o cam ponês. Os cam aradas polacos expõem as vantagens da econom ia socialista para o cultivo da terra e o trato avícola, recitam estatísticas, quadro róseo, com em com apetite, bebem com sede e com petência. Bom orador, Zé Guilherm e descreve a m iséria no latifúndio brasileiro, os senhores e os servos da terra, a seca do nordeste im plantada pela burguesia para obter vetas do governo podre, regalias, quadro funesto, os convivas se em ocionam às lágrim as, Zé Guilherm e é eloquente, cita Prestes e Josué de Castro, e tom e vodca que ninguém é de ferro. No clube da cooperativa, à tarde, im provisam arrasta-pé em honra do hóspede brasileiro, o j ornalista é pé-de-valsa, as roceiras eslavas são loiras e fogosas. Escutam os o relato, eu e o tradutor de m eus livros, Eugenius Gruda — por falar nele, que fim terá levado em m eio à confusão polaca?

Antes de prosseguir na leitura das reportagens de José Guilherm e, vale um parênteses para contar do tradutor: em igrara m enino para o Brasil, estabeleceu-se com erciante no interior do Paraná, o negócio prosperava, veio a guerra, a ocupação da Polônia, a divisão do território entre as tropas nazistas e as soviéticas. Patriota, o j ovem Gruda não vacilou: vendeu os bens, em barcou num cargueiro para Londres, escapou aos subm arinos nazistas, inscreveu-se no Exército da Polônia Livre, organizado na Inglaterra sob o com ando do general... com o era m esm o o nom e? No prim eiro dia de exercício o recruta Gruda, destinado com o todos os dem ais com ponentes do batalhão — o Exército não passava de algum as centenas de polacos — à invasão aérea da Polônia, pára-quedas às costas, subiu a um a torre de m adeira para treinar os saltos. Saltou, o pára-quedas não abriu, esborrachou-se no chão, quebrou razoável quantidade de ossos, saiu do hospital aleij ado da perna esquerda, foi desm obilizado. Term inada a guerra, libertada a Polônia das tropas de Hitler (não das de Stalin), os ingleses m ais que depressa despacharam os polacos, soldados e capengas, para a pátria liberta da ocupação alem ã, Proclam ada pelos soviéticos república dem ocrática popular em vias de construir o socialism o.

Até então Gruda m antivera-se apenas patriota, em Varsóvia, com os novos donos do poder, fez-se com unista com presteza e veem ência, o aleij ão da perna, atestado de luta antifascista, lhe Proporcionou m odesto em prego na União dos Sindicatos, engordava o salário m ínim o com os direitos autorais das traduções de m eus livros. Eu era m uito traduzido e bastante lido na Polônia então — o único escritor comunista que os jovens estimavam ler, disse-m e Rom an Polanski ao m e visitar na Bahia —, cito a circunstância para acrescentar que, apenas desem barcava em Varsóvia, tradutor inform ava a chefia de sua repartição de m inha chegada e de com o ele, Gruda, m e era indispensável: o Prêm io Internacional Stalin necessitava de sua assistência perm anente com o que obtinha licença com vencim entos, assistia-m e no café da m anhã, no alm oço, no j antar, m alandro brasileiro desterrado no inverno da Polônia, sabidório tirando de letra o socialism o Gruda m e divertia, m e fazia rir. Para ele eu era um a espécie de divina providência.

No dia seguinte — casacão, luvas, cachecol, gorro de peles —, Zé Guilherm e saiu pela m anhã para visitar indústrias recém -instaladas, voltaria som ente à noite, m arcam os encontro para a hora do j antar. Resolvi pregar-lhe um a peça, m eus am igos eram vítim as de m inhas m olecagens, ninguém escapava. Expliquei o proj eto ao tradutor, ele adorou, dirigim o-nos ao m ercado, com prei a peso de ouro quatro galinhas e um galo — sobravam -m e sloty s, pois as editoras polacas, na época, não pagavam os direitos em divisa. Metem os as penosas no carro, levei-as para o hotel. Enrolei o fulano da portaria, obtive a chave do apartam ento de Zé Guilherm e, subim os com as aves, abrim os a porta e as soltam os no quarto, pude ver o galo pular para a cam a.

Gruda trouxe de casa papel tim brado da União dos Sindicatos, utilizava-o em sua correspondência particular, tinha blocos e envelopes de reserva, enquanto esperávam os Zé Guilherm e para j antar, ditei e Gruda traduziu para o polonês m issiva assinada pelo Presidente de im aginário sindicato dos criadores de aves de poleiro: os m em bros do sindicato, inform ados das terríveis condições de vida dos cam poneses brasileiros, haviam decidido enviar-lhes de presente um galo de raça e algum as galinhas, poedeiras de exceção, provas do sucesso dos m étodos socialistas de produção. Os galináceos se destinavam a cooperativa de cam poneses pobres, poderiam dar início a um a criação que os resgatasse da m iséria. Escrita e assinada a m ão, j am egão incom preensível, a carta im pressionava.

Zé Guilherm e dem orava a chegar, a fom e apertou, fom os para o restaurante, j á estávam os no fim da refeição quando o j ornalista apareceu:

— E então, as fábricas? — perguntei.

Formidáveis, disse Zé Guilherm e, sentando-se, tom ando do m enu. Nós o sentim os tenso, ele desabafou: depois conto a visita às fábricas, antes quero falar de um problema que surgiu e me preocupa. Tirou a carta do bolso: Eu a recebi ao chegar, quer traduzi-la? — pediu a Gruda. Tradução feita, Gruda com entou, ovante: isso é que é solidariedade revolucionária, como polonês e comunista sinto-me orgulhoso. Pôs-se de pé, apertou a m ão de Zé Guilherm e, eu m e continha para não rir. Dobrou a carta, m eteu-a no envelope e a entregou ao destinatário: é preciso respondê-la. O j ornalista parecia-nos abatido, confuso: comovedor exemplo de internacionalismo, concordou com Gruda, porém um tanto quanto embaraçoso, em verdade um estorvo.