Navegação de Cabotagem
Maceió, 1933.
Andou Cuba inteira, adorou, fez am izades, traçou proj etos de trabalho, passado o m ês em barcou de retorno à Alem anha Oriental — m esm o vivendo sob o m esm o regim e do socialism o real, existiam diferenças entre Cuba e RDA, Cuba era o trópico. Os fam iliares a aguardavam no aeroporto no m aior assanham ento, querendo saber com o ela havia recebido a notícia.
— Notícia? Que notícia?
— A do m uro.
— Que m uro?
— O nosso, o de Berlim .
Quando Kristina viaj ara a polícia atirava e m atava quem tentasse atravessar o m uro, os m ortos contavam -se às dezenas, os presos às centenas.
— O m uro de Berlim ? O que aconteceu? Não sei de nada — Baixou a voz para perguntar: — Quantos m ataram nesse m ês?
Durante sua ausência, o m ês em Cuba, o m uro de Berlim ruíra, deixara de existir, de dividir Berlim em dois, de separar as duas Alem anhas, apenas Kristina não sabia de nada. Se a im prensa cubana noticiara o fato ela não lera a inform ação e nenhum a pessoa com quem tratara lhe contara fosse o que fosse, a queda do m uro era tabu em Cuba. Ainda no aeroporto relataram -lhe as ocorrências, sim plesm ente ela não acreditou. Meteram -na no carro e a levaram onde estavam as sobras do m uro de Berlim , atravessaram para o outro lado, Kristina continuou sem acreditar.
— Olhei, vi, cruzei o m uro e continuei a não acreditar. Prim eiro pensei que tinha m orrido, que existia um a outra vida, eu chegara ao paraíso. Depois pensei que sim plesm ente tinha enlouquecido, custou trabalho convencer-m e de m inha sanidade m ental, de que não estava louca de j ogar pedra, as pedras do m uro de Berlim .
Kristina respira fundo os ares de Paris, a liberdade.
— Por vezes ainda penso que estou louca e que de repente vou ficar sã e o m uro lá estará inteiro, a polícia atirando. Dá-m e um a aflição, quero continuar louca, não quero m e curar.
Maceió, 1933.
Se chamava augusto
Cicerone nas ruas e graças da cidade, Aurélio Buarque de Holanda* leva-m e ao puteiro na noite m orna de Maceió. O futuro dicionarista, novel literato, popular entre o m ulherio, que o trata pelo apelido com intim idade, é disputado: contigo vou de graça, Belo Corpo.
*Aurélio Buarque de Holanda, escritor.
Apaixono-me por Lindinalva, filha de usineiro arruinado, abandonada pelo noivo. Estendidos na cama conversamos no intervalo, no quarto o olor de alfazema, o toco de vela ilumina Santo Antônio. Lindinalva é loira de trigais maduros (a imagem é velha e gasta, eu sei, mas é porreta), eu irei colocá-la inteira no Jubiabá, a Aurélio a devo, aproveito para de público agradecer a prenda. Certa vez, em sessão comemorativa de seu aniversário, pensei fazê-lo na Academia, Pedrinho Calmon me desaconselhou: o local não era apropriado, cairia mal.
Houve um m om ento — com o direi? falta-m e a palavra j usta, direi que foi um m om ento inolvidável. Lindinalva vira de bruços: bote atrás, menino, tu nem sabe como gosto, gosto demais — lençol de oiro a crina se desdobra até o coxim da bunda. Bunda arrebitada de sinhazinha de engenho, nas cam biantes do m elaço, m el de cana-caiana, rego de açúcar m ascavo e o precipício. Lindinalva volta o rosto para m im , olhos azuis de água m arinha:estudei no colégio de freiras mas Augusto, meu noivo, se chamava Augusto, me viciou.
Ham burgo, 1968.
Mon ami Georges
A neve tom ba sobre Ham burgo, a cidade envolta em brum a, em frente a um cinem a o cartaz exibe im agens de film e pornô: a nudez da fraulein, m am as vultosas ao gosto ianque, riso de deboche, segura um disco com o retrato de Georges Moustaki na capa e o m antém sob o m am ilo intum escido, o rosto desfeito em orgasm o. Mesm o em fotografia m on am i Georges provoca paixões. Paixão, um a de suas palavras, a outra é liberdade.
Quando estam os em Paris — acontece com frequência —, nos reunim os com Georges todo tem po, j untos em nossos restaurantes, o chinês, o m arroquino, o italiano, o grego, o do Jura onde se bebe vin de paille à sobrem esa, os bistrôs franceses, foi Georges quem nos levou a Au Pont Marie, de Magali*. Nossos am igos e os dele tornaram -se am igos com uns, Marta, Sérgio Reggiani, os Raillard, Albert Cosery, Antoinette, Anny -Claude, Zbitch, tantos m ais, cresce a cada dia a fam ília, les am is de Georges. Escalam os, Zélia lépida, eu arfante, as escadas que conduzem ao dúplex no sexto andar da rua Saint-Louis-en-l'Ile, no qual le patre grec pastoreia rebanho de cabritas e ovelhas, com panhia fem inina num erosa e j uvenil — coloco o acento sobre o adj etivo j uvenil, a m ais idosa vem de cum prir dezoito anos.
*Magali Guiffoul, proprietária do restaurante Au Pont Marie.
Grego de Alexandria, j udeu errante, árabe em guerra, parisiense naturalizado por Edith Piaf, m aruj o no m ar Mediterrâneo em seu itinerário de cantiga e aventura teria de arribar ao porto da Bahia, capital-geral da Costa d'África e das Caraíbas, enseada da sabedoria e do m istério, irm ã gêm ea de Alexandria. Ali desem barcou na década de sessenta a convite de Vinícius de Moraes. Hóspedes do poeta, a seu pedido foram recebê-lo no aeroporto as atrizes Alexandra Stewart e Suzana Vieira.
Buscavam táxi quando um executivo ao volante de Mercedes im portada lhes ofereceu carona. Disseram -lhe aonde queriam ir e a quem iriam acolher. O galã, adm irador de Alexandra, devoto de Suzana, colocou-se às ordens, nada tinha a fazer, flanava em Itapuã, poderia levá-las e esperar para trazê-las de volta com o com positor de quem era igualm ente fã, assoviou a m elodia de Le métèque. Em barcaram , o galante perguntou a Suzana se não o estava reconhecendo. Não, não estava, quem era ele?
Orgulho ferido, o cidadão declinou nom e com pleto, para Alexandra nada significava, para Suzana sim : som Mariel Mariscot, disse. Apesar da parecença com as fotografias nos j ornais, Suzana duvidou: está pilheriando. Se duvida suspenda o tapete ao pé do banco, Suzana suspendeu, deu com a m etralhadora ao alcance da m ão do m otorista. Tam bém Alexandra viu a arm a, quis saber a razão, Suzana traduziu em francês, trocou em m iúdos, o nom e do dono do autom óvel que tão gentilm ente as conduzia: o bandido mais temido do país, já ouviu falar no Esquadrão da Morte? Pois era o chefe em pessoa, condenado a trinta anos de prisão, fugido da cadeia. A estrela do cinem a riu exaltada: que país o Brasil, único no mapa-múndi, loucura igual não existe.
Gentileza em pessoa, Mariel Mariscot depositou o com positor na porta da casa do poeta, m as declinou do convite que lhe foi feito para assistir, daí a dois dias, no Teatro Castro Alves, ao show de Vinícius e Toquinho com a participação de Moustaki: desculpassem , não podia abusar da com placência da polícia. Assim aconteceu o desem barque de Georges no Brasil, com o não am ar e não adotar o país surrealista? Georges o adotou, fez-se m úsico brasileiro, parceiro de Tom Jobim , de Chico Buarque, de Toquinho.
A Bahia des pécheurs, des marins, des filies du port tornou-se lar e m usa, inspirou-lhe duas canções que correm m undo, no Rio Verm elho Georges encontrou um petit coin du paradis. Quantas vezes retornou, quantas retornará? Estava entre os m úsicos brasileiros na audição de Le Grand Échiquierque Jacques Chancel dedicou à Bahia, ao lado de Cay m m i, Caetano e Gil, cantou com Betânia e Gal, um baiano a m ais.
Voz solidária, presente onde quer que a liberdade reclam e adesão e apoio, canto de am or erguido pelos palestinos, pelos lábios, pelos curdos, por Nelson Mandela, por Otelo de Carvalho, por quem m ereça e necessite: a paixão e a liberdade, m atrizes da criação de Moustaki. Eu poderia contar um m ontão de histórias, testem unhei algum as, reduzo-m e a um a única, basta para dar a m edida de m eu am igo Georges.
Teve ele am ores passageiros com viandante árabe, a estrangeira habitou curta sem ana de cinco dias de desvario na Ilha de Saint Louis, disse à-bientôt em despedida, não deixou endereço para correspondência. Dela Georges veio a saber dias depois pelo noticiário dos j ornais: fora presa ao desem barcar no aeroporto de Tel-Aviv, o grosso de sua bagagem era constituído por bom bas que, acionadas, teriam destruído m etade do Estado de Israel. Interrogada pelas autoridades, declarou ser esposa do com positor francês, m undialm ente conhecido, Georges Moustaki.
Surpreso, m as não em baraçado, Georges tom ou conhecim ento do depoim ento. Para a sem ana de convivência não houve j uiz de fam ília, tam pouco m ula ou pope, rabino ou padre, apenas desej o m útuo e m útua outorga, nem por isso o com positor (m undialm ente conhecido) desm ascarou a terrorista, ela o nom eara esposo, ele não a desm entiu, deu-lhe assistência e afeto.
Condenada a larga pena, enquanto esteve a cum pri-la por várias vezes recebeu a visita de Georges. Cantava para ela e para as dem ais presidiárias, tornou-se cam arada da diretora do presídio. Batalhou para dim inuir-lhe a pena e o conseguiu, posta em liberdade, após cum prir três anos, para ela Georges alugou apartam ento nas proxim idades do seu, a m oça o ocupou por breve tem po, partiu a cum prir seu destino.