Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 61 de 262

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Maceió, 1979.

 

O sequestro

Diante do hotel, de volta da sessão solene na Academ ia de Letras de Alagoas, Luciana foi sequestrada, levaram -na seis indivíduos, ocupavam dois fuscas: além do constrangim ento, a falta de conforto.

Luciana Stegagno Picchio, professora em érita, personalidade m arcante na cultura e na vida literária italianas, conhece com o ninguém as literaturas de Brasil e Portugal, autora de um a História da Literatura Brasileira sem sim ilar em nossas edições organizadora da obra poética de Murilo Mendes, trabalho de gigante, pesquisadora, articulista, ensaísta, m estra de gerações — de suas aulas e de seu exem plo nasceram brasilianistas da qualidade de Giorgi Marotti, Giovanni Ricciardi e Maria Luisa Cusati —, sua dedicação à literatura brasileira só se com para à de Alice Raillard, na França, de Thom as Colchie nos Estados Unidos. O que devem os, nós brasileiros, a Luciana não se pode pagar, não há com o.

Adido cultural do Brasil j unto à Em baixada na Itália, Mauro Santay ana quis dem onstrar nosso reconhecim ento, propôs ao Itam araty fosse concedida a Ordem do Cruzeiro do Sul a Luciana. Em lugar da Cruzeiro do Sul o Ministro, ou um burocrata qualquer respondendo pelo Ministro no setor da Cultura, dim inuiu a gratidão para um a condecoração em ordem m enos im portante, Mauro ficou safado da vida, com toda razão (um beij o, Vânia*, de Zélia e m eu, para ti e Mauro). Ao saber do caso entro em contacto com m eu cúm plice Napoleão Sabóia, levam os o assunto a Sarney, o Presidente decreta a Cruzeiro do Sul, faz questão de entregar a insígnia pessoalm ente ao vir à França para o bicentenário**, Luciana acabou ganhando duas hom enagens, m elhor assim .

*Vânia, mulher de Mauro Santayana.

**Bicentenário da Revolução Francesa.

Pois se despedira ela do Presidente da Academ ia e da excelentíssim a esposa que a tinham acom panhado até o hotel, ainda na porta Luciana escutou um psiu e o seu nom e dito em voz baixa, olhou e viu no outro lado da rua o m oço a acenar.

Luciana estava cansada, a sessão se prolongara em coquetel: ao tilintar dos copos despertaram os graves senhores que cochilavam enquanto na tribuna ela discorria sobre poesia, dizia poemas de Murilo Mendes em português e em italiano, analisava-os com Perspicácia e autoridade. Na recepção, a fadiga cresceu: batida de caju, de coco, de limão, casquinhas de siri, conversa com um e outro, explica Quasimodo* ao Governador, Montale** à primeira-dama, gastar talento e erudição em reunião social é tarefa estafante. Ainda assim, bem-educada, Luciana atendeu ao chamado do jovem, adiantou-se para o fusca do qual de súbito saltaram mais dois rapazes. Cercada, viu-se metida no automóvel, sem violência, mas com determinação, um moço segurava-lhe o pulso, decerto para impedir qualquer tentativa de reação. Um dos tipos avisara: trata-se de um sequestro, não grite, não reaja, não tente escapulir. O carro partiu em marcha acelerada, um segundo fusca dava-lhe cobertura.*Salvatore Quasimodo, escritor italiano.

**Eugênio Montale, poeta italiano.

Luciana nunca tinha sido sequestrada antes, quando j ovem fora raptada ao m enos duas vezes, m as é grande a diferença entre rapto e sequestro, as violências de am or deixam gratas lem branças. Agora tem ia o pior, pois os assaltos sucediam -se em todo o Brasil, m arginais trocavam reféns por dinheiro, no caso dela que dinheiro? Quem sabe seriam terroristas internacionais, o terrorism o cam peava, m as ela não era líder nem exercia m andato no Parlam ento, que interesse teria para o terror político? Os três que iam no carro não tinham cara de terroristas — como é cara de terrorista?, perguntou-se, não sabia —, m ais bem de rapazolas, quem sabe hippies, tarados sexuais? Saíram da cidade, rum aram para as bandas das lagoas, foram parar num chalé isolado. 0 bandido m ais idoso — teria uns vinte e cinco anos, parecia o chefe do bando —, aquele que a tom ara pelo pulso, deu-lhe a m ão para aj udá-la a sair do fusca.

Vivenda confortável, na sala de j antar m esa servida com as especiarias alagoanas, sururu em cinco tem peros diferentes, caranguej os, cam arões, lagostas, refresco de pitanga e de caj á, água-de-coco, havia tam bém uísque caso ela preferisse. Os seis sequestradores se apresentaram , declinaram nom es e títulos, um título único ostentado pelos seis: som os poetas. Ali estava au grand com plet a diretoria provisória do Grupo dos Poetas Jovens das Alagoas, dois deles com brochuras de poem as editadas, os dem ais à espera de editor, o que a segurara pelo pulso — com delicadeza — era o presidente.

Marginais da literatura oficial, adversários da academ ia, do conservadorism o, do passadism o, das gerações poéticas de cinquenta e de sessenta, eram os m odernos, os da nova poesia, da novíssim a. Tinham sequestrado Luciana para poder com ela conversar, discutir, debater, confraternizar, adm iravam -na, conheciam seu trabalho, tinham lido artigos e ensaios, dela sabiam tudo, o hum anism o e a hum anidade. Queriam ouvi-la discorrer sobre poesia, m as na Academ ia não punham os pés, que ela perdoasse o atrevim ento, m as não podiam agir de outra form a para tê-1a com eles em convívio de cultura e am izade, de am or — eram poetas, m ereciam indulgência.