Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 63 de 262

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São Paulo, 1945.

 

Oswald

Abro um j ornal, se não m e engano o Diário de São Paulo, caio das nuvens: catilinária de Oswald de Andrade* contra m im . Nossa am izade, fraterna, vinha dos anos trinta, ele, Raul Bopp e eu sem pre j untos. Sozinhos, Raul e eu o sustentam os contra os ataques e o silêncio, na hora em que os literatos j uravam por Mário* em desvario, recusavam Oswald com engulhos, não lhe davam vez.

*Oswald de Andrade (1890/ 1954); Mário de Andrade (1893/ 1945), escritores paulistas, chefes de fila do modernismo.

Com eço a saber do que se passou por interm édio de Pedro Pom ar, dirigente nacional do pecê com j urisdição sobre São Paulo: Oswald o procurara para queixar-se, disposto a abandonar o Partido no qual ingressara (ou voltara a ingressar) poucos m eses antes. A decisão não m e surpreendeu, Oswald não era hom em para suportar a disciplina partidária, as tenazes do centralism o dem ocrático, form a de suj eição férrea, absoluta. Surpreenderam -m e, isso sim , as acusações feitas a m im , elevado por ele à condição de m anda-chuva do Partido, e de im batível garanhão, espécie de tirano sexual a profanar a fam ília paulista, a tornear chifres de cabrões, a descabaçar donzelas. Pior que isso, atribuiu-m e opiniões que eu não expressara, restrições de todo tipo a figuras determ inantes da cultura, inclusive e sobretudo a ele, Oswald.

Aos poucos fico a par da intriga nos m ínim os detalhes, a fofocagem , a salafrarice. Oswald se m agoara por não ter sido indicado candidato à Câm ara Federal na lista do Partido, nela figuravam escritores: Monteiro Lobato, Caio Prado Júnior, José Geraldo Vieira e eu — Lobato renunciou à candidatura antes da eleição. Quanto a m im , na m edida de m inha influência, tudo fizera para que Oswald figurasse na chapa, cheguei a ir ao Rio conversar com Prestes, dizer-lhe da im portância cultural do pai da antropofagia, Prestes não o considerava confiável, Arruda pôs um a pedra sobre o assunto: não traz nem meia dúzia de votos.

A sordidez da intrigalhada m e enoj ou: envolveram Oswald num a teia de m entiras, convenceram -no de que eu, com m edo da concorrência, o sabotara, responsável único pela ausência de seu nom e na chapa do pecê. Fiquei sabendo quais os instigadores principais, o m au poeta, o editor rancoroso — não recordo os nom es, risquei-os da m em ória. Furiosos por não terem sido eles tam bém nom eados candidatos, sem coragem de acusarem a direção, voltavam -se contra m im . Não fui ouvido nem cheirado na confecção da lista, dei um único palpite, j á o referi: tentei obter vaga exatam ente para Oswald, não fui levado a sério, cortaram -m e as asas.

Não o procurei para tentar esclarecer o m al-entendido, o fato dele ter acreditado que eu agira em seu detrim ento feriu-m e fundo, ofendeu-m e, achei que não lhe cabia direito de duvidar de m inha am izade. Deixam os de nos ver e de nos falar. Por algum tem po ele continuou a m e atacar, em m om ento algum ergui a voz, não escrevi um a única palavra contra ele, conservei intactos a adm iração e o bem -querer.