Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 84 de 262

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São Paulo, 1944.

Os cavalos

Com panheiros de velha data em reuniões, conclaves e com ícios no Montevidéu*, reencontro Enrique Am orim , o rom ancista uruguaio de El caballo y su sombra, no Congresso Mundial de Intelectuais pela Paz, em Wroclaw. Convida-m e para assistir à proj eção de um docum entário cinem atográfico sobre criação de cavalos na am plidão dos pam pas, ou sej a, na vastidão de sua fazenda na Banda Oriental: Enrique é latifundiário, o que não o im pede de ser com unista.

*Em 1941/1942.

Em nossas pátrias da Am érica Latina, propriedade latifundiária e m ilitância com unista se deram sem pre às m il m aravilhas, poderia citar extensa relação de opulentos senhores de terra que acum ulam posições de esquerda do m aior radicalism o. Com o m e confidenciava m eu inesquecível Giovanni Guim arães ao chegará à idade m adura fazendeiro e m aoísta: quanto m ais cresce a fazenda m ais à esquerda tenho de m e posicionar para que saibam que não renego m inhas convicções. Ria aquela risada feliz que ainda hoj e ressoa em m eus ouvidos, ah Giovanni, que saudade!

Na pequena cabine de cinem a, invej o Enrique Am orim cercado de m ulheres, j ovens e irrequietas líderes fem inistas a rodear o m acho latino, alto, espadaúdo, risonho, bonito, m ilionário com unista, bel'uomo na voz cristalina de Maria de Firenze, bella donna. Na tela cavalos e éguas, de raças apuradas, correm livres nos cam pos infinitos para a linha do horizonte, as crinas ao vento as narinas dilatadas, alim árias m agníficas, feitas de força e elegância. Vestido de gaúcho, garboso na indum entária folclórica, o rom ancista Am orim à frente dos peões, cavalga sobre o pasto verde e os corações das convidadas.

Logo a correria cessa, cavalos e éguas são levados para o cruzam ento — na intenção do aprim oram ento da raça, explica Enrique, com petente e m alicioso. Film adas nos m ínim os detalhes, em grandes planos, as cenas do acasalam ento dos equinos anim am a assistência, ouvem -se gritinhos incontidos, risos nervosos. Maria de Praha, assessora da delegação tchecoslovaca, deixa escapar exclam ação de êxtase quando a tela inteira é ocupada pelo m em bro descom unal de um cavalo pam pa no ato de m ontar um a égua negra que estrem ece nas pa ta s: Christa Pana!, grita, em polgada. Enrique aproveita para explicar que o calibre desm esurado é atributo dos uruguaios, dos cavalos e dos hom ens. Maria da Bahia, que em verdade é alagoana, pequena j ornalista sem j ornal, sente um edecer-se a calcinha de rendas, suspira, bate palm as.

Enrique Am orim é conduzido em triunfo, qual das m arias o terá prim eiro? O docum entário é bem film ado, m as outra coisa é ver de perto cavalos e éguas cruzando na fazenda, fascinantes, explica Enrique: na tela falta o perfum e do cam po, em briagador.

São Paulo, 1944.

O quadro

Após o j antar Segall leva-m e ao atelier, além de dona Geny estão conosco Lucy Citti Ferreira e Sérgio Milliet*, encontro-m e de passagem por São Paulo, vim da Bahia para o lançam ento de São Jorge dos Ilhéus.

*Sérgio Milliet (1898/1966), poeta e ensaísta.