Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 147 de 262

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Pequim, 1986.

Embaixador

Alfredo Machado tom a conhecim ento da carta que escrevi a José Sarney recusando o posto de Em baixador do Brasil na França. Estava eu em Pequim quando o então Presidente da República m e telefonou do Palácio do Planalto para transm itir-m e o convite: ao am igo agradeci, recusei ao Presidente. Não m e considero com petente para exercer o posto, nulo que sou em econom ia para citar apenas um a das m atérias sobre as quais deveria tratar e resolver. Sarney dem orou a aceitar m inha recusa, insistiu durante m ais de um m ês, m as com o fiz pé firm e term inou por desistir de fazer-m e Em baixador.

— Só m esm o você para recusar a Em baixada na França. Você não tem j eito, é m aluco,

— Recusar a Em baixada não é nada. Não esqueça que em 1950 rom pi relações com a editora Gallim ard.

Decisão m uito m ais grave, desistência m uito m ais difícil, real-m ente acontecera. Jovem escritor brasileiro, m e vi em 1938 traduzido para o francês e publicado pela editora Gallim ard, quase m e em panzinei de glória, considerei-m e o m áxim o, vi-m e fam oso e rico. Depois de ter reeditado, após a guerra, em 1949, a tradução de Jubiabá*, a Gallim ard com prou-m e os direitos em língua francesa de Capitães da Areia. Enquanto o livro estava sendo traduzido Roger Caillois** regressou da Am érica do Sul e fundou na editora a coleção Croix du Sud, destinada a escritores dos países da Am érica Latina.

*Bahia de tous les Saints.

*Roger Caillois, (1913/1978), escritor francês.

Estando de partida para a Tchecoslováquia, procurei Claude Gallim ard e lhe pedi que a tradução dos Capitães não fosse incluída na nova coleção. Expliquei-lhe a razão, nada tinha a ver com Roger Caillois, um bom am igo e, sim , com m inha oj eriza aos guetos, a Croix du Sud era, a m eu ver, um gueto de autores latino-am ericanos. Claude Gallim ard disse-m e que fosse descansado, prom eteu-m e providências no sentido de atender a m eu pedido. Estava eu em Praga quando Capitaines de Sable foi publicado na Croix du Sud, decerto Claude Gallim ard esquecera o prom etido. Logo depois um a reedição de Jubiabá foi colocada ela tam bém na coleção. Afastei-m e da Gallim ard, levei anos para voltar às boas com a grande editora francesa, que atualm ente possui em seu catálogo vários livros m eus.

Editor, Alfredo Machado concorda que m e afastar da Gallim ard foi ousadia m aior do que recusar a Em baixada, foi loucura.

— Não se esqueça de que eu era um j ovem de trinta e poucos anos. Hoj e, velho de setenta e cinco, sou capaz de recusar a Em baixada, m as não sei se teria o topete de brigar com a Gallim ard.

Paris, 1990.

O baiano de Paris

Político capaz, porém frio, de m uitas bocas ouvi a afirm ação perem ptória sobre Luiz Viana Filho. Tenho razões para contestar a definição: ao negar calor hum ano ao autor de O Negro na Bahia, ela lhe dim inui a personalidade solidária. Em duas ocasiões pude m edir a inteireza do baiano de Paris — nasceu na capital francesa m as foi registrado brasileiro nato em cartório da rua da Misericórdia* — e hoj e quando ele j á não está entre nós desej o dar testem unho de seu hum anism o.

*Em Salvador, Bahia.

Gravem ente enferm o, obstinado com unista, o m ais pobre dos pobres, m estre rom ancista da Am azônia, Dalcídio Jurandir foi candidatado por Marques Rebelo e por m im ao Prêm io Machado de Assis, da Academ ia Brasileira. Contra seu nom e levantaram -se resistências num erosas, obstinadas, não som ente pelo fato de Dalcídio m anter-se inscrito no pecê, subversivo m alvisto pelos donos do poder, sobretudo devido a incidentes políticos ocorridos na área literária, nos quais o rom ancista desem penhara papel de relevo. De fato Dalcídio fora figura central no conflito — por pouco degenera em pugilato — que conduziu à ruptura entre as correntes constitutivas da ABDE. Nascida na preparação do histórico Prim eiro Congresso de Escritores*, a ABDE, após um a prim eira diretoria unitária, foi terreno de luta sem quartel entre os com unistas e os liberais. As divergências se acentuaram no Segundo Congresso**, a briga chegou ao extrem o de batalha cam pal em 1949 quando da eleição de nova diretoria.

A direção do pecê decidira obter o com ando da Associação, m esm o que custasse o preço da divisão dos escritores brasileiros, na ocasião eu j á estava cum prindo tarefas na Europa, m as sei de ciência certa ter Dalcídio discordado do ponto de vista do Partido, voto vencido na Com issão de Cultura presidida por Astroj ildo Pereira. Exatam ente porque discordara, foi-lhe dada — era a regra partidária — a tarefa de fazer cum prir a decisão tom ada pela m aioria da Com issão — em realidade decisão ditada pelo Bureau Político, apenas referendada pelos m íseros literatos sem nenhum a possibilidade de independência vis-à-vis da direção.

*Reunido em São Paulo em janeiro de 1945.

**Reunido em Belo Horizonte em 1947.

Assim , lá se foi Dalcídio para o sacrifício. Na assem bleia da ABDE em que deveria ser eleito o novo Presidente coube ao autor de Chove nos Campos de Cachoeira o com ando das hostes com unistas. O que se passou na fam igerada reunião não m e cabe relatar, pois não estava presente: a história da vida literária guarda m em ória de fatos lastim áveis. Trocaram -se acusações, insultos, as m ães dos líderes dos dois cam pos foram xingadas, houve am eaças de bofetões. Tudo culm inou quando Dalcídio — e esta foi a im agem que dele restou —, no cum prim ento da tarefa recebida, arrancou, a m uque, das m ãos do poeta Carlos Drum m ond de Andrade, o livro de atas da reunião, Desde então o rom ancista do ciclo do Extremo Norte ficou m arcado: o vilão principal, o vil bandido, o agressor, aquele m onstro. Pobre Dalcídio, doce e terna criatura, o índio sutil: m anifestara-se contra a decisão sectária, o sectarism o era estranho à sua natureza, m as, com unista convicto, suj eito à disciplina do Partido, cum prira a tarefa recebida, fazendo das tripas coração. Tantos anos decorridos, alguns senhores Acadêm icos vacilavam em lhe conceder o prêm io que sua obra novelística m erecia por dem ais.

Marques Rebelo telefona-m e do Rio para a Bahia às vésperas da votação: faltava a Dalcídio um voto para abiscoitar os cobres os parcos cruzeiros da dotação da láurea m áxim a da Academ ia iriam servir para a com pra dos m edicam entos caríssim os. Telefonei ao Acadêm ico Luiz Viana Filho — um dos chefes de fila dos escritores atropelados pela disciplina partidária de Dalcídio —, fui vê-lo em sua casa baiana, perguntei se ele era capaz de esquecer o passado e votar no vilão da história. Luiz tom ou do papel e da caneta, entregou-m e o voto com o qual Dalcídio ganhou o Prêm io Machado de Assis.

De outra feita, eu m e preparava para viaj ar à Europa, Glauber Rocha telefonou-m e de Los Angeles em estado de desespero, am eaçava suicidar-se se não pudesse voltar im ediatam ente para o Brasil: me mato, gritava. Fiquei alarm ado.

Glauber exilara-se após vigorosa atuação contra a ditadura m ilitar, nas colunas de O Pasquim, em m anifestações de rua, inclusive participara da vaia ao Marechal Castelo Branco*, em frente ao Hotel Glória. Manifestação de repúdio prom ovida por intelectuais, a com itiva do Marechal atravessara por entre insultos, ofensas, xingos, da com itiva fazia parte Luiz Viana Filho, Chefe da Casa Civil da Presidência. A condição de escritor fê-lo m erecedor de apupos preferenciais dos m anifestantes, logo presos.

*Na época Presidente da República.

Andou Glauber de ceca em m eca com seu gênio, sua rebeldia, sua ânsia de fazer cinem a. No exílio realizou dois longa-m etragens, um film e espanhol, outro africano. No m ais, pelo m undo afora as portas se fecharam para ele, sej a na área capitalista, sej a na área socialista, inclusive sua aventura cubana foi das m ais frustrantes. Term inou nos Estados Unidos, ali queim ou os últim os cartuchos de paciência e de esperança, tam pouco nos States lhe deram trabalho, roteiro a realizar. Entrou em crise, telefonava-m e diariam ente: se não puder voltar me mato.

De novo fui visitar Luiz Viana Filho na casa baiana tão aprazível e acolhedora, m ais um a vez lhe perguntei se ele era capaz de esquecer o passado, m esm o tendo se sentido ofendido e m agoado. Relatei-lhe o dram a de Glauber: se existe alguém capaz de resolver o problem a, esse alguém é você, pode obter do governo — estávam os no governo Geisel, Golbery era o hom em forte no Planalto — garantias para a volta de Glauber. Mas garantias reais — no governo Medici, Zuzu Angel havia obtido licença para o retorno do filho: pode vir, nada acontecerá. O rapaz desem barcou, foi preso e em seguida assassinado de m aneira a m ais cruel.

Vou ver o que se pode conseguir, respondeu-m e Luiz, fique descansado, farei o possível. E o im possível? — perguntei. Sim, o possível e o impossível, concluiu. Marcam os encontro em Londres onde ele devia estar daí a alguns dias. De tudo dei conhecim ento a Glauber: Luiz Viana? Acreditas? Eu o conheço bem , acredito.

Na data com binada recebi, em Londres, telefonem a de Luiz Viana, falava do Brasil, adiara a viagem , m as o problem a de Glauber j á o havia resolvido, nosso am igo podia regressar ao Brasil quando m elhor lhe parecesse. Eu quis saber se havia garantia absoluta que nada de ruim lhe iria suceder. Nada, respondeu Luiz, tenho a palavra de Golbery e a do Presidente Geisel.

Voltou, assim , Glauber Rocha ao Brasil pela m ão de Luiz Viana filho, não foi incom odado, realizou seu derradeiro longa-m etragem , A idade da Terra. Vale acrescentar que, ao retornar, Glauber viu-se vítim a do m ais terrível patrulham ento, a ralé dos radicais o insultou e caluniou de traidor e vendido, disseram -lhe todas as baixezas e o fizeram com a m aior ferocidade, com o ódio dos nulos, dos m esquinhos ideólogos. Sei quanto Glauber se sentiu ferido: estou envolto em infâmia, afogado em merda, m e disse um dia.

Recebo em Paris a notícia da m orte de Luiz Viana Filho. Nesta cidade nasceu o baiano ilustre, filho de pai igualm ente ilustre, tiveram os dois o privilégio de governar a Bahia. Ao recordar o baiano de Paris, que aprendi a estim ar na luta contra o Estado Novo, e de quem não m e afastaram as divergências, desej o dizer de seu calor hum ano, o oposto da frieza política que lhe atribuíram . Eu o revej o ao lado de seus iguais: Dalcídio Jurandir, Glauber Rocha, Luiz Viana Filho, três m estres da cultura brasileira.