Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 135 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Monte Estoril, 1992.

Por maiores esforços tenha feito, jamais consegui localizar no céu as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul — uma de minhas frustrações: todo mundo vê, será que vê?

Monte Estoril, 1992.

O não-candidato

Da Bahia, ao telefone, Rosane lê-m e em dólares telegram as de candidatos à vaga de Chico de Assis Barbosa* na Academ ia Brasileira de Letras, estou no Monte Estoril, em Portugal, escrevendo ao sol do inverno m anso, gostosura.

*Francisco de Assis Barbosa (1914/ 1991), escritor.

Apenas ela desliga, Luís Forj az Trigueiros cham a e m e diz que recebeu carta de Ascendino Leite, não sei por que cargas d'água penso que o rom ancista paraibano tam bém é candidato. Antes que se esclareça o quiproquó fico desgostoso, pois desej ando tanto votar em Ascendino, j á tenho com prom isso para a vaga do Chico. Se alguém m erece a Academ ia é Ascendino, pelos rom ances e m ais ainda pela série de volum es de seu Diário, que cobre a literatura e a vida literária brasileiras contem porâneas. Obra singular em nossas letras, tão pobres de diários e m em órias.

Polêm ico, discutidor, brigão, Ascendino passou a vida com prando barulhos e desafetos, m as nas horas decisivas com portou-se sem pre de form a correta e generosa. Assim agiu durante as perseguições de sessenta e quatro, após o golpe m ilitar, defendendo inim igos, assum indo a liberdade de pensam ento e de expressão, o oposto do que dele disseram e afirm aram . Escritor de prim eira, confrade de prim eiríssim a.

Respiro aliviado quando Luís esclarece o engano: Ascendino não é candidato à Academ ia, ainda não é, espero que o sej a um dia para que eu tenha o prazer de lhe dar m eu voto.

Meu materialismo não me limita, respondeu Pedro Archanjo na tenda dos milagres, quando o intelectual estranhou que um materialista exercesse funções de babalaô de candomblé — aqui repito a afirmação do sábio do povo, pardo, paisano e pobre, ao reafirmar meu materialismo imune ao vírus da aids ideológica.

São João del Rei, 1969.

Os novos-ricos

Na casa senhorial de São João de Rei, ao lado da Póvoa do Lanhoso, nas cercanias de Braga, habitam os pais de Antônio Celestino, avô de netos m eus, am igalhaço. O pai seu Pedrosa, em verdade é padrasto: dona Virgínia das Dores viúva, casou-se com o professor Pedrosa, letrado, diretor de colégio, afável criatura. Ela, a fidalga, Virgínia das Dores Sim ões d'Alm eida Pedrosa, outrora Celestino, conserva-se bela e altiva, a nobreza da casta e das virtudes, escreve versos — um a das netas lhe herdará a vocação.

Pai am antíssim o de três filhas, a do m eio m ãe de m eus netos ainda o é m ais da filha caçula, a dos poem as, não esconde a vaidade quando lhe gabam os versos de Carm inha*. Baiano do Minho, esse senhor Celestino, bancário a vida toda, banqueiro por uns tem pos, é um dos responsáveis pelo florescim ento das artes m odernas na Bahia. Diretor do Banco Econôm ico, com o aval de Miguel Calm on** e o apoio de Ângelo Calm on de Sá**, abriu carteira para o financiam ento de exposições e a venda de quadros e esculturas, iniciativa de evidente im portância para as finanças sem pre incertas dos artistas. Em A Tarde exerce a crítica de arte, douta e m oderna, não direi im parcial, pois Celestino é devoto da am izade e a am izade é partidária. Escreveu um livro, Gente da Terra, sobre os plásticos da Bahia, os de sua preferência: Cary bé, Carlos Bastos, Floriano, Cala, Fernando Coelho, Mário Cravo, a curriola toda.

*Maria do Carmo Celestino, poeta.

**Miguel Calmon (1912/1967) e Ângelo Calmon de Sá, banqueiros.

Im possível esquecer a m anhã sinistra do incêndio do antigo Mercado Modelo, o verdadeiro: assisti Celestino abrir crédito im ediato para os barraqueiros em pânico. E o vi chorar quando se deparou pela prim eira vez com o casebre em ruínas onde vivia em Pau da Lim a o pintor Cardoso e Silva. Am eaçado de solidão na viuvez, teve a sorte de casar-se com a senhora Maria da Conceição Esteves de Oliveira, da nobreza rural, planta m açãs, colhe olivas, produz azeite e vinho e todos a conhecem e estim am por Sãozinha, professora da escola dos m eninos pequenos. Em m ais de um rom ance eu o coloquei de personagem , saiu-se bem , com honra e brio, Antônio Celestino no, personagem e tanto.

Me perdi falando do am igo, m as quero contar dos pais, o professor, lido, civilizado, e a senhora altiva e bondadosa, havia ainda o velho tio padre, enferm o. Em torno, nas terras de lavrar, os cam pônios, hábitos feudais: eu os enxergava na cozinha onde bebiam um trago para calentar, o inverno do Minho é rigoroso. Relações de respeito e estim a com os senhores da Casa do Ribeiro, soberana, um a distância de castas e o paternalism o.

A pobreza levou à im igração dezenas de m ilhares de portugueses, repetindo os que no passado haviam em barcado para o Brasil encam inharam -se para a França, a Alem anha, a Inglaterra, os países ricos da Europa, em busca de trabalho. Bom im igrante o português, nós o sabem os: m uitos deles tiraram o pé da lam a, econom izaram , vieram e vêm aplicar o dinheiro na terrinha santa, que as benesses do prim eiro m undo não conseguiram fazê-los esquecer. São os franciús, os avec, constroem residências dotadas de conforto, m edonhosas, as casas estilo maison com janelas tipo fenêtres conform e se diz em Braga, conspurcam a paisagem do Minho, do Alto Douro, dos Trás-os-Montes.

Estava eu curtindo o frio inverno em casa de dona Virgínia e seu Pedrosa quando Am élia, a m ocinha que cuida da cozinha e dos gatos, veio anunciar a presença à porta de um casal de antigos servos, de volta a Portugal, em férias. Haviam im igrado dez anos antes para a França, acabavam de levantar nas im ediações sua m aison. Queriam cum prim entar os ex-patrões.

Testem unhei a m udança dos hábitos im posta pela realidade: o surgim ento dos novos-ricos na província portuguesa. Onde recebê-los perguntavam -se em dúvida a fidalga e o professor, na cozinha com o sem pre o tinham feito ou deviam convidá-los à sala de visitas? Afinal j á não eram os m esm os pobretões, servos da terra. Durou pouco o ataranto, dona Virgínia e Seu Pedrosa decidiram , disseram a Am élia que os fizesse entrar na sala. Lá os vi, sentados no sofá, o casal bem -posto, bem -vestido, ele de gravata, ela nos trinques da Galerie Lafay ette, novos senhores. Ainda assim diziam Vossa Excelência aos antigos patrões, em reverência diante dos fidalgos, é m ais difícil m udar por dentro do que por fora.