Navegação de Cabotagem
Monte Estoril, 1992.
Por maiores esforços tenha feito, jamais consegui localizar no céu as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul — uma de minhas frustrações: todo mundo vê, será que vê?
Monte Estoril, 1992.
O não-candidato
Da Bahia, ao telefone, Rosane lê-m e em dólares telegram as de candidatos à vaga de Chico de Assis Barbosa* na Academ ia Brasileira de Letras, estou no Monte Estoril, em Portugal, escrevendo ao sol do inverno m anso, gostosura.
*Francisco de Assis Barbosa (1914/ 1991), escritor.
Apenas ela desliga, Luís Forj az Trigueiros cham a e m e diz que recebeu carta de Ascendino Leite, não sei por que cargas d'água penso que o rom ancista paraibano tam bém é candidato. Antes que se esclareça o quiproquó fico desgostoso, pois desej ando tanto votar em Ascendino, j á tenho com prom isso para a vaga do Chico. Se alguém m erece a Academ ia é Ascendino, pelos rom ances e m ais ainda pela série de volum es de seu Diário, que cobre a literatura e a vida literária brasileiras contem porâneas. Obra singular em nossas letras, tão pobres de diários e m em órias.
Polêm ico, discutidor, brigão, Ascendino passou a vida com prando barulhos e desafetos, m as nas horas decisivas com portou-se sem pre de form a correta e generosa. Assim agiu durante as perseguições de sessenta e quatro, após o golpe m ilitar, defendendo inim igos, assum indo a liberdade de pensam ento e de expressão, o oposto do que dele disseram e afirm aram . Escritor de prim eira, confrade de prim eiríssim a.
Respiro aliviado quando Luís esclarece o engano: Ascendino não é candidato à Academ ia, ainda não é, espero que o sej a um dia para que eu tenha o prazer de lhe dar m eu voto.
Meu materialismo não me limita, respondeu Pedro Archanjo na tenda dos milagres, quando o intelectual estranhou que um materialista exercesse funções de babalaô de candomblé — aqui repito a afirmação do sábio do povo, pardo, paisano e pobre, ao reafirmar meu materialismo imune ao vírus da aids ideológica.
São João del Rei, 1969.
Os novos-ricos
Na casa senhorial de São João de Rei, ao lado da Póvoa do Lanhoso, nas cercanias de Braga, habitam os pais de Antônio Celestino, avô de netos m eus, am igalhaço. O pai seu Pedrosa, em verdade é padrasto: dona Virgínia das Dores viúva, casou-se com o professor Pedrosa, letrado, diretor de colégio, afável criatura. Ela, a fidalga, Virgínia das Dores Sim ões d'Alm eida Pedrosa, outrora Celestino, conserva-se bela e altiva, a nobreza da casta e das virtudes, escreve versos — um a das netas lhe herdará a vocação.
Pai am antíssim o de três filhas, a do m eio m ãe de m eus netos ainda o é m ais da filha caçula, a dos poem as, não esconde a vaidade quando lhe gabam os versos de Carm inha*. Baiano do Minho, esse senhor Celestino, bancário a vida toda, banqueiro por uns tem pos, é um dos responsáveis pelo florescim ento das artes m odernas na Bahia. Diretor do Banco Econôm ico, com o aval de Miguel Calm on** e o apoio de Ângelo Calm on de Sá**, abriu carteira para o financiam ento de exposições e a venda de quadros e esculturas, iniciativa de evidente im portância para as finanças sem pre incertas dos artistas. Em A Tarde exerce a crítica de arte, douta e m oderna, não direi im parcial, pois Celestino é devoto da am izade e a am izade é partidária. Escreveu um livro, Gente da Terra, sobre os plásticos da Bahia, os de sua preferência: Cary bé, Carlos Bastos, Floriano, Cala, Fernando Coelho, Mário Cravo, a curriola toda.
*Maria do Carmo Celestino, poeta.
**Miguel Calmon (1912/1967) e Ângelo Calmon de Sá, banqueiros.
Im possível esquecer a m anhã sinistra do incêndio do antigo Mercado Modelo, o verdadeiro: assisti Celestino abrir crédito im ediato para os barraqueiros em pânico. E o vi chorar quando se deparou pela prim eira vez com o casebre em ruínas onde vivia em Pau da Lim a o pintor Cardoso e Silva. Am eaçado de solidão na viuvez, teve a sorte de casar-se com a senhora Maria da Conceição Esteves de Oliveira, da nobreza rural, planta m açãs, colhe olivas, produz azeite e vinho e todos a conhecem e estim am por Sãozinha, professora da escola dos m eninos pequenos. Em m ais de um rom ance eu o coloquei de personagem , saiu-se bem , com honra e brio, Antônio Celestino no, personagem e tanto.
Me perdi falando do am igo, m as quero contar dos pais, o professor, lido, civilizado, e a senhora altiva e bondadosa, havia ainda o velho tio padre, enferm o. Em torno, nas terras de lavrar, os cam pônios, hábitos feudais: eu os enxergava na cozinha onde bebiam um trago para calentar, o inverno do Minho é rigoroso. Relações de respeito e estim a com os senhores da Casa do Ribeiro, soberana, um a distância de castas e o paternalism o.
A pobreza levou à im igração dezenas de m ilhares de portugueses, repetindo os que no passado haviam em barcado para o Brasil encam inharam -se para a França, a Alem anha, a Inglaterra, os países ricos da Europa, em busca de trabalho. Bom im igrante o português, nós o sabem os: m uitos deles tiraram o pé da lam a, econom izaram , vieram e vêm aplicar o dinheiro na terrinha santa, que as benesses do prim eiro m undo não conseguiram fazê-los esquecer. São os franciús, os avec, constroem residências dotadas de conforto, m edonhosas, as casas estilo maison com janelas tipo fenêtres conform e se diz em Braga, conspurcam a paisagem do Minho, do Alto Douro, dos Trás-os-Montes.
Estava eu curtindo o frio inverno em casa de dona Virgínia e seu Pedrosa quando Am élia, a m ocinha que cuida da cozinha e dos gatos, veio anunciar a presença à porta de um casal de antigos servos, de volta a Portugal, em férias. Haviam im igrado dez anos antes para a França, acabavam de levantar nas im ediações sua m aison. Queriam cum prim entar os ex-patrões.
Testem unhei a m udança dos hábitos im posta pela realidade: o surgim ento dos novos-ricos na província portuguesa. Onde recebê-los perguntavam -se em dúvida a fidalga e o professor, na cozinha com o sem pre o tinham feito ou deviam convidá-los à sala de visitas? Afinal j á não eram os m esm os pobretões, servos da terra. Durou pouco o ataranto, dona Virgínia e Seu Pedrosa decidiram , disseram a Am élia que os fizesse entrar na sala. Lá os vi, sentados no sofá, o casal bem -posto, bem -vestido, ele de gravata, ela nos trinques da Galerie Lafay ette, novos senhores. Ainda assim diziam Vossa Excelência aos antigos patrões, em reverência diante dos fidalgos, é m ais difícil m udar por dentro do que por fora.