Navegação de Cabotagem
Pequim, 1987.
Casa patriarcal de senhores de escravos, pom ar em decadência, patos e galinhas ciscando nos destroços da senzala, a tranquilidade, a paz, o ócio, eis-nos parados no tem po, nos dias de ontem , doce fim de sem ana regado a vinho andino das m elhores safras.
O vinho chileno e o refinado de-com er term inaram exatam ente no j antar de dom ingo, na m esm a noite devíam os regressar ao Rio. Devíam os m as não regressam os, pois Pablo, regalado, decidiu perm anecer ao m enos m ais dois dias na fazenda: nos quedaremos hasta el miércoles, decretou. A dona da casa, um pouco ébria com o sem pre, aplaudiu a decisão com entusiasm o, para com em orá-la esvaziou a últim a garrafa do tinto chileno, un terciopelo na poética classificação do hóspede fam oso.
O m arido pôs as m ãos na cabeça. Que fazer? No vão de um a j anela aberta sobre a noite desabafou com igo, sentia-se hum ilhado. Alim entar os convidados não era problem a de m onta, sacrificariam uns patos, um as galinhas, o criador, irm ão da dona da casa, que se danasse. O vinho chileno, porém , não havia onde obtê-lo e se houvesse cadê dinheiro para pagá-lo? Tam anho desespero m e afetou, entrei em cena: não se aflij a pelo vinho.
Segunda-feira cedo, os convidados ainda dorm iam , recolhem os, ele e eu, as garrafas vazias, de brancos e de tintos, os chilenos m ais nobres e m ais caros, enchem os um saco, m etem os no carro e lá fom os, o m arido e eu, para Miguel Pereira. Num arm azém de secos e m olhados adquiri — fiz questão de pagar, não era m uito dinheiro — vinhos nacionais de tipos m ais ou m enos sem elhantes, com a aj uda do balconista ali m esm o baldeam os os nacionais para as garrafas vazias dos chilenos, arrolham os bem arrolhadas, de volta à casa-grande os brancos postos a gelar no refrigerador, os tintos à vista na garrafeira.
Pouco afeito aos vinhos rio-grandenses, naquele então m uito deixavam a desej ar, declarei-m e indisposto da barriga, abstive-m e. Garrafa por garrafa, o vinho foi bebido todo ele, entre exclam ações patrióticas do poeta ao degustá-lo — não há vinho que se compare ao chileno, o francês tem mais fama, mas não é melhor—, discursava Pablo, connaisseur. Acom panhado pela dona da casa no copo e nas exclam ações, nos elogios à vendange andina: tirante o uísque, ela não era connaisseuse.
Pequim, 1987.
Singularidade
Em Pequim , Fan Weixin, tradutor para o chinês de livros de língua portuguesa, de brasileiros traduziu José de Alencar e Herberto Salles, traz-m e exem plar de tradução de Dona Flor e seus Dois Maridos, edição m odesta porém decente, Fan está contente com a repercussão do rom ance da m oça baiana.