Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 67 de 262

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Luanda, 1979.

*Eulália Dalila Jorge Amado (1935/1950), filha do primeiro casamento de J. A.

Levei um ano para m e recuperar do m ês atroz: Glauber no hospital m orrendo, os olhos esbugalhados, tentando m anter-se inteiro, guloso da vida vivendo anelante os dias derradeiros, eu, Zélia e João Ubaldo derrotados, os únicos a am á-lo deveras em m eio à m ultidão que lhe enchia o quarto de fum aça e ilusão.

Após a feij oada, num dom ingo, com entam os com João e Berenice* preocupados: ele está verde e tosse sem parar. Três dias depois o telefonem a sobressalta-m e no hotel: Glauber hospitalizado em Sintra, tuberculoso, vom itara sangue. Fom os buscá-lo, João e eu, e o transportam os para Lisboa, com eçaram os exam es, o tem or, a esperança: não, não tem câncer, exam es negativos, a festa no hospital. Tinha câncer de pulm ão, dele m orreu dias depois. Entupindo o quarto, a recua dos aproveitadores a conversar, a fum ar, a cheirar, a corvej ar, o desam or. No leito, as faces encovadas, os olhos de pedinte, Glauber não queria m orrer, ai não queria, tinha ainda m uito que fazer, era um m enino.

*Berenice, mulher de João Ubaldo Ribeiro.

Se às onze da m anhã eu ainda não chegara ao hospital, o telefone soava: cadê você, também me abandonou, não vem mais me ver? Lá ia eu, vazio, um zum bi nas ruas de Lisboa, trespassado. Ainda vej o na fresta da porta o olhar de desespero, de adeus para sem pre adeus, quando partim os do hospital quase correndo, Zélia, João e eu, para não vê-lo na m aca a cam inho do avião. Em barcaram -no a tem po de m orrer no Brasil.O funeral coube às carpideiras, aos que na antevéspera tanto concorreram para sua m orte, os que o enterraram em vida — me sinto enterrado num poço de merda, m e disse no Rio, antes de partir para a Europa —, os que o acusaram de traidor, vendido, covarde, gorila, filho-da-puta. Esses que hoj e são as viúvas de Glauber Rocha, vestem luto, choram lágrim as de crocodilo, se aproveitam , se apropriam , usufruem . Deles o funeral, são os coveiros.

A m em ória, porém , do m enino terrível e terno, o cangaceiro antônio das m ortes, deus e o diabo na terra do sol, São Jorge vencendo o dragão do m al, xangô no toque do barravento, na hora de film ar e de afirm ar, a m em ória escapa aos velhacos, aos aproveitadores, aos festivos da m ídia: face do povo, renasce cada vez que film e seu é exibido na tela de um cinem a.

Luanda, 1979.

 

O angolano

Entre os heróis aprendidos nos bancos escolares, dou preferência ao índio Poti, ao negro Henrique Dias, dois brasileiros, em punharam arm as ao lado de escassos patriotas portugueses, puseram a correr os holandeses* — a corte portuguesa j á dera a colônia por perdida.

*Expulsão dos holandeses — Henrique Dias lutou na primeira e segunda batalhas de Guararapes, 1648/1649.

Em Luanda, um a das faces da Bahia, a outra é Lisboa, o diretor do Museu Histórico, Henrique Abrantes, exibe-m e troféus de guerra, alguns de épocas rem otas, outros da luta recente pela independência. Ao ouvir-m e citar o nom e de Henrique Dias, perguntou-m e se eu sabia que o negro, personagem da história do Brasil, era natural de Angola. Espanto-m e, não sabia, pensava-o filho de africanos nascido em senzala do nordeste. Nasceu aqui, garante-m e o diretor, apóia-se em docum entos, pode exibi-los see eu quiser, dispenso.