Navegação de Cabotagem
Bahia, 1967.
Faz teatro, toca piano, dança tango, dá-se à declam ação de poesia, é ginasta, pratica a natação e, com o se não bastasse, conta-m e que vai estudar desenho. Viaj a, passeia, curte os filhos, as noras e os netos, a sogra, os cunhados, os sobrinhos, a parentela toda, sábio conselheiro, anim ado com panheiro — não faz distinção entre os descendentes de seu sangue grapiúna e os do sangue j udeu de Fanny. Por falar em Fanny, Joelson m e deve tê-la conhecido em 1945, quando ela era m inha secretária, a m ais com petente que j á tive: m elhor esposa não existe. Jam es, o caçula dos três irm ãos, viu Joelson representar, ator secundário num teatro de am adores. Fortem ente im pressionado resum iu sua opinião num a frase um tanto ou quanto enigm ática:
— É um a coisa!
Bahia, 1967.
A passionária
O telefone m e tira da cam a às cinco da m anhã. O pai de José Luís Pena, colega de João Jorge, m e inform a que o filho dele e o m eu foram presos de m adrugada com m ais um a centena de estudantes durante vigília universitária de protesto. Não é a prim eira cadeia de João Jorge, não será a últim a. Decido acordar Wilson Lins, governista poderoso, am igo certo, ligo o telefone, o próprio Wilson atende:
— Estou chegando agorinha m esm o da polícia, consegui soltar quase todos, m ais de cem . Ficaram presos só dezoito, os contum azes, vão ser ouvidos, depois serão m andados em bora. João se encontra entre os dezoito, estive com ele, está bem . O Artur de Mirabeau tam bém ficou entre os perigosos.
Artur Sam paio, filho de Mirabeau, por quê? Não o sabia perigoso. Menino ótim o, sério, estudioso, cursa adm inistração de em presas para ser de futuro executivo poderoso, assim será. Em m atéria de contestação estudantil à ditadura eu o sei apenas solidário, seu nom e não se inscreve entre os dos prom otores das badernas que tanto inquietam os gorilas. Curioso, busco saber por que o colocaram entre os dezoito.
Por ser irm ão de Maria, esclarece-m e Artur em liberdade, paguei por ela, na hora do bafafá capou o gato. Maria Sam paio, agitadora, é bem a filha de Norm a, não tem papas na língua nem m eias-m edidas, passionária adolescente, bela, ardente, flam a libertária. Nada lhe contém o im pulso, bem o sei.
Alguns dias antes ela com andara a vaia — a m aior de m inha vida — com que no Teatro Castro Alves a estudantada protestou contra a decisão do j úri de m úsica popular do qual fizem os parte Cy va de Oliveira*, Dorival Cay m m i e eu, a convite de Carlos Coqueij o Costa**. A m eninada torcia por certas m úsicas de protesto, se boas ou m ás pouco im portava, im portava, sim , a contestação. Em geral ruins, perderam para as m erecedoras, proclam ados os resultados foi aquela vaia. Moças e rapazes gritavam na plateia, desatinados, sob as ordens de Maria Sam paio. Traidores!, insultavam .
— Traidores de quê? — pergunta-m e Cay m m i, sem entender. — As m úsicas que prem iam os são as m elhores.
Melhores ou piores, não se tratava disso. Ainda vej o Maria Sam paio de pé em cim a da cadeira vaiando aos berros seus bons tios Dorival e Jorge, am bos de seu afeto, nem por isso a salvo do sectarism o adolescente, da assuada.
*Cyva de Oliveira, cantora, diretora do Quarteto em Cy.
**Carlos Coqueijo Costa (1924/1988), jurista e compositor.
Não sendo esportista não tenho recordes a exibir, nenhum. Nenhum? Menos verdade, tenho um e esse não é de se desprezar, aqui o exibo: percorri o Brasil, de ponta a ponta, em estado de prisioneiro político, talvez não seja o único a tê-lo feito, mas estou nesse campeonato.
Nos primeiros dias de 1937, às vésperas do golpe do Estado Novo, fui preso em Manaus, acusado de ali ter ido para preparar, em conluio com o folclorista Nunes Pereira, uma insurreição de índios da Amazônia, nada mais, nada menos. Depois de dois meses de cadeia, um tanto quanto pândego, embarcaram-me no navio Pedro I, sob a vigilância de tira federal em visita à família amazonense nas festas de fim de ano. Durante cerca de vinte dias, de porto a porto, desci a costa brasileira, de Manaus ao Rio de Janeiro. Em Belém a polícia armou um fuzuê a bordo, me trancou no camarote, nas demais escalas, à parte não poder desembarcar, tudo correu tranquilo. No Rio levaram-me à polícia, à noite me puseram em liberdade.
Tendo regressado do Uruguai e da Argentina, encontrava-me em Porto Alegre, em agosto de 1942, ia todas as noites à redação do Correio do Povo para saber dos últimos telegramas da guerra e bater papo com Raul Riff*. Tomávamos média com pão e manteiga num botequim em frente, onde a polícia, numa meia-noite, me tomou preso, na manhã seguinte meteu-me no trem em companhia de um delegado. A viagem de Porto Alegre ao Rio durou uns quatro dias, em SãoPaulo mudamos de trem, fiquei no xilindró uns meses, soltaram-me a tempo de ir passar o natal na fazenda com o coronel João Amado e dona Eulália.
*Raul Riff, jornalista.