Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 52 de 262

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Paris, 1974.

Vade retro, ora pois, alvíssaras, não aconteceu. De Ram alho Eanes a Mário Soares navega a dem ocracia, consolidada. Deus é brasileiro, nunca duvidei, m as desconfio que im igrou, veio viver em Portugal.

 

Paris, 1974.

 

As rosas

Por pouco m inha paixão pelo futebol m e fez perder a am izade de Françoise Xenaquis, não tivesse a escritora superado com bom hum or a decepção da negativa abrupta em resposta à sua gentileza de m arcar dia e hora para m e entrevistar:

— Na m esm a hora do j ogo Brasil x Polônia? Cest de la folie. Im possible.

Foi durante a Copa do Mundo de 1974, Copa infeliz, a partida iria decidir quem ficaria em terceiro lugar, perdem os. Só dei conta da gafe que com etera após ter enfiado os cornos da derrota, falado m al do técnico — técnicos éram os todos nós, brasileiros, àquela época de futebol tricam peão do m undo, hoj e andam os m ais suj os que pau de galinheiro.

Dizer a um intelectual francês que se recusa hora para um a reportagem literária quando se está lançando um rom ance é m ais que gafe, indelicadeza, é erro indesculpável. Estava indo para as livrarias a tradução francesa de Tenda dos Milagres, Françoise, boa am iga, responsável por literatura e livros em Le Matin, se propunha a dar-m e espaço em seu j ornal, badalar o livro, duas páginas de entrevista — e o im becil m andava a oferta às favas para assistir pela televisão um m atch de futebol. Creio que m e perdoou por im becil, relevou o absurdo.

Am iga de longa data, Françoise Xenaquis atribui-m e ter-lhe feito a cabeça em outros tem pos. Em 1949 leu Les Chemins de la faim*, tradução de Seara Vermelha, tornou-se com unista por uns anos, enveredou pela literatura para sem pre. Nos idos de 60, relem brando as leituras da adolescência, Françoise escreveu que m andaria um a rosa durante um ano, a cada dia, ao editor que reeditasse a tradução francesa de Seara. Desde então desabrocharam em edições as rosas de Françoise, as rosas da am izade.

*Les Chem ins de la Faim , Éditeurs Français Reunis

 

Fazenda Lovera, São Paulo, 1960.

O poeta

Em 1960 Zélia e eu tivem os o privilégio de acom panhar Sim one de Beauvoir e Jean-Paul Sartre Brasil afora, em preitada excitante e divertida. Um dos m aiores êxitos da viagem do filósofo existencialista ele o obteve em Araraquara, a notável conferência pronunciada ante um público de estudantes em frenesi, Sartre carregado em triunfo. Dela voltávam os no rum o da capital paulista, íam os pernoitar na Fazenda Lovera, hóspedes do casal Júlio Mesquita Filho.

O diretor de O Estado de S. Paulo reunia naquela noite num erosos convidados para um j antar em hom enagem às duas celebridades internacionais cuj a estada no Brasil m erecia do j ornal paulista cobertura espetacular. Cobertura ao j eito do Estadão, ou sej a: noticiário com pleto e isento, um repórter designado especialm ente para acom panhar Sim one e Sartre em suas andanças brasileiras e, ao m esm o tem po, o com entário polêm ico nas páginas opinativas — a controvérsia, a crítica, a rej eição do discurso esquerdista dos visitantes, da pregação revolucionária, Sartre vivia a cam panha da independência da Argélia, porta-bandeira e porta-voz dos patriotas argelinos que se batiam contra o exército francês de ocupação.

O j ornal tratava com respeito os insignes, não regateava elogios ao filósofo dublê de rom ancista e teatrólogo, à m em orialista, cuj os livros, os dela e os dele, exerciam tam anha influência sobre o pensam ento dos intelectuais e das m assas populares. Em troca, nos editoriais o Estadão baixava o pau, de rij o, no posicionam ento político, na m ensagem dos visitantes, teses libertárias que iriam desem bocar na conquista de Paris pela j uventude francesa em m aio de sessenta e oito. Jornalism o com o deve ser e em geral não é.

Jantar grandioso, não sei quantos convidados, o que São Paulo tinha de m ais representativo, a intelectualidade tupiniquim e os m agnatas. Com ida de se lam ber os beiços, os vinhos, os licores, a doçaria afro-brasileira, as frutas incom paráveis e o à-vontade da aristocracia quatrocentona. Na cabeceira da m esa central os donos da casa e os hom enageados. Eu estava num a das m esas laterais, ao lado de Carlão, filho de Julinho, um dos j ovens herdeiros dos Mesquita, m eu cam arada, m orreu m oço, um a lástim a. Acom panhávam os de longe a anim ada conversa entre hospedeiros e hóspedes, Julinho gastando seu francês da Sorbonne, falando sem parar, Sartre a ouvir, atento.

— Im agino as barbaridades que o velho está dizendo a Sartre ... — debochado, Carlão desata em riso, eu o acom panho.

O diálogo entre o filósofo francês e o j ornalista brasileiro durou todo o j antar, anim adíssim o. Julinho parecia em polgado, segundo Carlão estaria tentando convencer o pai do existencialism o, o revolucionário enragé, a aderir a De Gaulle. Carlão e eu passam os a inventar os term os da conversa que prosseguia na cabeceira da m esa, Julinho veem ente, Sartre atônito, atravessam os o rega-bofe a adivinhar e a rir.

Term inado o festim Sartre e Sim one se recolheram ao quarto preparado no capricho para eles, o pinico de louça antigo arrancou exclam ações de Sartre, aplausos de Sim one, nós os acom panham os para dizer-lhes boas-noites e saber com o se sentiam . Apesar de habituado ao trato dos políticos, das personalidades, dos grandes do m undo, Jean-Paul Sartre estava de fato im pressionado:

—Nunca vi ninguém igual a Monsieur Mesquita — acentuava o a —, é fascinante. Nunca vi ninguém tão conservador, tão reacionário. O que ele m e disse é inim aginável! Por vezes pareceu-m e estar ouvindo alguém da Idade Média.

Pensei explicar-lhe o fenôm eno Júlio Mesquita Filho, m as a noite ia avançada, deixei para fazê-lo na viagem para São Paulo. Não foi preciso, tudo ficou claro na m anhã seguinte. Claro ou ainda m ais obscuro, não posso garantir.

Após a fartura regia do café com leite de fazenda brasileira, antes de em barcarm os no autom óvel, Julinho Mesquita levou seus hóspedes a percorrer os cafezais que se estendiam a partir dos fundos da casa-grande. Ia na frente, entre Sartre e Sim one, falava, explicava; um pouco atrás, cercados por pessoas da fam ília, Zélia e eu nos encantávam os com o verdor e o viço da plantação.