Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1977.
*Luiz Amado, diplomata.
Coincidência, essa sim im portante, é o desgosto que nos causam as fardas, o desgosto se torna horror quando envergadas por m ilitares no poder. Alfonsín designou o hom em certo, o cidadão exem plar para a Presidência da Com issão encarregada de apurar os crim es dos gorilas argentinos, ponto alto na biografia de Ernesto Sábato. A casa do escritor em Santos Lugares foi naqueles dias o refúgio da j ustiça e da verdade, ali se acolheram o sofrim ento e a esperança das vítim as da ditadura dos videlas.
De Santos Lugares vam os a Buenos Aires em nossa volta ao m undo de espantos e rem iniscências, recordam os alguém caro ao m eu coração, tam bém ao dele, Rodolfo Ghioldi. Eu o conheci no Brasil, em 1935, gram ou anos de prisão após a intentona*, um com unista decente e devotado, criatura hum ana acim a das contingências, lim itações e m isérias im postas pela ideologia. Dem oram os a recordar Rodolfo e Carm en**, quando estive exilado na Argentina eles foram m inha fam ília, a casa deles era m inha casa. Tam bém Ernesto os conheceu e estim ou, a am izade vinha dos tem pos em que m ilitara no pecê da Argentina, eu não sabia que ele tivesse sido inscrito no partido: foste com unista?
*A tentativa de levante militar dirigida pelos comunistas em 1935.
**Carmen Ghioldi, mulher do líder comunista.
— Todos nós o fom os, Jorge, todos.
De fato m e pergunto qual o intelectual válido, o hom em político de im portância da Am érica Latina que não tenha assentado praça no pecê de seu país: não serão m uitos. Em certo m om ento cada um de nós pensou que o pecê fosse a m elhor trincheira para lutar a luta de nossos povos — os m elhores e os piores hom ens que conheci e com quem tratei m ilharam nas fileiras com unistas, os m ais dignos, os m ais sórdidos.
O alm oço chega ao fim , enxugam os a garrafa do Corvo generoso, não sendo leviano, Sábato não proclam a superioridade do vinho argentino sobre o italiano:
— Matilde y y o les esperam os, a vos, Zélia, a vos, Jorge, en nuestra casa, en vuestra casa de Santos Lugares. — No espanhol da Argentina vos quer dizer tu, em língua de intim idade, de bem -querer, em língua de com padrio.
Rio de Janeiro, 1977.
O robe de ouro
Chega-se ao fim de um a batalha que durou oitenta anos, tantos quantos os da Academ ia*: as m ulheres de agora em diante poderão se candidatar às vagas, ganhar a eleição, vestir o fardão com o peitoril de ouro. Com o será o fardão das dam as? Robe verde, pano de bilhar, ouram a no parapeito, desenhado por Austregésilo**. Apesar da am eaça do robe, apoio com alvoroço a luta pela entrada das literatas, voto a favor da proposição de Osvaldo Orico***.
*Academia Brasileira de Letras.
**Austregésilo de Athayde, Presidente da ABL.
***Osvaldo Orico (1900/1981), escritor.
Essa história de exclusão das m ulheres dos quadros acadêm icos foi um a das salafrarices com etidas por Machado de Assis quando fundou a cham ada Ilustre Com panhia, não foi a única, suj eitinho m ais salafrário nosso venerado m estre do rom ance. Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dom inantes, m as tendo lá chegado não abriu m ão de nada a que tinha direito, culm inou a carreira bem -sucedida de burocrata com a fundação da Academ ia: até hoj e a preside, entronizado de sobrecasaca no pátio de entrada do Petit Trianon. Crítico entre am ável e sarcástico da burguesia brasileira da época, da classe m édia alta, o m estre rom ancista; sustentáculo de seus privilegio e preconceitos, o cidadão Joaquim Maria Machado de Assis, m arido de dona Carolina, casou com portuguesa.
Estabeleceu ele próprio a relação dos fundadores, inscreveu os vetos. Nem boêm ios — Em ílio de Menezes* só pôde ser eleito após a m orte de Machado —, nem m ulheres. Na época havia um a escritora de renom e estabelecido — e m erecido, vale a pena ler seus rom ances, Júlia Lopes de Alm eida**, im possível passá-la para trás, se ela protestasse seria o escândalo, com o fazer para não colocá-la entre os quarenta ilustres titulares? Machado, o m anipulador, deu a volta por cim a, encontrou com o im por o m achism o. Barganhou com dona Júlia: ela ficava de fora, m as em troca ficaria de dentro, acadêm ico de núm ero, o m arido dela, Filinto d'Alm eida, escrevinhador de pouca valia. A rom ancista achou, com razão, que o consorte precisava bem m ais que ela dos bordados da Academ ia, cedeu-lhe a cadeira, a ela bastavam os rom ances. Com o quê Machado fechou de vez as portas do silogeu às saias fem ininas. Nem m ulheres nem boêm ios, m as teve vaga para j ovem de 20 anos, quase inédito, Magalhães de Azeredo, dele se conhecia apenas páginas de louvor, aliás j usto, aos livros do fundador da Instituição. Tam bém vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igrej a, do Judiciário, das letras m édicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoj e. Escritores, uns poucos e nem sem pre os m elhores. Deixa pra lá.
*Emílio de Menezes (1866/1918), poeta.
**Júlia Lopes de Almeida (1862/1934), romancista.
Certa quinta-feira, dia de sessão, na sala do chá testem unhei ácido debate entre Luiz Viana Filho e Magalhães Júnior a propósito de Rui Barbosa, alvo da crítica do rebarbativo Ray m undo. A memória dos grandes homens, exemplo para a juventude, deve estar acima de qualquer restrição, branca de leite, limpa e polida de qualquer defeito, impoluta para a admiração da posteridade, arengava Luiz. Viu-m e parado a escutar, olhou-m e com o rabo do olho, sorriu-m e m as, político habilíssim o, não pediu m inha opinião. O cidadão Machado de Assis, não o rom ancista, m uito tem se beneficiado com a tese da m em ória pulcra dos grandes m ortos.
Na votação da proposta que abriu as portas da Academ ia às m ulheres, Herm es Lim a surpreendeu-m e: voto contra. Vendo m eu espanto, explica-m e: isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência.
Um j ornal faz um a enquete às vésperas da decisão, pergunta qual das nossas beletristas (!) deve ser a prim eira a envergar o fardão — perdão, o robe. Em m inha opinião, digo ao repórter nenhum a de nossas confrades m erece m ais a consagração, os pechisbeques (!) da Academ ia do que a poetisa — naquele tem po dizia-se poetisa, hoj e poetisa é xingo — Gilka Machado, figura singular em nossa literatura. Poetou sobre o desej o da m ulher, a tesão pelo hom em , o am or sem peias quando as outras reservaram o coito para os confessionários das igrej as: ousou quando a ousadia significava discrim inação, repulsa, abj eção. Sugeri que as prováveis candidatas assinassem m anifesto propondo aos Acadêm icos o nom e de Gilka Machado: m ais que outra qualquer m erecia ser a prim eira m ulher a ingressar no fatal cenáculo. A sugestão caiu no vazio das vaidades, tam pouco eu acreditava fosse avante, sou ingênuo m as não tanto. As im pacientes andavam pelos alfaiates, de figurino em punho, estudando o robe: ainda m ais solene e triste do que o fardão.