Navegação de Cabotagem
São Paulo, 1945.
O admirador
Sou bom de cadeia, tirei de letra as m inhas prisões, nem depressivo nem ruidoso, será que hoj e suportaria o xadrez com igual desenvoltura?
Num a de m inhas prisões aconteceu algo tragicôm ico, m erece relato. Ainda durante o Estado Novo, em m eados de 1945, a polícia política de São Paulo m ontou um a arm adilha na sede do Com itê de Aj uda às Nações Unidas, leia-se à União Soviética, sala que pouco a pouco se transform ara em sede de todos os organism os, alguns fantasm as, ligados ao Partido Com unista. Todas as tardes eu lá aparecia para encontros políticos, pequenas reuniões, receber e transm itir tarefas. Ao chegar naquele dia encontrei a polícia, à frente o delegado Luiz Apolônio, fam oso. Na sede do Com itê ou em suas residências foram presas cerca de quinhentas pessoas, intelectuais, sindicalistas, ativistas. Caio Prado Júnior e eu, após breve passagem na Central, fom os m andados para a Casa de Detenção, ocupam os a cela onde Monteiro Lobato cum prira pena por ter afirm ado que existia petróleo no Brasil.
Num a sala enorm e, o assoalho coberto de colchões, encontram os preso único o pintor Clóvis Graciano. O que fazes aqui? — perguntei e ele respondeu: — Estava te esperando. Tentam os obter que colocassem Clóvis na cela de Lobato, não conseguim os. por volta de duas da m anhã puseram -nos em liberdade, a m im e a Caio, na porta do presídio Frota Moreira nos esperava. Oswald de Andrade ficou fulo porque não o prenderam , desconsideração.
A história ligada a essa prisão que m erece relato tem a ver com um leitor m ineiro, de passagem por São Paulo. Telefonou-m e, com prara a coleção de m eus livros, vendia-se pelo crediário, pedia-m e para autografá-los, m arquei-lhe encontro na sede do Com itê às quatro horas, fui levado preso às três, o m eu leitor entrou em cana um a hora depois, em vez do autor encontrou os tiras.
No dia seguinte m eu apartam ento virou um a babilônia, parentes de presos reclam ando m edidas, havia um a senhora espanhola cuj a filha sindicalista fora levada pela polícia, que m e responsabilizava aos berros pelo que pudesse suceder à m oça: minha filha é virgem! Caio Prado e eu fom os discutir com o Chefe de Polícia*, bacharel bem -hum orado, as prisões com eçaram a ser relaxadas, vinte e quatro horas depois da tram pa policial estavam todos na rua, inclusive a virgem im aculada. Todos m enos um , o m eu leitor: esse perm anecia preso com sua coleção de livros, pois por ele ninguém se interessara. Preso perm aneceu por uns dois dias e perm aneceria longo tem po se a fam ília, estranhando não ter ele voltado a Minas na data m arcada e não ter dado notícias, preocupada com seu desaparecim ento, não com eçasse a procurá-lo nos hospitais, com passagem pela m orgue, foi encontrá-lo na cadeia, acusado de com unista. Decerto abandonou a coleção de livros na cela onde habitara dois ou três dias, não sei exatam ente quantos.
*Pedro de Oliveira Ribeiro Sobrinho.
Viana do Castelo, 1992.