Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 168 de 262

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Navegação de Cabotagem

Bahia, 1965.

— Não aguento m ais dar o eu em húngaro ou em eslovaco, não posso m ais. Quero ser cham ada de puta em brasileiro: sua vaca! Ouvir dizer e entender para m e acabar no gozo. Em língua socialista, ouvindo sem entender, não dá para gozar com o se deve, perde-se o m elhor, o frenesi.

Os olhos sonhadores de Maria da Bahia, de pureza im aculada. Esvazia o cálice, o secretário-geral dos j ornalistas a recolhe no Tatra Plan negro a que os dirigentes têm direito e a leva no cair da tarde.

Por pouco saio correndo atrás do autom óvel oficial para diz a Maria da Bahia e assim a aj udar no frenesi do orgasm o que puta em língua tcheca se diz curva, palavra bonita, sinônim o de sua vaca. Poderia lhe ser útil na hora do enrabanço.

Bahia, 1965.

As gulosas

Um ruído suspeito m e acorda, apuro o ouvido, parece-m e provir da sala de j antar. Levanto-m e evitando fazer barulho, saio do quarto, avisto luz acesa na cozinha. Vou em passo de gato, surpreenderei o ladrão, a surpresa será a m elhor arm a, não tenho revólver em casa. Aliás nunca possuí nem usei revólver, na Câm ara dos Deputados eu era o único parlam entar desarm ado, m e lem bro do assom bro de Silvestre Péricles de Góes Monteiro quando abri o paletó e ele constatou a ausência de pau-de-fogo em m inha cintura: Você é maluco.

Na cozinha, o que vej o? Dona Angelina, m ãe de Zélia, e m inha m ãe Lalu, envergando um a e outra cam isolas de dorm ir com o convém a viúvas idosas, chupam m angas — m anga se chupa, não se com e, caso se desej e fruir o prazer com pleto —, rostos lam buzados. O m el escorre dos lábios para o queixo, m ancha as pulcras cam isolas. Chupam as m angas com avidez e com petência, o ruído que m e pareceu suspeito procede das bocas das duas senhoras no gozo da fruta colhida no j ardim da casa, m angas-carlotas suculentas.

Regresso ao quarto, pé ante pé, para que as duas não m e vej am , m orreriam de encabulam ento. Aproveitam a calada da noite para o pecado da gula, o sabor das m angas chupadas assim às escondidas torna-se divino. Lalu e Angelina estalam as línguas.

Onde quer que eu chegue, nas comarcas do mundo, províncias e Metrópoles, vilarejos, encontro mesa posta e escuto uma palavra amiga.

Alguém me diz: li teu livro, com panheiro, ri e chorei, m e com ovi. Tereza Batista m udou m inha vida, Pedro Archanj o m e ensinou o pensam ento livre, a pensar por m inha cabeça, aprendi com Quincas a não ser o outro e, sim , eu próprio, com o com andante Vasco Moscoso de Aragão troquei o m edíocre pelo sonho, aprendi o am or com Gabriela e dona Flor dele m e deu a m edida exata: m ais poderoso do que a m orte. És escritor porque eu existo, leitor: chorei e ri, m e em ocionei ao ler teu livro.

Onde quer que eu chegue tenho mesa posta e alguém me diz a palavra amiga. Esse o prêmio, a razão e o compromisso.

São Paulo, 1945.

Pogrom

O suj eito é um m onstro, um bandido, acredite, am igo... Lasar Segall aparece no apartam ento da Avenida São João para m eia hora de papo. Repete que não veio m e visitar e, sim , ao quadro que m e tendo dado de presente em 1945, m e entregou um ano depois a duras penas. Conta-m e a am eaça que o violenta, o terror a que está suj eito pelo m iliardário am ericano, m onstro sem entranhas.