Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 180 de 262

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Bahia, 1980.

Nosso vizinho My ra y Lopez*, educadíssim o, encontra Paulo no elevador:

*Emílio Myra y Lopez (1896/ 1964), médico e professor espanhol.

— Com o vai, j ovem ?

Paulo, na tam pa:

— Não vou!

Transform ou-se em executivo com petente e atencioso, nem por isso lhe retirei m eu bem -querer. Vej o-o babado a brincar com os filhos lindos, espero que um deles herde a esplêndida grosseria do pai, terá m eu elogio, m eu apoio, contra todos o sustentarei.

Bahia, 1980.

Purismo

Não sei que espécie de babaquice atacou Verger, padre François* e os dem ais velhinhos filhos-de-santo, ogãs, babalaôs, sábios titulares do candom blé baiano, m estres de tudo quanto se refere às seitas afro-brasileiras, ao sincretism o religioso e cultural, estudiosos das relações África x Brasil, conhecedores das sim ilitudes e das diferenças, sabendo que elas existem e porque existem , de repente, sem prévio aviso, se fazem puristas africanos, negros im aculados. Pretendem que cerim ônias, rituais, designações, a língua iorubá, o culto nagô, o candom blé enfim se processe na Bahia igualzinho ao da África, sem tirar nem pôr: m uito se tirou, m uito se pôs.

*Padre católico François Le Espinay.

Estabeleceram para tanto um proj eto e o levaram a cabo. Tem po perdido, resultado nulo, m ais poderosa que qualquer ideologia, m esm o baiana, é a realidade que determ ina e im põe régua e com passo.

Resolveram os bons velhinhos, os veneráveis, m ontar um a casa-de-santo na cidade da Bahia que fosse a reconstituição exata de candom blé de Lagos ou de Porto Novo, na costa ocidental da África, desaprenderam o que sabem por estudo, pesquisa e experiência. Com praram terreno nas proxim idades do aeroporto) construíram terreiro, casas de residência e hóspedes, cam arinha, pej is para os orixás, a m orada dos eguns, tudo na perfeição, gastaram bom dinheiro, desem bolsaram econom ias.

Escolheram a dedo um filho de Xangô, dançarino singular, soberbo m ocetão, feito por m ãe Senhora em barco de iaôs no Axé Opô Afonj á, nascido cavalo-de-santo de Zora, sua m ãe pequena m oço baiano de pura cepa, e o levaram a Lagos para fazer dele sacerdote africano, babalorixá à m edida e à im agem dos ritos nagôs, com o são praticados nos tem plos da Nigéria e do Benin. Após m ovim entada tem porada de iniciações, trabalhos, ebós, o aprendizado da dança e do canto originais, o aperfeiçoam ento da língua iorubá, trouxeram o m ancebo de volta aos pej is baianos e o entronizaram babalorixá no novo terreiro de pureza exem plar. Ali pai Balbino, o africano, devia zelar pelos preceitos chegados à Bahia nos navios negreiros, não perm itir que se deturpassem com o sucedera antes. Os velhinhos esfregavam as m ãos no regozij o da experiência posta em prática: o puro, o puríssim o candom blé da África negra por fim estabelecido na terra do sincretism o. Quantas casas-de-santo existem na Bahia, digo na cidade, m ais de m il, de m il e duzentas tenho notícia, no Estado m ultiplicam -se, os atabaques roncam no Rio e em São Paulo, no Recife, em São Luís, em Porto Alegre, no im enso território do Brasil, sem falar na um banda, pois a um banda j á é outra história. São terreiros de nações diversas: nagô, j êj e, banto, congo, ij exá, angola e tantas m ais, além dos inum eráveis candom blés de caboclo. Alguns de m uita grandeza, a Casa Branca (Axé Ya Nassô), o Gantois (Axé Iy am ansê), o Cruz Santa (Axé Opô Afonj á), o Alaketu, o Bate-Folhas, congolês, o Bogum , j êj e, o terreiro angolano de Ciríaco e a Aldeia de Zum ino-Renzanzarro Gangaj ti, casa de caboclo do pai-de-santo Neive Branco. Centenas de pequenos ilês batem vez Por outra, alguns um a vez por ano na festa do dono da casa: Oxum aré, Tem po ou Ossain. Na Itália Patrizia Giancotti festej a a cada trinta e um de dezem bro sua Yem anj á vinda da Bahia num saveiro; em Paris Severo Sarduy dá a com er ao Exu Sete Pinotes, Senhor da Encruzilhada da Muriçoca.

No Brasil os negros originários de tribos diferentes m isturaram -se nas senzalas, os senhores de escravos im pediam a form ação de quistos nacionais. Quando ainda negros recém -chegados j á os sangues tribais se m esclaram , angolanos e sudaneses, nagôs e m alês e todas as dem ais nações antes m esm o que se desse a grande m istura com os índios e os brancos. Todo candom blé baiano — sej a angola, sej a j êj e, sej a congo ou ketu, sej a candom blé de caboclo, pode virar a nação a um sinal da m ãe-de-santo: os atabaques m udam o ritm o da dança, no terreiro orixás, enkices e caboclos confraternizam . Nosso pai Oxalá habita na Colina Sagrada do Bonfim , após a festa no terreiro vem repousar no altar-m or de Nosso Senhor Jesus Cristo na Basílica católica em cuj o adro se celebra na terceira quinta-feira de j aneiro a festa m ais bela que se possa conceber, a m aior do sincretism o religioso em todo o m undo, a procissão das águas de Oxalá.

Quem m ais sabe disso tudo é Pierre Verger, m ais que ninguém nos revelou a face m estiça da verdade, pois ele é Oj uobá os olhos de Xangô, tudo enxerga, nada lhe escapa. Ei-lo sentado à m ão direita do babalorixá Balbino no Ilê Axé Opô Aguj á, em punha o adaj á, à esquerda padre François, os dois franceses zelam pela pureza afro do ritual. No terreiro a festa se desenrola no rigor da intransigência, não fosse o povo m isturado, a m ulataria de todas as nuances da am álgam a, se poderia pensar que a festa decorresse num tem plo de Oy o, no reino de Xangô, ou de Ketu, no reino de Oxóssi. Pierre e François sorriem , sorriso de vitória, de deleite: Balbino, o africano, dança a dança guerreira de Xangô, m artelo de duas cabeças, kauô kabiesile, lança erguida, fulguração.

Waldeloir Rego, o da Capoeira de Angola, livro clássico, não sabe apenas de capoeira, sabe o bê-a-bá com pleto da vida com unitária dos terreiros, sabe do conj unto e dos detalhes, de cada porm enor, o m ais secreto, pois Oxalá, seu pai, lhe deu direito e obrigação de tudo saber quando m ãe Senhora lhe tocou a cabeça com a lâm ina da navalha e o proclam ou Ekerin Magbá. O riso escorre pelos cantos dos lábios de Ekerin Magbá, confidencia-m e o que se passa no Ilê:

— Apenas os velhinhos vão às suas casas repousar, no terreiro troca-se de nação, a festa nagô se dá por term inada, a orquestra bate caboclo nos atabaques e os índios velhos, os j urem eiros, os paj és, os pais-j oão, as m arias-padilha j untam -se aos orixás na dança agora im provisada, no canto em português, o sincretism o se im põe, não resta fum aça da pureza que os m estres foram buscar na África. Sultão das Matas e Oxóssi, Laj e Grande e Ogum , Rei da Hungria e Yem anj á, Rei das Hervas e Ossain, Rom pe Nuvem e Yansã. Balbino é Flecha Negra, caboclo esplêndido, tão singular quanto Agunj á, seu Xangô.

Apagado o sorriso, Waldeloir se recolhe ao m istério:

— Eu não lhe disse nada. Está rebocado se contar.