Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 57 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Belgrado, 1986.

*Processo político da era stalinista que condenou à morte um grupo de comunistas tchecos; Rudolf Slansky (1901) foi executado em 1952 e reabilitado em 1955.

Convido-o a vir para Dobris, para o Castelo dos Escritores onde residim os, Zélia e eu, René aceita m as será que a União dos Escritores aceitará? Vou falar com Jan Drda, secretário-geral, m em bro do Com itê Central, herói da resistência contra o nazism o, autor da Barricada Muda, livro consagrado, m eu am igo. Drda considera o caso, é hom em decente, m as o clim a pesa inclusive sobre ele, não se sente seguro. Convidar René a União não o fará, m as j untos encontram os um a fórm ula que perm itirá a hospedagem do casal Depestre no Castelo: nom eio René m eu secretário, a responsabilidade é m inha.

Foi assim que, por um breve período, o escritor René Depestre, o de Hadrianna de tous mes rêves, hoj e celebridade literária, Prix Renaudot**, foi m eu secretário, apenas nom inal, sem obrigações, sem salário: pôde trabalhar sua poesia mineral noir enquanto as m ulheres dos escritores tchecos m orriam de ciúm es ao ver Edith estendida ao sol, no parque do Castelo, sem inua, o corpo suspeitoso de j udia bela.

**Um dos grandes prêmios literários franceses.

 

Belgrado, 1986.

 

A desterrada

O que vim fazer aqui? — no coquetel oferecido pelo em baixador Cláudio Garcia de Souza aos hóspedes brasileiros em Belgrado, escuto queixa da senhora iugoslava, considera-se desterrada, consom e-se nas saudades do Brasil, pergunta o que veio fazer na pátria onde nasceu.

Pátria, em verdade sua pátria, é o Brasil onde desem barcou aos dois anos de idade com os pais im igrantes, onde cresceu, estudou, adolescente carioca igual a tantas m eninas da Tij uca e da Vila Isabel, nam orou, noivou e se casou com m oço iugoslavo, funcionário adm inistrativo da Em baixada. Com a guerra a Em baixada esvaziou-se, o j ovem funcionário, porém , não abandonou os encargos do posto, resguardando os pertences, cuidando dos acervos com responsabilidade e eficiência, sem salário, subsistindo só Deus sabe com o.

Retornaram à norm alidade ao fim da guerra as relações diplom áticas, o patriota prosseguiu na Em baixada, peça im portante nos serviços da m issão, incansável. Assim atravessou os anos até chegar a idade de aposentar-se, quando regressou à Iugoslávia, levando a esposa para lá viverem m odestam ente da aposentadoria, com o m odestam ente haviam vivido do salário no Brasil.

A senhora não se conform a, tudo na Iugoslávia lhe é estranho, clim a e costum es, a m aneira de viver. No Brasil ficaram os gostos, os hábitos, os interesses que são os seus. O que vim fazer aqui, pergunta, se esta não é minha terra, apenas o lugar onde nasci, minha terra é aquela onde cresci, vivi, labutei, envelheci. De tudo sente falta: do calor, da cordialidade, do não-m e-im portism o, do "deixa para lá", do "dá-se um j eitinho" e das novelas de televisão:

— Com o passar o resto da vida sem m inhas novelas? Nem um azinha que sej a para m atar saudades. No ano passado, um a vez por sem ana, aos sábados, davam um capítulo da série sobre Lam pião e Maria Bonita, era m eu dia de rir e de chorar, m inha hora de alegria. Agora nem isso, com o suportar?