Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 159 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Paris, 1991.

Estavam governo e oposição, os políticos e os intelectuais, os ricos e os pobres, Vitor Gradim e Cam afeu de Oxóssi, o poeta soviético Evtuchenko, o francês Francis Com be e o baiano Carlos Capinan, Com be escreveu um poem a de luz e som bra sobre a Bahia. Sucesso total, assim noticiou em sua coluna a convidada July . generosa am iga.

Ai, para m im não foi tão total assim o sucesso do alm oço que dona Zélia e eu oferecem os a Germ ano Tabacov e a My riam Fraga, presidente e diretora-executiva da Fundação: conto o fracasso, carregarei a vergonha com igo até a cova. Havíam os decidido não servir uísque, escritor que vive de direitos autorais não tem verba para oferecer uísque a trezentos convidados, a boca livre seria à base da batida e da cervej a. Encom endáram os não sei quantos engradados de cervej a, m etade para o alm oço, m etade para a festa da Fundação, à noite. Na geladeira restavam apenas um as poucas garrafas, as do consum o diário.

É m eu costum e, quando recebem os, dar um a volta a ver com o estão servidos os convidados. Assim fiz, pedi licença a Marly, deixei a m esa, saí pelo j ardim , pela varanda, pela piscina, a saudar a uns e a outros, perguntar se não faltava nada. Num a das m esas alm oçavam Antônio Carlos e Walter Moreira Sales, eu os cum prim entei, perguntei se precisavam de algum a coisa, Antônio Carlos disse que haviam pedido m ais cervej a ao garçom , o dito cuj o não trouxera, sum ira. Decerto esqueceu, vou providenciar agorinha m esm o, coisa de m inutos, sai às pressas.

Dirigi-m e à cozinha, lá soube que não era possível servir cervej a por não haver em casa um a só garrafa, as poucas existentes antes haviam sido rapidam ente consum idas, os engradados com prados para o alm oço não haviam chegado à rua Alagoinhas, toda a encom enda fora enviada à Fundação. Im possível rem ediar a ocorrência, dar j eito na situação, fazer fosse o que fosse, na m aior confusão, sem saber com o agir, faltou-m e ânim o para voltar à varanda, deixei m inistro e banqueiro a ver navios.

Walter Moreira Sales, velho am igo, fora de gentileza extrem a: deslocara-se a Brasília para assinar no Planalto a ata de instituição Casa, viera à Bahia para a solenidade da inauguração, ficara para o alm oço, nunca m ais tive cara para procurá-lo e quando, em m om ento da m aior dificuldade, My riam m e disse que pensava visitá-lo em busca de socorro, eu pedi que não o fizesse, Walter Moreira Sales passara sede em m inha casa.

Paris, 1991.

Jacques Tati

Vizinhos que som os em Paris da Ópera Bastilha, tendo acom panhado durante dois anos a construção do edifício, Zélia e eu subim os pela prim eira vez suas escadarias convidados de Costa-Gavras* para o Festival do Cine-Mem oire. O Festival se inicia com a proj eção de Playtime, film e de Jacques Tati.

*Costa-Gavras, cineasta francês de origem grega.

Estivem os presentes à estreia m undial de Playtime num cinem a próxim o aos Cham ps Ely sées, em 1967. Na versão original o film e durava três horas com um intervalo de quinze m inutos entre as duas partes que o com punham , a película foi rem ontada para duas horas de proj eção. Adorei revê-lo, tenho pela obra de Tati m ais do que adm iração e apreço, tenho-lhe am or. Jour de Fête, Les Vacances de Monsieur Hulot, Mon Oncle, Trafic, sem pre os revej o, m as não havia voltado a assistir Playtime, das películas m ais im portantes de sua tão pequena e tão im ensa produção (dele conheci tam bém um docum entário sobre circo). Situo Tati entre os m onstros sagrados do cinem a (para usar expressão de Zé Berbert) entre os m aiores, os principais, seus film es m e divertem e m e com ovem . Mestre do cinem a e do hum anism o, tudo nele é decência, fraternidade, com preensão, am or ao hom em , guarda distância da violência, da m esquinhez, da discrim inação, das m odas, nele tudo é eterno, nada é transitório.

Vi Tati em pessoa um a única vez, por ocasião da venda de livros autografados pelos autores em benefício do Com itê National des Écrivains, prom oção anual que m ovim entava toda Paris, a com eçar pelo Presidente da República, dela participei nos anos 48 e 49. Em 49 dirigia-m e ao local onde Anna Seghers e eu, os dois únicos estrangeiros, autografaríam os, passei diante do stand de Georges Sadoul, éram os am igos, apertei-lhe a m ão, enxerguei Tati ao seu lado, estrela a acom panhar o ensaísta nos autógrafos.

A propósito de Jacques Tati, Sadoul contou-m e, em 1953 se não com eto erro, divertida história. Sadoul fora ao Brasil, visitou o Rio, a Bahia e São Paulo. No Rio eu e Alex Viany lhe fizem os sala, na Bahia Walter da Silveira o com boiou, em São Paulo espantou-se ao encontrar em casa de Silveira Sam paio um gato siam ês que atendia pelo nom e de Sadoul. Quis saber o porquê do batism o, ficou sabendo: o gato assim se cham ava em hom enagem a ele, Georges, prova da adm iração que Silveira Sam paio lhe devotava. O gato era m anso, Georges o teve ao colo, a hom enagem o com oveu, deu-lhe a m edida de seu renom e, da repercussão de sua obra de crítico de cinem a em terras tão distantes.

A história que m e contou se passara no dia dos autógrafos no Com itê National des Écrivains a que m e referi acim a: fila grande diante de Sadoul que autografava sem parar. De repente deu-se conta de que escrevera no exem plar do Histoire de 1'Art du Cinéma... o nom e de Jacques Tati e não o seu, com entou para o m etteur-en-scène:

— Im agina que escrevi teu nom e em vez do m eu num exem plar.

— Num exem plar? Em m ais de cinquenta. Há pelo m enos m eia hora que eu assino Georges Sadoul nos livros onde assinaste Jacques Tati. Com o vês, tudo bem . — Ao contar, Sadoul com enta: parecia um a cena de film e de Jacques.

Durante a estada no Rio e em São Paulo, Sadoul passou a m aior parte do tem po nas cinem atecas cariocas e paulistas, assistindo film es brasileiros, reafirm ou sua opinião sobre Hum berto Mauro, colocava-o na lista dos cem diretores m ais im portantes do cinem a.

Adm irador de Sadoul e de Tati, eu o sou igualm ente de Costa-Gavras, tam bém ele um m estre do cinem a e do hum anism o, sua câm era denuncia a opressão e o ditador. Sinto-m e vaidoso da estim a em que tem m eu trabalho de rom ancista. Zélia e eu com em os com ida grega em seu apartam ento da rue Saint Jacques, ele e Michelle com eram feij oada na m ansarda do Quai des Celestins. Agora o tenho m ais próxim o e fraterno, liga-nos o am or que dedicam os a Jacques Tati, som os da m esm a confraria.