Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 206 de 262

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Moscou, 1948.

**Darcy Ribeiro, escritor e político.

Outro que pensa pela própria cabeça, livre inclusive de entulhos partidários, é Roberto Da Matta***, sabe a verdade do Brasil, os dois lados da cara, não escamoteia, não falsifica, exibe o ruim, o pequeno, o triste, o que não o impede de enaltecer o belo, o grande, o alegre.Expõe sua visão carnavalesca da realidade nacional, do caráter do povo, sua invencibilidade, ele sabe a origem, o percurso e o amanhã, não come no prato frito das ideologias os restos dos banquetes da Europa e dos States. Existem outros eu sei, infelizmente o número é pequeno, não preciso estender a lista das citações, todos nós sabemos quem no Brasil significa progresso, revolução, e quem é atraso, palavrório, reacionarismo em todas as latitudes das doutrinas à direita e à esquerda ou navegando entre dom Leonardo Boff, o da teologia da libertação, e o bispo dos integristas, aquele arcebispo do Rio Grande do Sul, não me lembro o nome, uma espécie de Dom Lefebvre do Brasil. Uns tantos são criadores de cultura, da cultura mestiça do Brasil, os outros repetem de oitiva o discurso importado, o bestialógico.

***Roberto Da Matta, sociólogo.

Moscou, 1948.

O incondicional

Francisco Ferreira, português, trabalha na Rádio de Moscou ao lado de Satva Brandão nas em issões de língua portuguesa, alim enta com ideologia e notícias alvissareiras os cam aradas do Brasil e de Portugal, das colônias salazaristas da África. Jovem com unista, participou das Brigadas Internacionais na Guerra da Espanha, com a derrota foi evacuado para a União Soviética. Casou-se com espanhola, é com petente radialista, pessoa sim pática, cordial e expansiva, capaz de solidariedade hum ana, com o deu provas na dedicação com que se devotou à irm ã e à filha de Prestes, Lígia e Anita, exiladas na capital soviética Mem bro exem plar do partido português, seu sectarism o não tem lim ites, é total.

Pela prim eira vez na URSS, procuro m e inform ar sobre a vida, os costum es, as benesses e as m azelas.

— Ladrões? — O bom Ferreira se exalta: — Na pátria do socialism o, o roubo não existe. Ladrão é coisa do passado, do czarism o.

Na véspera, em arm azém do GUM tentaram roubar a bolsa de Zélia por duas vezes, Vera Kuteichkova nos havia recom endo: todo cuidado é pouco, os ladrões pululam. Desm ascaro o inform ante: não sej a m entiroso, Chico. Mas o patriota Ferreira não dá o braço a torcer:

—Existem ladrões, sim , não vou esconder, são sobras da guerra. Em com pensação são os ladrões m ais hábeis do planeta. Na sem ana passada tom ei um ônibus na hora do alm oço, ia lotado, só em casa m e dei conta: tinham roubado tudo que eu levava em cim a de m im , cortaram -m e o sobretudo com lâm ina de barbear, trabalho tão bem feito, nem senti. Ladrões tão capazes você não vai encontrar em nenhum a parte. — No acento luso o orgulho soviético.

Com entam os as diferenças nos hábitos da vida sexual no ocidente capitalista e no leste socialista. Nosso Ferreira é perem ptório:

— Essas degenerescências não existem na União Soviética. — Refere-se ao hábito do adultério: — As m ulheres soviéticas são fiéis aos m aridos, a m oral proletária é rígida, você sabe. Um a aventura, um deslize, infidelidade conj ugal — coisas raríssim as, de se contar nos dedos.

As inform ações que j á possuo, de escritores e de operários, faço am igos por onde passo, contradizem a afirm ação do incondicional Chico Ferreira. Mais um a vez o desm ascaro com bonom ia, pois na falsa inform ação do com una português não vej o outras intenções além do desej o de salvaguardar a im agem da URSS, para ele sagrada: para ele e para m im , para m ilhões e m ilhões na vastidão do m undo.

— Não sej a cínico, Chico. As m ulheres daqui dão sem que sej a necessário se pedir, quem bem sabe é você que vive em am biente de rádio propício, favorável à putaria. Quer que eu lhe cite exem plos?

Quis exem plos, pois a pudicícia do regim e não reduz o interesse dos cam aradas pela vida alheia, pelo disse-que-disse, sobretudo quando o com adrism o se refere a desm andos das m agnas figuras da intelectualidade. Conto-lhe algum as fofocas notórias, freira escuta, faz-m e repetir, pede detalhes, deliciado. Quando m e calo, ele confessa:

— Prevaricam , sim , e m uito. Mas vou te dizer um a coisa, cam arada: no m undo inteiro não existe m ulher que na cam a se com pare com as m ulheres soviéticas. Pelo m enos na Espanha e em Portugal, o resto desconheço.

Francisco Ferreira não tem j eito, tudo na URSS é o m elhor do m undo, negar verdade tão patente é fazer o j ogo do im perialism o norte-am ericano. As m elhores do m undo, m eu bom Ferreira, as m ulheres soviéticas, m elhores que as gitanas de Sevilha ou as cachopas do Minho? Pobres m ulheres soviéticas, vítim as do preconceito e da ignorância: desconhecem o Kam a Sutra, condenadas ao leito de papai/m am ãe, para variar só lhes resta o adultério e o exercem com constante assiduidade. Mudam de parceiro na m esa do banquete, m as o cardápio se repete igual: a batata cozida na água e sal de cada dia, ela por baixo, ele por cim a.