Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 195 de 262

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Bahia, 1960.

 

Álbum de autógrafos

A notícia do desastre de autom óvel sofrido por Carlos Pena Filho no Recife transform a a festa dos livros na Bahia em pesadelo. Cadinhos em com a na clínica, em torno os m édicos e os am igos, nós, em casa de Odorico, ao telefone com Berrão*, na angústia, à espera de um m ilagre. O m ilagre não acontece, Carlinhos enverga as asas de anj o, parte em vôo rasante sob o céu da Avenida Guararapes. Passo dez anos sem voltar a Pernam buco, as ruas de Recife na ausência de Carlinhos são calçadas com as areias do deserto.

*Eufrásio Barbosa, sogro de Carlos Pena Filho.

De luto, Tânia vem esquecer e recordar j unto a nós, no Rio, percorrem os o álbum de autógrafos, lem branças daqui e de acolá, deste e daquele, o notável e o penetra, guardados de Zélia. Lá está, m anuscrito, o poem a de Carlinhos para Palom a, inventado no Recife em dias de riso e am izade: só para Paloma este verso efeito /pois só ela entende um verso desfeito.

Palom a andava pelos oito anos, era um pássaro no céu de Pernam buco, respondeu na tam pa ao poem a de Carlinhos, Zélia guardou os rabiscos e os borrões: para uma pena uma pluma / para uma pluma uma pena / para Carlos Pena uma pluma / uma pomba uma pena / o pavão tem uma pluma / e para Tânia e Clarinha / uma peninha azulzinha.

Só Carlos Pena Filho entende o verso de um a criança, não era ele um a criança sem m alícia? Um a criança ou um anj o, não tinha idade, os anj os não cum prem aniversário, possuem asas e andej am sobre as pontes, sobre os rios. Carlinhos sobrevoa a Avenida Guararapes, no peito um a plum a de pavão que lhe foi ofertada por Palom a num verso ao inverso, desfeito.

Paris, 1992.

As coincidências

Atrasado, desço ao encontro de Ernesto Sábato, vam os alm oçar no bistrô dos italianos. Ernesto veio a Paris inaugurar exposição, hoj e o ficcionista argentino dedica parte de seu tem po às artes plásticas, está contente com a repercussão que sua pintura vem obtendo nos arraiais da crítica francesa. Há dois anos fui conhecer seus quadros nas salas do Centro Pom pidou, lá encontrei Georges Raillard, crítico de arte com petente e rigoroso, fartou-se em elogios à m ostra, o pintor não fica a dever ao novelista.

Ernesto salta do autom óvel, avanço para ele, no m eio da rua nos abraçam os, afobação de velhos, por um triz escapam os do carro em disparada, subim os no passeio, Ernesto exclam a:

— Se nos m atam se term ina la literatura latinoam ericana...

Rim os os dois: podem os proclam ar a boutade porque nos rim os dela, o portenho e o baiano, aos oitenta anos estam os a salvo das vaidades fáceis: ele os cum priu em j unho de 1991, eu os cum prirei no próxim o agosto. Autores tão diferentes, a visão dram ática da vida e dos seres não o faz pessim ista, quanto a m im participo da festa da vida, sendo escritores tão dessem elhantes, na vida em m uitas coisas coincidim os. Zélia e Isabel* se divertem à afirm ação das coincidências repetidas ao sabor do risoto e da lasanha.

*Isabel Soto, tradutora de Sábato.

Na m esa do bistrô passam os em revista a vida e o m undo, o m undo de espantos, das m udanças im possíveis, vam os da Feira Internacional de Sevilha ao Iraque do após guerra, cavalgam os problem as, do nacionalism o de Ieltsin à tragédia da Iugoslávia, analisam os situações, Ernesto fala com adm iração da cultura árabe, sem os m ouros o que teria sido da Espanha, o m undo contem porâneo terá capacidade para entender as evidências e os m istérios da cultura m uçulm ana? Por falar em árabe, conto-lhe que um poeta, dublê de j ornalista, Wally Salom ão, brasileiro de origem árabe, veio m e entrevistar em outubro do ano passado, garantiu-m e que daí a dias, inform ação segura, canal diplom ático, o Prêm io Nobel seria concedido ao argentino Ernesto Sábato, deixara-m e nadando em m ar de rosas, o Prêm io foi para a África do Sul, outorgado a Nadine Gordim er, m ais pela circunstância histórica do que pela im portância literária e social de sua obra de rom ancista. Prêm io Nobel? Sábato revela: por cinco vezes seu nom e foi levado à consideração da Academ ia da Suécia m as ele sabe que não receberá o Nobel. E por quê, pergunto, se o m ereces com o poucos? Responde-m e após o gole do vinho da Sicília: Arthur afirm ou, em entrevista, que a obra dele, Sábato, escassa — escassa, o term o que usou — para tão gordo prêm io:

— Artur? Quem é?

— Artur Lundqvist, é quem m anda no Prêm io.

Ao ouvir o nom e do sueco, Zélia solta o riso enquanto Ernesto acrescenta ter deixado de ir a Estocolm o desde que lá tendo ido para o lançam ento da tradução do Anjo das trevas, em Buenos Aires escreveram que fora trabajar el Nobel. Cresce o riso de Zélia, Ernesto se surpreende: por que ris com tanto gosto? Rio-me com as coincidências, diz Zélia, depois de Lundqvist, a exclusão da Suécia dos roteiros de viagem. Nós não voltamos a Estocolmo já nem sei há quantos anos, conta ela, quando lá estivemos pela última vez nosso primo Luiz* era segundo secretário da Embaixada, fez-nos sala, hoje é Embaixador saiu numa coluna de jornal que Jorge fora à Suécia cavar o Nobel, resultado: Suécia nunca mais. Mais do que em tais pequenezes de prêm ios — pequenez, o Nobel, saco de dólares? — e de notícias salafrárias, coincidim os, estranha coincidência com o diria dona Arm inda, personagem de rom ance, coincidim os no local de m oradia pois Sábato habita Santos Lugares, delícia de subúrbio de Buenos Aires. Assim o era em m il novecentos e quarenta e um quando lá vivi na chácara de um italiano, ali escrevi O Cavaleiro da Esperança. Surpreendi-m e ao saber pelos j ornais que Sábato residia em Santos Lugares. Um dia a surpresa se fez assom bro: ao j ornalista brasileiro que, ao entrevistá-lo, lhe perguntou se era verdade que m orava na m esm a cidadezinha onde habitara o biógrafo de Prestes, Sábato revelou que não apenas na m esm a povoação, m orava na m esm a casa onde ele escrevera o livro sobre o preso.