Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 93 de 262

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Paris, 1988.

É um j ovem estudante, vem até onde estou e m e sorri. Decerto faz calor, pois o suor escorre do rosto do rapazola apenas saído da adolescência, carrega pacotes de livros, títulos proibidos pela ditadura do Estado Novo. Militante antifascista, o m oço em papado de suor é um a espécie de livreiro subversivo que exerce seu com ércio de política e cultura nos desvãos da ilegalidade.

Estam os em 1943, enfrentam -se os exércitos das Nações Unidas e do Eixo nazi-fascista, a guerra está presente e com anda a vida de cada um de nós na cidade da Bahia — a cidade da Bahia de então, provinciana e fascinante com seus trezentos m il habitantes, seriam tantos? Na guerra contra o fascism o e a ditadura, Zitelm an Oliva, estudante pobre, precário livreiro, soldado da dem ocracia, ocupa seu posto de com bate nas fileiras da cultura j unto a alguns dos que hoj e nos reunim os nesta sala para ouvir Edivaldo. Outros não puderam vir, partiram antes de Zitelm an: Giovanni, Giocondo, o negro Batista*, Jacinta Passos*.

*João Batista de Lima e Silva (1921/1979), jornalista.

*Jacinta Passos (1914/1973), poeta.

No passar do tem po, o livreiro subversivo fez-se fundador de j ornal, diretor de banco, professor universitário, m em bro da Academ ia, figura de proa da vida intelectual, patriarca. Com a m esm a paixão j uvenil de com unista converteu-se ao catolicism o, tornou-se íntim o de Deus. Quanto a m im , velho ateu, por devoção a Zitelm an acabei freguês em Paris de loj a de obj etos católicos de extrem o bom gosto. A cada viagem ali buscávam os, Zélia e eu, peça de artesanato para a coleção do am igo: figura de presépio polonês, m edalha antiga, a m adeira de um santo m edieval. Há poucos dias, regressando da Europa, rom pem os com o hábito, Zitelm an j á não está para receber lem brança de viagem , deixou a Bahia, a fam ília, os com panheiros. Na voz de Edivaldo Boaventura o reencontram os, atravessa a sala, vem ficar a m eu lado, sorri, coloca a m ão no om bro de Ró.

Paris, 1988.

Quai de la tournelle

No cam inho dom inical do Quai de Celestins para o pequeno restaurante chinês, rue du Som m erard, nas vizinhanças da Sorbonne, vam os devagar, Zélia e eu, no gozo da beleza: envoltos na doce luz do outono, param os nos bouquinistas longo do cais do Sena. Nas pontes, casais de nam orados se detêm para o beij o e a carícia. Assim com o nós o fazíam os, Zélia e eu quando naquele antanho* habitam os a Paris da Rive Gauche, dos estudantes e dos exilados. Por que não fazê-lo novam ente agora quarenta anos depois, se o rio é o m esm o Sena, as pontes se conservam iguais e a luz do outono não m udou nas torres da Notre Dam e, se ainda som os nam orados? Nesta cidade de Paris, tam bém os velhos têm direito ao beij o.

*1948/1949.

De repente vej o no bouquinista, ao preço de 20 francos exem plar da edição francesa de um livro de Monteiro Lobato sob o título de La vengeance de 1'arbre et autres contes*. Tradução de Urupês, eu não sabia de sua existência — deve, no entanto estar consignada no catálogo de autores e livros brasileiros traduzidos em francês, organizado no capricho por Estela dos Santos Abreu — tradução de Georgette Tavares Bastos, viúva do poeta, tradutora aplicada e entusiasta de vários livros brasileiros inclusive de um m eu, Dona Flor*. São passados dez anos da publicação. Urupês, livro de m inha predileção, fico a pensar: será que a tradução francesa teve êxito? O volum e na m ão tenho a im pressão que conduzo e exibo um pedaço do Brasil no Quai de la Tournelle.