Navegação de Cabotagem
Bahia, 1991.
Pelé
Que ser decente é Pelé, nascido Edson Arantes do Nascim ento, grande brasileiro, igual aos m aiores. Artista incom parável da arte do futebol, igual não houve antes, não haverá de novo, m oleque de Minas Gerais deslum brou os povos, m enino de dezesseis anos ganhou a Copa do Mundo na Suécia, durante décadas alegrou os olhos e os corações, cada gol um a obra-prim a, gênio da redonda, sím bolo da dignidade do esportista.
Leio nos j ornais declaração sua a propósito da tragédia que outro grande do futebol está vivendo: Diego Maradona. Nas brum as da droga, nas m alhas da m áfia, denunciado, acusado, processado, expulso, castigado, arrastado na rua da am argura, exposto à fúria e ao noj o, prato feito para os chacais da im prensa, para o orgasm o dos invej osos: os rancorosos que não perdoam os grandes, pedem a cabeça, decretam o fim do pobre pibe deslum brado com a glória, por ela corroído. É preciso ser Pelé para carregar a glória às costas com sim plicidade.
Pele diz a palavra j usta, aquela que eu queria ouvir: plena de grandeza hum ana. Não é hora de acusar Diego, de apontá-lo com o dedo em riste, degradá-lo, enterrá-lo em vida no estádio vazio, fugir dele como da peste. Há que apoiá-lo no transe fatal, ajudá-lo, estender-lhe a mão, dizer-lhe: meu irmão, amanhã o estádio estará repleto, a bola rolará e de teus pés ela partirá para o gol da vitória e o delírio da torcida. É bom encontrar um ser decente em m eio a tanta m esquinhez, ao ódio desatado na ronda dos escrotos: sobram , pululam , se esporram .