Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 131 de 262

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Moscou, 1954.

Jam ais esquecerei o assom bro de Zélia ao ver-se tratada de carcam ana em Paris, num banquete de políticos e intelectuais, creio que foi Em ílio Sereni quem ergueu o copo para beber à brindar à beleza da m ulher italiana ali tão bem representada pela cam arada Gattai.

— Italiana, eu? — protestou, espantada. — Desde quando?

Brasileira de quatro costados, o dengue, o requebro, o sam ba no pé, aliás ali m esm o deu prova: presente ao regabofe estava João Saldanha, pebolista e pé-de-valsa, ele e Zélia fizeram um a dem onstração de com o se dança o sam ba digna de profissionais em boate carioca. O cinem a, a vocação de Fábio, qual a de Zélia? A tela dos cinem as, o palco dos teatros, o vídeo das cadeias de televisão, as pistas de dança? Em qualquer que fosse seria ídolo, nasceu artista, as agruras da vida não lhe deram chance: as agruras, ai.

Moscou, 1954.

Monsieur le Prix

O Pravda publica a lista dos contem plados com o Prêm io Internacional Stalin, notícia de destaque na prim eira página, vibro de contentam ento, entre os m erecedores da suprem a distinção leio os nom es de Bertholt Brecht e de Nicolás Guillén. Por Brecht m e interessei j unto a Sacha Fadeev, eu e Zélia sustentam os o ânim o de Nicolás na agonia da espera.

Rosa ficara em Havana, Nicolás convida Zélia para lhe entregar a m edalha e o diplom a, ele os receberá em sessão plenária do Congresso dos Escritores Soviéticos. Para o Congresso viem os a Moscou, o cubano é nosso vizinho no corredor do hotel, a qualquer pretexto envia-nos bilhetes, assina-se Monsieur le Prix. Feliz com o um a criança, nós tam bém .

O nom e nos j ornais, os poem as no rádio e na televisão, na boca das declam adoras, praga soviética, o vate nos convoca e nos senta diante do vídeo para escutar o recital de um a delas: gorda e rouquenha, um dinossauro. Nicolás saboreia com deleite os poem as em russo e os identifica, elogia a m egera, tam bém nós a aplaudim os por que em panar a alegria do am igo? Porreta!, exagero em baianês

Redij o um telegram a endereçado a Nicolás, peço a Marina* que o traduza, do posto de correio instalado no recinto do Congresso eu o despacho para o Metropol. Mensagem de paixão ardente, declaração de am or, proposta de cam a, assina-o suposta adm iradora, apenas o prenom e, Natacha. Term os exaltados: meu poeta genial meu vate tropical, fiquei deslumbrada ao ouvir teus poemas na televisão, sou uma brasa acesa pelo fogo de tua poesia, estou apaixonada, quero te encontrar o quanto antes e por aí a fora de ardência em ardência. Lem bro-m e do final do telegram a: te amo, te amo, te amo, telefona-me, telefona-me — seguia-se a assinatura.

*Marina Kontrizin, intérprete soviética.

Em punhando o telegram a, acom panhado pela intérprete, Nicolás invade-nos o quarto:

— Com padres, tem um a m ulher em Moscou apaixonada por m im , m e enviou um telegram a, só que é m eio burra, pede que eu lhe telefone e não m anda o núm ero...