Navegação de Cabotagem
Bahia, 1985.
Gastronomia
No alm oço, o m olho a escorrer-m e pelo queixo, desfaço-m e em elogios à galinha ao m olho pardo, Nuno m e corrige com conhecim ento de causa:
— Repare na em enta — lê em voz alta: — Arroz de galo de pé descalço ou sej a ave solta a ciscar ao chão, o sabor é outro que não o dos frangos de aviário que não sabem a nada.
Nuno Lim a de Carvalho, cidadão m últiplo, j ornalista, crítico de arte, especialista em pintura naïve, tam bém em turism o, em gastronom ia nem se fala, confrade-m or da Confraria dos Gastrônom os do Minho, que poderosa confraria! Conhece os restaurantes do país um a um , os pratos ele os conhece todos quando não os inventa e os batiza: deve-se a Nuno o arroz-doce à prior de Vila Franca, gulodice a com er e a repetir» de cuj o abuso nasceu a sentença do padre Sérgio*: antes faça mal que sobre. Arrasta-m e pelo norte de Portugal, inauguro lápides em casas-de-pasto de renom e e tradição, se m eus livros forem de todo esquecidos restará a m em ória do glutão nas placas com em orativas de alm oços e j antares, opíparos. No roteiro dos opíparos, do m elhor ao m elhor, vou do Vitor em São João de Rei ao Natário em Viana do Castelo, o bacalhau do Vitor! o pão-de-ló do Natário, os rissóis de dona Custodinha!
*Padre Sérgio Augusto Pereira, diretor do Seminário de Viana do Castelo, jornalista, gastrônomo, careca, boa-pinta.
Em Viana, no Salão Nobre da Câm ara, celebram -se as glórias de Manuel Natário e de dona Custódia, sua esposa, pasteleiros. São condecorados, recebem diplom a e m edalha, elogios nos discursos de governadores e presidentes de conselho, feliz o país que festej a cozinheiros, condecora pasteleiros, concede à m esa, à culinária, categoria de tem a de cultura conform e ensinam ento de Miguel Torga, escritor português à m edida de seu povo.
No j antar faço praça do cabrito assado ao forno, Nuno aponta-m e a cozinha da tasca, m e ensina:
— O segredo está nos fornos de lenha, é preciso conservá-los, im pedir que os apaguem , que substituam brasa de lenha pelo gás ou pela eletricidade.
O aj udante de cozinha revolve as brasas, sobem labaredas do forno de lenha: que não os extingam , pelo am or de Deus! O m olho do cabrito escurece os beiços do bom Nuno Lim a de Carvalho, um colosso, na estatura, na gastronom ia, na am izade: ele lim pa os lábios com um gole de vinho verde, adora vinho verde.
Bahia, 1985.
Barba
Márcio Tavares d'Am aral, filósofo e poeta, ilustre professor universitário, grave catedrático, letrado fam iliar de Joy ce e de Kafka, incorrigível líder estudantil, saudoso das passeatas e das m olequeiras, com as m ãos sobre a boca im ita sons de saxofone, as sirenes dos carros de polícia e das am bulâncias, com acento alfacinha canta m úsicas de protesto de Sérgio Godinho. Está hospedado na casa do Rio Verm elho com Teresa, flor dos Costa, conversam os enquanto ele faz a barba. Conversa longa, Márcio não leva m enos de m eia hora a barbear-se: um dia demorei apenas vinte e cinco minutos, mas aconteceu somente naquela vez, m e diz. Eu não gasto m ais de cinco m inutos, adm iro-m e de diferença tam anha, Márcio m e explica: