Navegação de Cabotagem
Milão, 1949.
*José Mirabeau Sampaio, escultor e pintor.
**Carybé (Hector Júlio Páride Bernabó), pintor.
Mirabeau, o m ais antigo dos m eus com panheiros de aventura, som os am igos desde o ano de 1923, das aulas do sábio padre Torrend, do bronco padre Faria no Colégio Antônio Vieira. Mirabeau ganhava todas as m edalhas na festa de fim de ano, as que sobravam iam para Antônio Balbino* ou para Antônio Vieira de Melo**, no segundo ano ganhei um a, em catecism o, inexplicável engano. Pela vida afora andam os j untos durante quase setenta anos, o que nós fizem os só Deus sabe, se é que sabe.
*Antônio Balbino (1912/1992), político, governador da Bahia de 55 a 59.
** Antônio Vieira de Melo, jornalista.
Certa feita, aí por 1935, em frente ao Tabaris, de onde saím os tresnoitados, bêbados, Mirabeau, exibindo um revólver, propôs-m e assassinarm os naquela m esm a noite o chefe baiano da Ação Integralista, não tenho ideia de quem seria. Deu-nos trabalho, a m im e a Edgard, desarm á-lo, fazê-lo desistir do proj eto político.
Edgard Rogaciano Ferreira foi seu chofer desde os tem pos da rica e tresloucada j uventude: o j ogo, o tango, a bebida, as argentinas, os carros-esporte, as baratinhas, os cabriolés, os prim eiros da Bahia. Perm aneceu seu chofer inclusive durante os dez anos em que Mirabeau não teve autom óvel, cuidava dele com o se cuida de um filho ou de um pai, anj o da guarda a protegê-lo nas noites de boêm ia.
Estendido na cam a, Mirabeau nos fita, a Cary bé e a m im postados diante dele a dizer tolices, a recordar Raquel Puccio e outras portenhas, fantasm as do passado, a repetir quem som os para ver se nos reconhece e se de novo nos reunim os a conversar e a rir, será que nos enxerga? De pronto sorri com o se nos identificasse, m as perm anece m udo e logo volta a ensim esm ar-se.
Cary bé escreve-m e da Bahia: Mirabeau vivo e no além. Perseguido pela m orte, busco escapar, perdê-la na distância tão difícil.
Milão, 1949.
Il piu noto
Diante da vitrine de um a livraria, na grande galeria no centro de Milão, Zélia, alvoroçada, aponta para um livro: olhe! Vejo um exem plar da edição de Terras do Sem Fim*, m eu prim eiro livro traduzido em italiano, a capa atraente reproduz cerâm ica de Picasso.
*Terre del Finemondo, Bompiani, Milão.
— Vej a o cartaz! — Zélia, assanhadíssim a. O cartaz não é propriam ente um cartaz, apenas um cartão retangular ao pé do volum e, inform ando sobre o autor: Il piu noto scrittore brasiliano. Zélia lê em voz alta, repete; il piu noto. Vam os em frente, repletos.
Logo adiante, outra livraria, param os em frente à vitrine em busca de Terras. Em vez, deparam os com a tradução de um livro de Erico Veríssim o, Olhai os lírios do campo, se bem m e recordo. Ao pé do exem plar um cartaz, ou sej a, um retângulo de cartão, a inform ação sobre o autor; Il piu noto scrittore brasiliano.
Rim os, Zélia e eu, desinflam os. No quiosque da esquina com pro um cartão-postal e os selos com petentes e o endereço para Erico em Porto Alegre, conto-lhe o ocorrido: "Durante cinco m inutos e vinte m etros fui 'il piu noto', passei-te a faixa."