Navegação de Cabotagem
Bahia, 1972.
— Quero que os com unistas quando chegarem para tom ar a quinta encontrem tudo no m elhor estado e digam : que senhora m ais aj eitadinha...
Em m eio ao riso provocado pelo conto, creio ouvir m eu nom e pronunciado em voz alta, presto atenção, é verdade, Zélia confirm a. Um senhor bem traj ado, de pé j unto à m esa de centro, dirige-se aos presentes, sou o tem a do discurso. O orador diz que estou alm oçando no Manuel o que lhe parece, não sei bem por quê, feto significativo, digno de adm iração e oratória, o acontecim ento não deve passar em brancas nuvens, precisa ser fixado em lousa para que os pósteros saibam que naquela data o fulano aqui presente esteve no restaurante do Manuel em panturrando-se de caldo verde e sarrabulho, queij o fresco, pão saloio e m eloa, era época de m eloa, o gosto volta-m e à boca. Sendo ele, orador, hom em de ação, propõe que de im ediato se recolham doações entre os que ali estão, im prudentes, alm oçando sem esperar a facada, e que o total sej a destinado à colocação na parede da casa de pasto de lápide com em orativa — a palavra lápide soa-m e fúnebre, lem bra m ausoléu e cem itério, apavoro-m e. A lápide, conclui o tribuno, o braço estendido em m inha direção, conterá epígrafe referente ao frito (o feito?).
— Minha senhora vai percorrer as m esas para recolher os óbolos: lápide, óbolo, o que falta ainda para acabar com igo? Tenho pavor a elogio de corpo presente, estou m orto de vergonha, desej o esconder-m e sob a m esa, Zélia e Antônio Alçada se divertem às m inhas custas.
Óbolos recolhidos, dinheiro contado pelo m andante do confisco, a recolha rendera o suficiente para pagar a lápide, declara ao revelar o total da coleta. Convoca voluntários para a redação da frase a ser gravada, apresentam -se dois senhores com vocação literária e um a cachopa de óculos, feiosa, redigem o necrológio, a de óculos declam a o escrito, o orador retom a a palavra, dá por findos a tarefa e o discurso. De referência ao discurso busquei ser sucinto ao transcrevê-lo m as o orador não cultivava a síntese, não fazia econom ia da retórica, poucas vezes sofri vexam e igual: soube depois tratar-se de advogado de renom e e clientela, m andei-lhe um livro com autógrafo, afinal sua intenção era m e hom enagear.
Antônio Alçada pagou a conta, deixei que o fizesse, divertira-se, eu não: atravessei de cabeça baixa entre os clientes. Estava à nossa espera o m otorista Francisco, chofer de Manuel Telles*, que m e leva e traz do Estoril para Lisboa, gentileza do executivo nos ritos da am izade, alm oçara no Manuel às custas de Alçada. Ao entrar no carro, pergunto-lhe:
*Manuel Telles, empresário português.
— Você tam bém contribuiu?
— Morri em cem paus.
Restituo-lhe duzentos, concorro para a lápide. Anos depois, a par do caso, João Jorge arrasta-m e ao restaurante do Manuel, lá está ela, a placa, posta na parede sobre a m esa onde sentáram os no canto da sala. Não é feia, faz vista, parece um a grande bandej a côncava.
Bahia, 1972.
Vinho Capelinha
Por princípio (ou por tolice, por preconceito?) não aceito fazer o garoto-propaganda, na tevê, na rádio, na im prensa, tenho recusado, perdido um dinheirão, sem falar em m áquinas de escrever, geladeiras, televisões, etcetera e tal. Não posso dizer que nunca o fiz pois de graça prestei-m e ao papel de bobo em duas ou três ocasiões — a pagam ento posei de berm udas e chapéu de palha, a foto anda nas revistas, anunciando um cartão de crédito, m as os níqueis foram para a Fundação que tem m eu nom e, está escrito no contrato.
Em com pensação em m eus livros, sem a m enor prem edita-ção, com o obj etivo de localizar o rom ance no tem po e no espaço, cito nom es de firm as, de bebidas, de restaurantes, por aí afora. Em troca, industriais agradecidos enviam -m e presentes, sobretudo bebidas: conhaques, licores, aguardentes, o produto citado por personagem ou pelo autor, chegam -m e garrafas a granel. Por um a única vez quis m e aproveitar da circunstância, resultado negativo, apostei na popularidade de m eus rom ances, dei-m e m al. Passo a contar.
Nos antigam ente pois hoj e tornou-se requintada em m atéria de queij os e de vinhos, nos tem pos d'antanho, m inha am iga Auta Rosa, senhora Calasans Neto, consum ia nas refeições e oferecia aos hóspedes um vinho cham ado Capelinha, não era lá essas coisas segundo m e inform ou Fernando da Rocha Perez, abarrotado de sarapatel durante alm oço em casa de Cala. De m im nada posso afirm ar j á que por prudência não bebo vinho nacional.
Labutava eu na escrita do rom ance Tereza Batista Cansada de Guerra, chegava ao fim da trabalheira, quando ouvi Auta se queixar do aum ento do preço de seu vinho favorito. Não se preocupe, disse-lhe eu do alto de m inha petulância, vou botar o nom e de tua zurrapa em m eu rom ance, os fabricantes m e enviarão com largueza e constância dúzias de garrafas, podes contar com Capelinha para o resto de tua vida.
Essa a razão por que no casam ento de Tereza Batista os convidados ingerem um único vinho, o Capelinha, bebem , estalam a língua, regalados, voltam a encher os copos. O ensaísta Cláudio Veiga*, erudito em literatura francesa e em vinhos em geral, ao falar-m e do livro criticou a escolha, o caro am igo poderia ter referido beberagem m elhor, considerou, citou duas ou três m arcas rio-grandenses que não fazem feio j unto às estrangeiras. Tam bém Ildásio Tavares**, experto em vinhos nacionais, acusou-m e de falta de conhecim ento da m atéria e de falta de consideração para com os convidados, alguns deles gente fina, João Ubaldo, Jeovah de Carvalho, ele próprio, Ildásio, dando-lhes a beber vinho de segunda quando se im punha no m ínim o tinto chileno: afinal o noivo não era um pé-rapado. Quis saber se havia sido propaganda encom endada por agência, bem paga com certeza. Expliquei ao ensaísta e ao poeta o m otivo da escolha, entenderam , Ildásio inquiriu: quantas caixas de vinho Capelinha eu j á recebera e passara para a adega de Calá e Auta Rosa, decerto o carregam ento de um cam inhão.
*Cláudio Veiga, escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia.
**Ildásio Tavares, escritor, dublê de poeta e romancista.
Fui obrigado a confessar a triste verdade, nem um cam inhão de engradados nem sequer m eia dúzia de garrafas de consolação, os proprietários da indústria não eram m eus leitores e, se por acaso souberam da referência ao produto, consideraram que sendo casam ento de gente de pouca distinção, sem fidalguia, sem notícia nas colunas sociais, a citação não prom ovia as vendas. Saí do casam ento de cabeça baixa, um tanto constrangido.
A sorte é ter-se m odificado a situação da fam ília Calasans Neto, a clientela do artista cresceu e cresce, Deo gratia! Já o intitulam nababo da gravura, o gosto da senhora Rosa aprim orou-se, hoj e só se bebe no solar de Itapuã néctares franceses e alem ães, quando convidam My riam e Carlos Fraga, Elcy e Jorge Lins Freire*, os anfitriões abrem cham panhe Cristal — lá se vai de graça a propaganda. Quem sabe receberei um as garrafas.