Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 53 de 262

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São Paulo, 1988.

No carro, em cam inho da capital paulista, Sartre pareceu-m e perturbado com o se sentisse abalado seu saber sem dúvidas. Me disse m ais ou m enos o seguinte:

— Esse Brasil é um país absurdo, surrealista tu dizes, m as isso não diz tudo, não explica nada, o Brasil não tem lógica, nunca se pode ter certeza. Quando se pensa ter entendido logo nos dam os conta de que com etem os erro, de que o certo é diferente, um disparate.

Fitou a m im e a Zélia, pediu explicação:

— Me digam com o é que um hom em tão reacionário, tão estreito com o Monsieur Mesquita, de repente, ao falar dos cafezais, se transform a num poeta, o m ais terno e am oroso? Um poeta, o que ele m e disse foi pura poesia, estou feliz de tê-lo conhecido.

 

São Paulo, 1988.

O prazer da vida

Zélia foi passar o dia em casa de Luiz Carlos*, m eu irm ão Joelson vem alm oçar com igo no hotel, conta-m e que está tom ando aulas de desenho.

*Luiz Carlos Veiga, filho de Zélia.

— De desenho? — pergunto, sorridente, j á não m e espanto.

— Creio que levo j eito — responde-m e ele, sério. Doutor Joelson Am ado, Joca na intim idade, o irm ão do m eio o m elhor de nós três, dos filhos de dona Eulália e do coronel João Am ado de Faria. Durante anos diretor do departam ento de neuropediatria do Hospital do Estado, m édico pediatra de grande clientela, curou a dor de barriga e o defluxo de filhos de m ilionários e de gente fam osa — da atriz Glória Menezes, do pintor José Morais, do escritor Ricardo Ram os, de Regina e Boni Oliveira, dos netos de Segall, filhos de Beatriz e Maurício — e dos rebentos de todos os m em bros do Partido Com unista, Com itê Estadual de São Paulo, estes últim os num erosos e gratuitos. Sua clínica ocupava um andar inteiro em edifício de consultórios m édicos no centro da cidade.

Nesse tem po de m edicina e de vida social, j antares, coquetéis, recepções, Joelson não tinha sossego, entrava às sete da m anhã no Hospital, alm oçava correndo, o bip ao lado do prato para atender m ães agoniadas, vivia m orto de sono, sem tem po para nada: viagens, passeios, diversões, ócio, proibidos. Tam pouco sobrava tem po a Fanny, sua esposa, foniatra, professora universitária, para viver a vida. Tím ido, circunspecto, introvertido, cansado, de pouca conversa e m enos riso, Joelson estava ficando solene e chato, preocupava-m e.

Um dia a vista com eçou a lhe faltar, a am eaça de cegueira se acentuou, obrigando-o a abandonar a clínica, o doutor Hilton Rocha, sum idade m ineira e m undial, salvou o que lhe restava de visão. Condenado ao ócio, desde então Joelson dedicou-se a viver, acum ulando, num a ânsia de quem quer reaver o tem po perdido, ocupações e interesses os m ais variados. É hoj e um hom em alegre j ovial, extrovertido, de m uita conversa e m uito riso, o oposto do chato e do solene, a m ais feliz das criaturas que conheço.