Navegação de Cabotagem
Paris, 1988.
Ligam -m e a Lasar Segall laços de am izade nascidos de m inha adm iração, sou tarado por sua pintura. Com a inconsciência da idade escrevo sobre arte, afirm o besteiras, m as acerto ao colocá-lo nas alturas, proclam á-lo o m estre principal: a afirm ação agrada ao brasileiro provindo das estepes com passagem pela Alem anha.
Não sei quem m ais se assom bra, se Lucy, se Sérgio, quando Segall espalha no chão do atelier quatro ou cinco guaches, cada qual m ais belo: escolha um entre eles, m e diz. Anuncia em alta voz: vou lhe dar um quadro de presente, amigo, balança a cabeça com o se ele próprio duvidasse. Engulo em seco, term ino por m e decidir: a m oça na rede dentro da paisagem tropical. A m oça, decerto Lucy , aluna e m odelo.
Estendo a m ão para tom ar posse da dádiva, Segall é m ais rápido, volta a guardá-la: vou colocar passe-partout, entregarei depois. Regresso à Bahia sem o guache, em com eços de 1945 venho viver em São Paulo, alugo apartam ento na Avenida São João, penduro nas paredes telas de Pancetti, Graciano, Flávio de Carvalho, Quirino da Silva, Rebolo, Nonê de Andrade, ofertas dos artistas. Janto com frequência em casa de Segall, um dia venço o em baraço, reclam o o presente feito há quase um ano, o quadro oferecido, j am ais entregue, desej o tê-lo em m eu apartam ento. Não há dúvida, tem razão, amigo, concorda Segall: não me esqueci, tive propostas e não vendi. Espero sair com o guache, saio com as m ãos vazias, não m e atrevo a reclam ar.
Dias depois Segall m e telefona, passará pelo apartam ento após o alm oço. Chega na hora m arcada acom panhado por um operário arm ado de m artelo, pregos e outros apetrechos, sob o braço o quadro, em oldurado: m oldura branca, até hoj e a conservo igual. Segall escolhe o centro da parede principal de onde faz retirar m eu retrato pintado por Quirino, m anda que o operário tom e as m edidas, estabeleça o espaço, coloque os gram pos, ele próprio, Lasar Segall, pendura a paisagem com a m oça na rede: a sala do apartam ento se ilum ina e se engrandece. Afasta-se, olha, volta, aj eita, tom a distância para ver m elhor.
— Parabéns, am igo, soubeste escolher, um a beleza de quadro. Custa-m e desprender-m e dele. Vez por outra Segall aparecia, visita honrosa, agradecia. Não vim visitar você, amigo, vim visitar meu quadro, estava com saudades. Sentava-se em frente a adm irar.
Paris, 1988.
Neném
Gilberto* telefona de Ly on, acaba de chegar do Rio, traz- m e a m orte de Neném , ele a carrega ao colo com o se leva um a criança no em balo dos braços, eu a recebo pela segunda vez, dias antes fora o frio telefonem a do j ornalista pedindo opinião sobre o secretário-geral do Partido Com unista Brasileiro. Não consigo conter o pranto, choram os j untos, o filho de Giocondo e eu: um a parte de m im se foi, a m elhor a m ais brava, a m ais decente. Gilberto soluça: morreu com teu nome na boca.
*Gilberto Santana Dias, físico.
Já m e haviam contado: quando saía da inconsciência e retornava ao m undo por alguns instantes, perguntava por m im , éram os siam eses. Juntos batalham os, erram os e aprendem os. Aprendem os na carne a diferença entre a grandeza dos ideais e a m iséria da ideologia, ficam os sabendo que o grande hom em pode dim inuir em anão quando o vírus do m ando — ainda que sej a nesga ínfim a do poder absoluto — lhe invade o sangue e lhe atinge o coração. Havíam os aprendido tudo o que havia a aprender e ninguém m ais podia nos enganar, m as não ficam os nem áridos nem pérfidos, conservam os intacto o sonho que ilum inou nosso percurso.