Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 139 de 262

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São Luís do Maranhão, 1977.

Em auditório ilustre de Paris, sob a presidência de Jack Lang, Georges Raillard* analisa em profundidade a poesia de Carlos Drum m ond de Andrade, alvo da hom enagem dos intelectuais franceses, a Gallim ard prepara a edição de suas poesias com pletas, a presença universal do poeta nos engrandece, espero que lhe concedam o Prêm io Nobel. No Rio de Janeiro, no desfile das Escolas de Sam ba, enredo da Mangueira, Carlos Drum m ond vem de ser proclam ado cam peão do carnaval. No salão de Paris consagram -no literatos refinados, os m estres europeus; na passarela do sam ba, o povo brasileiro.

*Georges Raillard, escritor francês.

Penso no claro enigm a de Carlos Drum m ond de Andrade. Raríssim os os poetas e prosadores cuj as criações deixam de lhes pertencer, transform am -se em dom ínio público, em bem de todos. Assim sucede com a obra poética de Carlos Drum m ond, poeta tão distante da facilidade — sua poesia por vezes tão difícil, sem pre à altura da obra-prim a, deixou de pertencer ao vate tím ido e recatado para se tornar sentim ento e condição dos brasileiros, influiu sobre todos, sem exceção, e a todos em ocionou. Qual de nós não diz que tinha uma pedra no meio do caminho, repetindo verso seu? Que hom em do povo — quantos deles analfabetos — não perguntou na hora da dificuldade: e agora, José, repetindo verso seu? Drum m ond é o exem plo do poeta que extralim itou do livro e sensibilizou a nação inteira, inclusive aqueles que nunca o leram , sequer um verso. Sua poesia fez-se dito popular, frase correntia, sam ba-enredo de Escola de Sam ba, rosa do povo. Depois de Castro Alves, som ente ele, nenhum outro.

São Luís do Maranhão, 1977.

Reconciliação

Estou fazendo a barba na m anhã do hotel em São Luís, o rádio ligado, ouço a notícia da m orte de Carlos Lacerda, sobressalto-m e, a gilete corta-m e o queixo, ardem -m e os olhos. Vej o-m e rapazola nos com ícios da Aliança Nacional

Libertadora, nos corredores da Faculdade de Direito, petulante autor de cacau, depois na redação de Diretrizes, prim eira fase, a com unista: sem pre j untos, Carlos e eu.

Fom os am igos de todos os m om entos na década de 30, fraternos, em dias de luta, de perseguição, Carlos escondido após a intentona de 1935, os anos difíceis do Estado Novo, com pusem os a quatro m ãos letra para m úsica de Dorival Cay m m i, canção rom ântica: nossos passos pela estrada, / o teu corpo nos meus braços...

Depois nossos cam inhos políticos se bifurcaram , Carlos tom ou as estradas que conduzem ao poder, prossegui m ilitante com unista. As divergências ideológicas não cavaram abism o entre nós, as boas relações pessoais persistiram até que Carlos em editorial na Tribuna da Imprensa agrediu Zélia com grosseria. Ela se ofendeu, tinha razão, tanto m ais que carregara ao colo Sérgio prim eiro, Sebastião depois, infantes um e outro, em conj unturas precárias quando Carlos buscava trabalho em São Paulo e Ziloca para cuidar dos filhos tinha o apoio das am igas: Zélia, Aparecida Mendes, Isabel* devotadas. Solidário com Zélia rom pi relações com o pasquineiro.

*Isabel Mendonça

Am igos com uns, Wilson Lins, Alfredo Machado, João Conde, tentaram repetidas vezes reaproxim ar-nos. Alfredo am eaçou levá-lo à casa do Rio Verm elho, pedi que não o fizesse, era a casa de Zélia e eu não a via disposta à indulgência. Um dia, pouco antes de sua m orte, o correio m e trouxe exem plar de livro de Carlos, A casa de meu avô e um a palavra dele: tudo que desejo é não morrer teu inimigo, senti um frio nos ovos. Mostrei livro e recado a Zélia, ela nada disse.