Navegação de Cabotagem
Roma, 1948.
— Renunciou? Os m ilitares vão assum ir? E eu que acabo de pagar os livros que encom endei, chegaram hoj e, agorinha m esm o. Fiquei a pão e água. Marcam os encontro, discutim os, reunim os gente, com eçam os a agir para sustentar Goulart, garantir-lhe a posse, fizem os m isérias, foi divertido às pam pas. Quanto aos livros, Eduardo os leu, um a um . Minha sobrinha Mariana herdou o m apa-m úndi.
Roma, 1948.
O poder
Tom am os o ônibus em Paris para Rom a, vam os assum ir o poder. Oficialm ente nossa viagem se destina a cobrir para a im prensa com unista do Brasil as eleições italianas*, som os três com credenciais de correspondente estrangeiro, Zora Selj an, Carlos Scliar e eu. Zora fará as reportagens e algum as entrevistas, Scliar desenhará cenas de rua e retratos de dirigentes, caberá a m im entrevistar Togliatti e Pietro Nenni, fazer a análise política da vitória. Da vitória, sim , pois o Partido Com unista Italiano vai ganhar as eleições, subirá ao poder, form ará o novo gabinete em aliança com os socialistas de Nenni. Participarem os da grande festa, hurra!
*Eleições de 1948.
Os com unistas perderam as eleições, os dem ocratas-cristãos conservaram o governo, estávam os os três na redação de L'Unitá curtindo notícias falsas quando Togliatti chega e declara: perdem os. Abatidos fom os j antar pizza com Dário Puccini* num a cantina barata, j á não podem os esbanj ar, não conquistam os o poder. Zora rasga e j oga num a lata de lixo a reportagem m ais verídica e em ocionante das eleições, tem po perdido. Para não perder tem po, queria tê-lo livre para a festa, redigira com antecedência o noticiário da vitória eleitoral, contando com o acontecera, detalhes saborosos, a grandiosidade da com em oração, o povo nas ruas com bandeiras, a m úsica e as estrofes do hino avanti popolo, reportagem para entusiasm ar e com over. Mais prudente, Carlitos deixou para fazer os desenhos depois, fizera apenas um , a redação de L'Unitá lotada de j ornalistas estrangeiros, em prim eiro plano Dom inique de Santis, enviada de Action, e Oleg Ignatiev, do Konsomolska Pravda de Moscou.
*Dário Puccini, professor universitário, escritor.
Perdem os as eleições, nem por isso a viagem foi inútil ou triste. A derrota não lim itou as festividades, no encontro em casa de Guttuso** estava m eio m undo, de Moravia a Zavattini, de Carlo Levi a De Santis, de Em ilio Sereni a Giancarlo Paj etta, sem falar nas condessas com unistas fervorosas, iniciei em Rom a m inha colheita de am izades, prossegui em Florença: Vasco Pratolini, em Milão: Elio Vittorini. Dário Puccini j á havia traduzido Capitães da Areia***, traduziu depois outros livros m eus, bate-se até hoj e pela literatura brasileira, com o se fosse escritor nascido no Rio de Janeiro. Fala o português na perfeição, pronúncia carioca, foi-lhe ensinado por m oça brasileira com quem teve am ores — aprendeu na cam a, não há form a m elhor de se aprender os idiom as do que trocando língua, boca na boca em ais de am or.
**Renato Guttuso (1912/1987), pintor.
***I banditti del porto, Edizioni Sociales.
Zora retorna a Paris onde tem tarefas a cum prir, Carlitos e eu vam os para Gênova esperar Zélia que chega do Rio com João Jorge. Do cais eu a vej o no deque do navio, o infante ao colo, m inha m adona, o coração dispara no peito, enfim a terei nos braços, não há poder que se com pare.