Navegação de Cabotagem
Tbilisi, 1948.
— O bardo está dizendo que quer fazer pipi.
Tbilisi, 1948.
O tempo que se vive
Ouço os contos georgianos nos brindes repetidos: onde se bebe m ais, em Moscou, em Kiev ou em Tbilisi? De vários guardo m em ória, de um desej o dar notícia, dele uso e abuso ao falar da am izade.
Contam que em dia de inverno um arqueólogo m em bro da academ ia de ciências da URSS, em visita à República da Geórgia, percorreu velho cem itério da cidade, do tem po quando Tbilissi ainda era Gori, na m ão o caderno de apontam entos científicos e o lápis de apontar. Foi de m ausoléu em m ausoléu, de sepulcro em sepulcro, de tum ba em tum ba, tom ando notas para um a tese funerária, era um sábio sapiente, proj etava escrever o tratado definitivo sobre a cidade dos pés j untos.
Percorrendo o cem itério, deu-se conta da existência de um a aberração, patente em cada sepultura, nos m ausoléus, covas rasas. No m ausoléu daquele que fora o hom em m ais rico da cidade, leu: Aqui j az fulano de tal, nasceu em 1834, faleceu em 1904, viveu apenas sete anos. Erro na inscrição, pensou o sábio, afazendo as contas na ponta do lápis: não sete com o dizia a lápide e sim setenta. Na sepultura seguinte, se renovou o engano pois da baronesa Irina Moscovitch Kalininova, que viera ao m undo em 1812 e dele se fora velhinha em 1906, constava ter vivido som ente vinte prim averas. O sábio fez a subtração, dona Irina falecera aos noventa e quatro anos, conta errada no m árm ore. De lápide em lápide constatou o absurdo: de todos se dizia terem vivido um tem po bem m enor que aquele delim itado pelas datas de nascim ento e m orte, todos à exceção de dois defuntos, am bos em covas pobres, um a costureira, Katia dos Anzóis Carapuça, um carteiro de segunda classe, Alexis Ignatiev, neles as datas quase coincidiam . Tom ado de indignação o sábio dirigiu-se ao zelador do cem itério, velho sem idade ali esquecido pelos poderes públicos, exigia explicação sobre o absurdo da repetição de erro tão grosseiro em local público. O velho tossiu, fitou o visitante, explicou: só se vive o tempo da amizade, não sabia? O mais é tempo perdido, inútil e vazio, não é vida, apenas purgatório, quando não é inferno.
Contado o conto, erguem -se os cálices, bebe-se à am izade, sal da vida.
Nova York, 1937.
O neto
Sou apresentado a John dos Passos num ato que tem com o obj etivo angariar dinheiro para os republicanos espanhóis, o rom ancista acaba de chegar do front e vai voltar. Conta as dificuldades do governo legítim o da Espanha, a ofensiva fascista dos generais de direita, a aj uda m aciça de Hitler e Mussolini a Franco.