Navegação de Cabotagem
Lisboa, 1957.
*Maria Tavares Taboada, filha de Odorico.
**Ulysses Mascarenhas, médico, professor universitário.
***Aderbal Jurema, político.
Jornalista form ado na escola de Assis Chateaubriand, hom em de sua confiança e am izade, colecionador de artes plásticas e gráficas, autoridade na m atéria, Odorico colaborou com o diretor dos Diários Associados na cruzada pelos m useus de arte, do MASP de São Paulo ao Museu de Feira de Santana com sua extraordinária coleção de pintura inglesa contem porânea, conselheiro e executivo. Tendo vindo dirigir os dois órgãos da cadeia dos Associados existentes na Bahia, a Bahia o educou, o am ansou, aparou-lhe as arestas a ponto de term inarem seus am igos m esm o os que o acusavam dos m ales do m undo. O que a arte m oderna da Bahia lhe deve não há com o pagar, ele a carregou nas costas e a im plantou na praça pública.
Nos tem pos em que m e dedicava a pregar partidas aos m eus am igos Odorico foi de m inhas vítim as prediletas. Convidados para os festej os de seu cinquentenário, fom os, Cary bé e eu, ao quartel da Polícia Militar, convencem os o com andante a enviar a banda da Briosa para tocar em hom enagem ao aniversariante em frente à residência no Morro do Ipiranga na hora da recepção. Recepção de alto coturno, o governador, o cardeal, o general, o alm irante, o brigadeiro, os lordes, os ricos, de repente ressoam na rua os acordes da m archa m ilitar, os soldados postam -se em posição de sentido diante da casa de Odorico. Os m oleques do m orro excitados gritam Revolução!, os filhos do vizinho Dm eval Chaves anunciam a ocupação da rua, Dem ê saiu do chuveiro onde se banhava para ir à festa, atirou-se para a porta gordo e nu com o viera ao m undo.
Cary bé e eu riam os à socapa, Odorico não se enganou, filhos das putas! disse ao passar por nós para ir receber a hom enagem . Nós o acom panham os para lhe lem brar que não bastava m andar servir cervej a aos m úsicos, devia concorrer com um cheque para a caixa da banda que executava sem parar dobrados de ensurdecer. Dêem vocês, se quiserem, seus escrotos.
Na m esa de pôquer com Mirabeau, Yves Palerm o, David Araúj o, Wilson Lins, Fernando Coelho, Carlinhos Mascarenhas, era vítim a de roubos e trapaças, Carlinhos fazia m isérias, Odorico erguia os braços para os céus: que crim e com etera para ter de suportar aqueles m iseráveis? No sonho eu o vej o, o neto pela m ão, vem desafiar-m e para o pôquer: hoje é meu dia, traga dinheiro, vou levá-lo à falência, seu canalha.
Lisboa, 1957.
A cidade proibida
Retorno de viagem a Moscou, em 1957, em Copenhague tom o o avião da SAS* para o Rio, escalas em Zurique, Lisboa, Dakar, Recife — aviões a hélices, vinte e seis horas de sofrim ento, O traj eto de Zurique a Lisboa durava quatro horas, nunca m enos. Ora, acontece que com apenas três horas e pouco de vôo o aparelho com eça a descer, reconheço os telhados de Lisboa: sem direito de entrar em Portugal tudo que eu conhecia de Lisboa eram os telhados. Durante a escala, reduzido à sala de trânsito, sonhava com as ruas, as ladeiras, os cafés, fanático de Eça de Queiroz, por ele sabia da cidade.
*SAS, Scandinavian Airlines.
Interrogo a aerom oça, m e explica que daí a um a hora com eçaria a greve dos pilotos da SAS, antes que com ece os aviões descerão no aeroporto m ais próxim o. Para não criar m aiores transtornos aos passageiros, o com andante resolvera abreviar o tem po de vôo para Lisboa, onde com facilidade poderíam os encontrar lugares para a Am érica do Sul em aeronaves de outras com panhias. Acrescentou que seguiríam os viagem pela Swissair no dia seguinte pela m anhã, prim eiro vôo previsto.
Levaram nossos passaportes, na sala de trânsito aguardam os até que nos conduziram prim eiro à polícia, em seguida à alfândega. No guichê da polícia recebem os de volta os passaportes com visto válido por vinte e quatro horas. Observado pelos olhos curiosos do policial, recebi o m eu, lá estava o visto, quase não acreditei, andei para a alfândega, os funcionários revistavam a bagagem de m ão de cada um . Era o fim de um a tarde de inverno.
Som os levados de ônibus a um hotel do centro no qual a com panhia aérea j á tinha reservado apartam entos. Ao entregar o passaporte na recepção enxerguei um tipo de olhos postos em m im , envergava chapéu e gabardine, o polícia clássico: o secreta m enos secreto do m undo. De posse da chave e de convite da SAS para j antar num a casa de fados com os dem ais passageiros, subi ao quarto, além dos fados eu tinha outra opção: m inha am iga Beatriz Costa exibia graça e talento num teatro do Parque May e; conform e eu lera num j ornal enquanto aguardava na sala de trânsito a decisão das autoridades. Nem a nostalgia dos fados, nem a picardia de Beatriz: eu tinha finalm ente Lisboa ao m eu alcance pelo tem po lim itado daquela noite, a cidade sonhada e proibida, ia percorrê-la, andar nas ruas.
Desci à portaria, cam biei um pouco de dinheiro, perguntei com o chegar ao Rocio, sob as vistas e os ouvidos atentos do policial: levantara-se de um a cadeira onde estivera sentado durante m inha breve ausência. Saí na direção indicada, em busca do Rocio, alguns passos atrás o tira, fechara a gola da gabardine, fazia frio.
Noite sem história. Eu andava lentam ente, tentando receber tudo quanto Lisboa tinha a m e dar: os perfum es, as cores, os ruídos, casas, rostos, vozes, risos, tanta coisa. Meu coração pulsava acelerado e eu decerto sorria, os olhos úm idos pois palm ilhava as calçadas de Lisboa. Parava em frente às m ontras, fitava as pessoas, lia tabuletas, nom es de travessas, de tascas, de cafés. Dem orei-m e diante da vitrine da livraria do Diário de Notícias, vislum brei um a edição portuguesa de Degelo, de Ily a Erem burg. Eu lhe entregara em Moscou um a sem ana antes a edição brasileira do m esm o rom ance, a livraria estava aberta, entrei, com prei um exem plar— quando tivesse ocasião o enviaria a Ily a — e um a bela edição d'0 livro de Cesário Verde. Dem orei-m e no vício de folhear livros, seria a presença ostensiva do policial que despertara a curiosidade do balconista? Olhava-m e com o a adivinhar m inha identidade, um a pergunta nos lábios, não se atreveu a fazê-la. Quando saí, ele cochichou com a m oça da caixa. Lá fom os nós, eu e m eu acom panhante, em direção à Praça do Com ércio.
De volta ao Rocio sentei-m e a um café, feliz da vida, o secreta encostou-se a um poste, suspendeu a gola da capa, o frio aum entara, ri por dentro. Inform ei-m e com o garçom sobre Alfam a e Mouraria e para lá seguim os os dois: eu era na época andarilho com petente, por vezes o secreta via-se obrigado a apressar o passo para não m e perder de vista. Por casualidade assisti m eus com panheiros de avião desem barcarem do ônibus diante da casa de fados m as não os acom panhei ao bacalhau à Gom es de Sá, contentei-m e com a leitura da em enta fixada à porta, preferi a noite perfum ada e friorenta de Lisboa, as ruas calm as, algum as desertas, aquele encontro de am or.