Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1967.
Os doze
Guim arães Rosa e eu, após o j ulgam ento do Prêm io Walm ap, cuj o j úri fora constituído por ele, por Antônio Olinto* e por m im , levam os m ais de um m ês nos divertindo ao telefone com o pretexto de colocar de pé um Prêm io dos Mestres do Rom ance Brasileiro: j úri para ninguém botar defeito, seria form ado pelos doze maiores do atual romance brasileiro, decidira Rosa. O autor de Sagarana levava horas ao telefone, adorava: eu j á era seu am igo íntim o de interm ináveis telefonem as quando o conheci pessoalm ente num alm oço em casa de Miriam e Pedro Bloch**.
*Antônio Olinto, escritor.
**Pedro Bloch, escritor e médico, Miriam, sua mulher.
Rosa garante o apoio financeiro de um banco de Minas Gerais para dotação grandiosa a fazer de nosso Prêm io o m ais cobiçado do país, apesar disso term inam os por desistir do em preendim ento, pois não conseguim os alcançar a dúzia de m estres prevista para a com posição do j úri. Chegam os a oito concordâncias, com eçando, é claro e natural, pelos nossos nom es, o dele e o m eu, não fôssem os nós os donos da ideia. Erico Veríssim o, Adonias Filho, Josué Montello, Cam pos de Carvalho, Dalcídio Jurandir, Dy onélio Machado, não conseguim os a difícil unanim idade de dois necessária aos outros quatro nom es.
Propus Marques Rebelo, o de Marafa e A estrela sobe, Rosa recusou: bom contista, romancista medíocre. Precisam os de um a m ulher, disse eu, citando autora badalada. Rosa im placável: ruim demais, tente reler um romance dela, vai ver que não chegará ao fim, se fosse um júri de cronistas ainda vá. Assim gastávam os boa parte da m anhã, passam os em revista a ficção nacional, não conseguim os os quatro m estres que nos faltavam .
O melhor mesmo é desistir, concluiu Rosa, conform ado. Você já pensou na tempestade que iria desabar sobre nós quando descobrissem ter sido nossa a iniciativa e a escolha dos jurados? Já pensou na raiva dos que não estivessem colocados entre os doze? íamos ser arrastados na rua da amargura.
Abandonam os o proj eto, m as não os telefonem as, o prazer da conversa m atutina, conversa de sotaque quando vinham à tona nom es de certos confrades, notabilidades.
Rio de Janeiro, 1931.
A professora
Convidado pelos pais de Haroldo Aguinaga vou ao Teatro Municipal, com panhia italiana m onta a ópera de Carlos Gom es, Il Guarani. O m édico ilustre agradece com o convite o exem plar de O País do Carnaval, recém -publicado, que eu lhe enviara com dedicatória, até então pensava que o am igo do filho estudante de direito era um vagabundo a m ais a lhe filar a bóia. Som os cinco no cam arote, o casal Aguinaga, um a senhora da alta, am iga da fam ília, Haroldo e o penetra. Os pais nas cadeiras da frente, nas do m eio a grã-fina e eu, ao fundo Haroldo.
Balzaquiana, tendo dobrado o cabo dos quarenta, m as em plena form a, feliz o Vice-Alm irante da Marinha de Guerra que a tem de esposa, a grã-fina para m im é o ideal em m atéria de m ulher, ideal inaccessível, ai! Dela se evola perfum e fino, aquele para o qual foi criado o adj etivo em briagador, penetra-m e nas narinas, entontece-m e, aj uda-m e a suportar os dós-de-peito da prim a-dona, Cecy obesa, de busto afrontoso, m elenas loiras. Haroldo abandona o cam arote, vai fum ar no corredor.
Eis que sinto dedos a tocar-m e o j oelho, sobem pelas coxas, atingem a boa altura, os dedos suaves se estendem em m ão que afaga, que cobre, segura, aperta. Volto do susto para o gozo incontido, m e esporro, a senhora fita-m e nos olhos, m orde os lábios, deve estar gozando, penso enquanto inundo a cueca. De pé, ao fundo, de retorno à penum bra do cam arote, Haroldo se diverte. Nas escadarias do teatro, apontando a convidada que em barca no autom óvel dos Aguinaga, ele m e aconselha.
— Vá em frente, Maria Vice-Alm irante é m aravilha, está doidinha por ti. Vais com er do bom e do m elhor e ganhar pij am as de seda — por ora vam os os dois às criadas do Lem e e de Copacabana.
Não dem ora um a sem ana e Maria Vice-Alm irante se despe no Hotel Leblon onde, levado por ela, entro pela prim eira vez. Deslum bra-m e a j uventude do corpo da balzaquiana, conservado em crem es e óleos, aspiro o perfum e de fêm ea, de m ulher civilizada, os seios fartos, um corte de bisturi dá-lhe graça ao ventre, os pêlos ruivos da xoxota, flor, j óia exótica. Estende-se na cam a, as m ãos sob a nuca, espreguiça-se, tom a de um cigarro, antes que o acenda atiro-m e sobre ela, fauno, sátiro, m achão, vou com ê-la com o ela nunca foi com ida. Em dois lances a executo, tenho-a no pau desde a noite do teatro, saio dela em gala e em glória, todo eu canto vitória, espero expressões de regozij o, o louvor da tesão, tenho dezenove anos, j ulgo-m e o m aior.
Maria Vice-Alm irante desata na gargalhada, olha para m inha cara, para a estrovenga a m eio m astro, quanto m ais olha m ais ri, dobra a gaitada, aponta-m e com o dedo, riso incontrolável: fourire é o bom term o pois m adam e usa e abusa do francês. Eu a escuto rir, abobalhado, de súbito ridículo, tenho vontade de ir-m e em bora.
Por fim , a duras penas, ela se controla, tom a de m inha m ão, faz-m e deitar a seu lado, enfia os dedos sábios entre os pêlos de m eu peito, toca-m e os m am ilos:
— Que m achão, não é? Tolo! Que pensas que eu sou? Vim aqui para quê? Sou um obj eto, um buraco de m eter, ou um a m ulher apaixonada? Tu não sabes nada, pobre ignorante. — O rosto de Maria Vice-Alm irante se ilum ina: — Melhor assim , vou te ensinar, ser tua professora, quando voltar para a Europa — o m arido é adido naval em capital do Velho Mundo, m esm o se eu recordasse em qual eu não diria — te deixarei em ponto de bala. Para as outras, não m e im porta.
Cum priu o prom etido, o que sei de m elhor nessa m atéria aprendi com ela, fez-m e doutor de borla e capelo, sou-lhe grato: de quando em quando sinto-lhe o odor de fêm ea, revej o os seios de pegar e apertar, recordo o xibiu pequeno, os pêlos ruivos. Me educou.
Pensar pela própria cabeça custa caro, preço alto. Quem se decidir a fazê-lo será alvo do patrulhamento feroz das ideologias, as de direita e as de esquerda e as volúveis: há de tudo, e todas implacáveis. Ver-se-á acusado, xingado, caluniado, renegado, posto no pelourinho, crucificado. Ainda assim vale a pena, seja qual for o pagamento, será barato: a liberdade de pensar pela própria cabeça não tem preço que a pague.
Buenos Aires, 1942.
Convivência
Vou visitar Júlio de Mesquita Filho* para com unicar-lhe a decisão tom ada na reunião de Montevidéu pelos exilados com unistas, ratificada na véspera em Buenos Aires: dado que o Brasil declarou guerra ao eixo nazi-fascista, colocou-se ao lado das Nações Unidas, nosso lugar, nosso posto de com bate é na pátria, o tem po do exílio term inou, a nova tarefa é aj udar o governo no esforço de guerra. Recito m eu relam bório com convicção e j actância, Julinho Mesquita ouve-m e com boa educação e ceticism o:
*Júlio de Mesquita Filho (1892/1969), diretor do jornal O Estado de S. Paulo.
— Vocês vão se entregar à polícia? É dem ais. Discutim os, cada vez que nos encontram os discutim os, m as ao cabo e ao fim chegam os a algum a concordância, m esm o pequena é valiosa. Não naquela vez da despedida.
— Gesto bonito, pode ser, m as tresloucado. — Julinho m e fita com com iseração, profetiza: — Vocês ainda vão virar getulistas.
Não deu outra. A "linha j usta" do Partido aprovada na Conferência da Mantiqueira iria nos conduzir à aliança com os querem istas, aos braços de Getúlio. Digo até breve, ele m e pergunta se pode m e ser útil, está às ordens, só falta puxar da carteira, agradeço, de nada necessito. Renovam os as expressões de estim a, regresso a Montevidéu, a partida para o Brasil j á tem data m arcada.
Meu relacionam ento com Júlio de Mesquita se iniciou em 1941 quando cheguei a Buenos Aires para escrever O Cavaleiro da Esperança e o Partido m e deu a tarefa de tratar com os liberaloides, a gente de Armando Sales de Oliveira, a hora era de alianças na luta contra o fascism o e de convivência com os políticos que rotulávam os de liberais com m enosprezo e desconfiança. De início apenas cordial, com o passar do tem po e a repetição dos encontros, o conhecim ento se transform ou em estim a, deu lugar à am izade.
Julinho liderava o grupo de exilados que na Argentina com batiam o Estado Novo sob a orientação de Arm ando Sales, o ex-candidato à Presidência da República encontrava-se nos Estados Unidos. O Estado de S. Paulo fora desapropriado, o governo o cham ara a si, de trincheira da liberdade passara a porta-voz da ditadura, Julinho se sentia ofendido e colérico. O Estadão m ais que Patrim ônio da fam ília Mesquita, era patrim ônio da dem ocracia brasileira.
Entre nós se estabeleceu um clim a de m útua confiança, a fidalguia do quatrocentão paulista venceu m eu pé-atrás, durante cerca de dois anos de quando em quando discutíam os política, pesávam os nossos acordos e desacordos, estudávam os o que fazer j untos, eles e nós, não m ais nos estranhávam os, deixam os de ser inim igos. Julinho acom panhou com interesse a pesquisa em que m e em penhei para escrever a louvação do Cavaleiro da Esperança, recom endou-m e livros, lem bro-m e de um deles, de autoria de Aureliano Leite de quem eu viria a ser colega na Constituinte. Levei para Julinho um dos prim eiros exem plares da edição Claridad de La Vida de Luiz Carlos Prestes. O político e j ornalista da Revolução Constitucionalista guardara adm iração e afeto pela figura legendária de Prestes a quem tratava por Capitão — a patente do j ovem oficial quando se revoltou em 1924. Um elo a m ais a nos unir, a facilitar a convivência. Éram os hom ens de princípios os dois, m as não éram os nem intransigentes nem sectários. A diferença consistia em ser ele educado e eu um porra-louca, m as Julinho achava divertida m inha insolência com unista.