Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 32 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Bahia, 1966.

— Venho te oferecer um contrato de quinhentos m il dólares pelos direitos de cinem a de Tieta... — repete: — quinhentos m il dólares. — O livro Tieta do Agreste, êxito nas livrarias, o film e Dona Flor, êxito nos cinem as.

Fita-m e, estira as pernas, acende o charuto, sorriso de vitória na cara sim pática de nordestino. Sorrio tam bém , toco-lhe no j oelho:

— Meio m ilhão de dólares, Luiz?

Puxa fum aça do charuto, executivo displicente, habituado ao trato de som as fabulosas, aos roy alties incríveis, produtor de Holly wood e cercanias:

— Isso! Meio m ilhão...

— Meio m ilhão! E tens coragem de dizer que és m eu am igo...

— E sou, não é de hoj e.

— Dizes que és m eu am igo e vens m e fazer proposta dessa ordem , proposta de inim igo...

— Hein?

— Tu queres, Luiz, que eu passe o resto de m inha vida a te cobrar esse dinheirão, tu a m e enrolares até que eu m orra de cansaço e de desgosto sem ter recebido sequer um dolarzinho de am ostra. Não, tu não és m eu am igo, Luiz.

Luiz Carlos se dá conta, o sorriso finório de executivo se dobra em boa gargalhada cearense. Sirvo-lhe uísque, conversam os à la godaça, tarde de am igos, Luiz Carlos dem ora-se até a hora de ir para o aeroporto, Aurélio vai levá-lo. Na porta, os braços estendidos para a despedida:

— Quer dizer que não aceitas?

Esta foi a prim eira peripécia de Tieta no cinem a, existiram outras, nenhum a tão generosa em m atéria de dólares à m ão cheia.

 

Bahia, 1966.

Mãe senhora

Na m adrugada o telefone m e desperta, a voz em lágrim as de Stela de Oxóssi, m inha irm ã de santo, quase não pode falar:

— Meu irm ão, nossa Mãe m orreu...

Era dom ingo, por acaso sou o único obá que se encontra na cidade, devo assum ir sozinho os encargos da m orte de m ãe Senhora, a soberana. No axé reinam o desespero e a confusão, a iy akekerê, Ondina, a desafeta, que só aparece um a vez por ano na festa de Xangô, está presente, as rivais se olham de través, palavras de sotaque em m eio ao pranto, a guerra dos santos pela sucessão j á com eçou, devo decidir o que fazer, não penso tom ar partido, se bem Stela sej a m inha irm ã e candidata.

— Esta m ulher não pode tocar na cabeça de m inha m ãe! São quatro horas da m anhã, vou ao Gantois buscar m ãe

Menininha, irm ã-de-santo da m orta, am bas de Oxum , única de seu porte, para que tom e da navalha e venha retirar o oxu da cabeça de Senhora, libertar o egun. Menininha, Creusa, Carm em , as ebonins e as iaôs arrancam os cabelos, roj am -se no chão. Volto ao Opô Afonj á trazendo m ãe Menininha, encontro Mário Obá Telá*, abraço-o aliviado, agora som os dois a providenciar e resolver. Menininha entra no quarto onde está o corpo, descobre a cabeça de Senhora, ergue a navalha.