Os Miseráveis
VIII — Filosofia de sobremesa
Quando estava prestes a re rar-se, resolveu cantar pon ficalmente um Te-Deum e comunicou a sua intenção ao cura. Mas surgiram graves dificuldades, pois não havia as insígnias episcopais que era mister. A modesta igreja paroquial apenas podia pôr à disposição do bispo alguns deteriorados paramentos de damasco, guarnecidos de galões falsos.
— Isso não será obstáculo, senhor cura — disse o bispo. — Anuncie na missa o nosso Te-Deum, que o mais sempre se há-de arranjar.
Procuraram-se paramentos em todas as igrejas dos arredores e reunidas as magnificências das humildes paróquias, mal chegavam para reves r convenientemente um chantre da catedral.
Achavam-se as coisas nestes apuros, quando à porta da residência paroquial chegaram dois cavaleiros desconhecidos que, depois de fazerem entrega de uma grande caixa de que eram portadores, tornaram a par r imediatamente. Aberta a caixa, viu-se que con nha uma dalmá ca carregada de oiro, uma mitra guarnecida de diamantes, uma cruz arquiepiscopal, um báculo magnífico, todos os paramentos pon ficais roubados um mês antes da sacris a de Nossa Senhora de Embrun. No fundo da caixa
estava um papel em que se liam estas palavras: Oferta de Grava e a Monsenhor Bemvindo.
— Eu bem dizia que tudo se havia de arranjar! — exclamou o bispo. Em seguida acrescentou, sorrindo: — A quem se contentava com a sobrepeliz de um simples cura, envia Deus um manto de arcebispo!
— Deus... ou o diabo! — murmurou o pároco, abanando a cabeça com um sorriso de incredulidade.
O bispo fitou atentamente o pároco e replicou em tom austero:
— Foi Deus.
Quando voltou a Chastelar, de todos os lados, vinha gente à beira da estrada para o ver passar. Chegado à residência paroquial de Chastelar, encontrou a irmã e Magloire que o esperavam ali e, apenas as viu, exclamou:
— Então, eu não nha razão? Vai um pobre sacerdote visitar os infelizes montanheses com as mãos vazias e volta de lá com elas cheias! Quando fui, levava apenas a minha confiança em Deus, e agora volto trazendo o tesouro de uma catedral!
À noite, antes de se deitar, disse ainda:
— Não tenhamos receio de ladrões e de assassinos. São muito pequenos os perigos exteriores. Devemos ter receio é de nós próprios! Os preconceitos e os vícios é que são os verdadeiros ladrões e os verdadeiros assassinos! Os maiores perigos são os que se acham dentro de nós mesmos. Que importa que a nossa cabeça ou a nossa bolsa esteja ameaçada? Não devemos temer senão o que nos ameaça a alma! — Depois, voltando-se para a irmã, acrescentou: — Minha irmã, o sacerdote não deve precaver-se contra o próximo. Aquilo que ele pra ca é permi do por Deus. Limitemo-nos a implorar a bondade divina, quando nos julguemos ameaçados por qualquer perigo. Imploremo-la, não por nós, mas para que os nossos irmãos não caiam em tentação por nossa causa.
Todavia, os acontecimentos fora do comum, eram raros na sua existência. O modo de viver do bispo era quase sempre idên co, passava a vida a fazer sempre as mesmas coisas nas mesmas ocasiões, de modo que um mês do seu ano assemelhava-se a uma hora do seu dia.
Quanto ao des no que levou o tesouro da catedral de Embrun, embaraçados nos veríamos se alguém nos perguntasse o que foi feito dele. Eram, na verdade, coisas muito ricas e tentadoras para não serem furtadas em proveito dos desvalidos. E demais, furtadas já elas nham sido. Metade da aventura estava passada; o que faltava era mudar apenas a direcção do furto, fazendo-lhe dar mais uns passos para o lado dos pobres. Não afirmaremos, pois, coisa alguma a tal respeito. O que sabemos ao certo é que entre os papéis do bispo apareceu uma nota de certo modo obscura, que alude talvez a este assunto, e concebida nos seguintes termos: O ponto consiste em saber se isto deve voltar para a catedral, ou ir para o hospital.
VIII — Filosofia de sobremesa
O senador de que atrás falámos, era um homem entendido, que percorrera sempre o seu caminho com rec dão pouco atenta a todos os encontros que lhe servem de obstáculo e a que se chama consciência, fé, jus ça e dever; superior a semelhantes
preconceitos, caminhara sempre direito ao seu fim, sem uma só vez se desviar da linha do seu adiantamento e interesses. Era um an go procurador, não perver do pela prosperidade nem dotado de mau coração, prestando com facilidade os serviços que podia em favor dos filhos, genros, parentes e até amigos; aproveitara sempre os ensejos da fortuna e o que a vida tem de melhor, sem se importar com mais nada, porque o contrário, no seu entender, era asneira. Espirituoso e instruído suficientemente para se julgar discípulo de Epicuro, não passando talvez de um produto de Pigault-Lebrun, ria-se com a maior sa sfação e vontade das coisas infinitas e eternas e dos desvarios do bom bispo, chegando, por vezes, a fazê-lo com a mais prazenteira autoridade, na presença do próprio prelado.
Um dia, por ocasião de uma cerimónia semi-oficial, encontraram-se a jantar em casa do prefeito, Carlos Myriel e o conde de... (o senador). À sobremesa, o senador, um tanto prazenteiro, sem contudo perder a dignidade, exclamou:
— Senhor bispo, se não se importa, conversemos um bocado. Um senador e um bispo raramente conseguem fitar-se sem piscar os olhos. Nós somos dois agoureiros. Vou fazer-lhe uma revelação. Tenho um sistema filosófico propriamente meu.
— Faz muito bem — respondeu o bispo. — Conforme é a filosofia que professamos, assim é a cama que preparamos para nós próprios. A de V. Ex.ª deve ser de púrpura, senhor senador.
Este, mais animado, continuou:
— Sejamos bons rapazes!
— Pobres diabos, mesmo! — disse o bispo.
— Declaro-lhe — prosseguiu o senador — que o marquês de Argens, Pyrrhon, Hobbes e Naigeon, não são nenhuns parvos ridículos. Tenho na minha biblioteca todos os meus filósofos, magnificamente encadernados.
— Como V. Ex.ª, senhor conde — interrompeu o bispo.
O senador prosseguiu:
— Odeio Diderot! É um ideólogo, um declamador revolucionário, mas no ín mo mais crente em Deus e mais religioso do que Voltaire. Este escarnecia de Needham e não nha razão, porque as enguias de Needham provam que Deus é inú l. Uma gota de vinagre numa colher de farinha amassada vale pelo fiat lux. Imaginem uma gota maior e uma colher de mais avantajadas dimensões e aí têm o mundo! O homem é a enguia!
Neste caso, de que serve o Padre Eterno? Senhor bispo, não posso levar à paciência a hipótese Jeová. Só serve para emagrecer os que pensam demais. Abaixo, pois, esse grande Todo que me incomoda! Viva Zero, que me deixa tranquilo! Aqui entre nós, para não ficar nada por dizer e confessar-me ao meu pastor, como devo: declaro-lhe que, por ora, tenho a cabeça no devido lugar, e não me sinto apaixonado pelo seu Jesus que prega por todos os cantos a renúncia e o sacri cio. Conselho de um avarento dado a mendigos. Renúncia, porquê? Sacri cio, a quem? Não é crível que um lobo se imole por outro lobo. Conservemo-nos como a natureza nos fez. Estamos no cume, seja também superior a nossa filosofia. De que serve estar no cimo, se a gente não vê um palmo adiante do nariz? Vivamos alegremente, porque na vida se cifra tudo! No outro futuro
que dizem que o homem tem cá por cima, lá por baixo, em qualquer parte, isso escusam de pregar, porque não creio numa só palavra. Como me recomendam o sacri cio e a renúncia, devo meditar sobre todas as minhas acções e quebrar a cabeça para dis nguir o bem do mal, o justo do injusto, e o lícito do ilícito Porquê? Porque terei de dar contas das minhas acções? Quando? Depois da minha morte. Que bonito sonho! Depois de eu morrer hão-de pegar-me nas botas! Falemos franco, nós que somos iniciados e que erguemos a túnica de Isis. Não há bem nem mal, há apenas vegetação. Procuremos a realidade, cavemos até ao fundo, que diabo! É necessário encontrar a verdade, cavemos até encontrá-la e tenhamos a certeza de que ela nos dará os mais requintados prazeres e que fará com que nos riamos do resto. Bem vê que sou quadrado na base. Senhor bispo, a imortalidade da alma não passa de um mito, uma promessa encantadora e mais nada!
Que felicidade ser filho de Adão! Ser alma, ser anjo, ver-se a gente com asas azuis nas omoplatas, que deslumbrante perspec va! Vamos, senhor bispo, ajude-me a memória, não foi Tertuliano quem disse que os bem-aventurados andarão de astro em astro? Ora aí tem! Seremos os gafanhotos das estrelas e ainda por cima gozaremos da presença de Deus. Que patarata é toda esta colecção de paraísos! Deus não passa de uma frioleira monstruosa! Por certo que eu não ia agora pôr-me a dizer isto nas colunas do Monitor, mas aqui entre amigos inter pocula posso dizê-lo. Sacrificar a terra pelo paraíso é largar a presa pela sombra! É extremamente estúpido ser logrado pelo infinito. O que sou eu senão uma porção do nada? Exis a porventura antes de nascer? Não. Con nuarei a exis r depois de morto? Não. O que sou então? Um pouco de pó agregado por um organismo. Que devo fazer na terra? Posso escolher: sofrer ou gozar. Aonde me conduzirá o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Aonde me levará o gozo? Ao nada.