Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 125 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Post corda lapides

Havia também entre as mais bonitas, uma galante rapariga de vinte e três anos,

natural da ilha Bourbon e descendente do cavalheiro Rosa, que no mundo se chamara Mademoiselle Rosa e se chamava então madre Assunção.

A madre Santa Ma lde, que era encarregada do canto e do coro, gostava de empregar nele as recolhidas. De ordinário tomava uma escala completa delas, isto é, sete, de dez até dezasseis anos inclusive, da mesma estatura e com a mesma voz, às quais fazia cantar de pé e todas enfileiradas pela ordem da idade, caminhando da mais nova para a mais velha. Oferecia isto aos olhos a vista de um como arrabil de pastor, feito de donzelas, uma espécie de flauta de Pan, feita de anjos.

De entre as irmãs conversas, as que as recolhidas amavam mais, eram soror Santa Eufrásia, soror Santa Margarida, soror Santa Marta, que estava idiota, e soror S.

Miguel, de quem muito se riam, por causa do seu comprido nariz.

Todas aquelas mulheres eram agradáveis para com todas aquelas crianças. Eram severas as religiosas, mas só consigo. Não se acendia lume senão no Recolhimento, e o alimento, comparado com o do convento, era escolhido. Afora isto, nham com as educandas mil cuidados. Só quando alguma delas passava por alguma religiosa e lhe dirigia a palavra, a religiosa nunca respondia.

Esta regra do silêncio fizera com que em todo o convento fosse rada a fala às criaturas humanas e dada aos objectos inanimados. Ora era o sino da igreja que falava, ora o chocalho do jardineiro. Além disto, nha a rodeira ao lado uma sonora campainha, que se ouvia de todos os lugares do convento, a qual, por toques variados, que eram uma espécie de telégrafo acús co, indicava todas as necessidades materiais que havia a sa sfazer e chamava ao locutório quando era necessário esta ou aquela habitante do convento. Cada pessoa ou coisa nha o seu toque. Para chamar pela prioresa era um e um; pela sub-prioresa um e dois. Seis-cinco anunciavam a aula, de modo que as educandas nunca diziam entrar para a aula, mas ir às seis-cinco. Quatro-quatro era o toque de Madame Genlis. Este toque ouvia-se frequentes vezes. — É pelo diabo a quatro! — diziam as menos caridosas. Dezanove badaladas anunciavam um grande acontecimento. Era a abertura da porta da clausura, horrível chapa de ferro, eriçada de ferrolhos, que não girava nos gonzos senão perante o arcebispo.