Os Miseráveis
VII — Continuação do enigma
No momento em que ao longe se perdiam os ecos da algazarra dos demónios, aproximava-se outro rumor, que dir-se-ia as melodias de um coro de anjos no silêncio da noite.
Jean Valjean e Cosette caíram de joelhos.
Eles não sabiam o que aquilo era, nem onde estavam, mas ambos conheciam, o homem e a criança, o penitente e o inocente, que se deviam prostrar de joelhos.
O que aquelas vozes nham de extraordinário era que apesar de se ouvirem, nem por isso o edi cio parecia menos deserto. Formavam como um cân co sobrenatural numa casa desabitada.
Enquanto as vozes cantavam, Jean Valjean não pensava em coisa alguma. A noite para ele desaparecera, não via senão o céu do mais belo azul. Parecia-lhe sen r as asas que todos temos dentro de nós mesmos.
Por fim, o cântico extinguiu-se.
Tinha talvez durado muito tempo. Jean Valjean não teria podido dizê-lo. As horas de êxtase nunca são mais do que um minuto.
Tudo ficara novamente silencioso. Não havia o mínimo ruído nem na rua nem no jardim. Tudo se desvanecera, tanto o que o ameaçava, como o que o tranquilizava. Não se ouvia senão vento agitando no alto do muro algumas ervas secas, que produziam um murmúrio suavemente lúgubre.
VII — Continuação do enigma
A brisa da noite começava a refrescar, o que indicava ser uma ou duas horas da manhã. A pobre Cose e não dizia coisa alguma. Como se nha sentado ao lado de Jean Valjean e lhe havia encostado a cabeça ao ombro, julgou ele que adormecera.
Curvou-se e encarou-a.
Cose e nha os olhos muito abertos e um ar pensa vo que muito afligiu Jean Valjean.
A criança não cessara de tremer.
— Tens sono? — perguntou Jean Valjean.
— Tenho muito frio — respondeu ela. Um momento depois acrescentou: — Ela ainda lá está?
— Quem?
— A senhora Thenardier.
Jean Valjean esquecera-se já do meio de que se servira para obrigar Cose e a estar calada.
— Ah! — disse ele. — Já se foi embora. Não tenhas medo.
A criança suspirou como se lhe tivessem tirado um grande peso de sobre o peito.
Como a terra estava húmida, o alpendre era aberto por todos os lados e a brisa refrescava cada vez mais, Jean Valjean despiu a sobrecasaca e cobriu Cosette com ela.
— Tens menos frio assim? — perguntou ele.
— Agora tenho menos, meu pai!
— Então deixa-te estar quietinha que eu já venho.
Em seguida saiu das ruínas e começou a caminhar ao longo do edi cio, encostado à parede, em procura de algum abrigo melhor. Encontrou diversas portas, mas todas fechadas; e as janelas do rés-do-chão eram guarnecidas de grades.
Quando passou o ângulo interior do edi cio, viu que se achava ao pé das tais janelas de grades, e lobrigou alguma claridade. Pôs-se nos bicos dos pés e espreitou por uma das