Os Miseráveis
XI — Pontaria certeira que não mata ninguém
Subitamente os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas. Não era Isto volubilidade; mas a sua situação compunha-se de esperanças, cortadas por esmorecimento. Sen u confusamente o que quer que era horrível. As coisas passam, com efeito, no: ar. Disse consigo que não «estava certa de coisa alguma, e que deixarem-se de se ver era
perderem-se; então a ideia de que Mário lhe poderia vir do céu pareceu-lhe já não encantadora, mas lúgubre.
Instantes depois, por uma dessas transformações par culares a esta espécie de nuvens, voltaram-lhe ao espírito as fugidas esperanças, que se lhe traduziam exteriormente por uma espécie de sorriso inconsciente, mas crente em Deus.
No resto da casa, os outros moradores estavam ainda todos recolhidos. Não se via uma única janela aberta nem se ouvia o menor rumor que indicasse achar-se mais alguém de pé. Estava tudo num silêncio absoluto, que se estendia desde o úl mo andar até ao quarto do porteiro, que se conservava ainda fechado. Ao ver que a própria Toussaint se não havia ainda levantado, Cose e naturalmente supôs que também seu pai se achava ainda recolhido.
No meio das alterna vas por que estava passando, a jovem acusava seu pai e como que mentalmente lhe atribuía a causa da sua desgraça. Necessário fora que Cose e vesse sofrido muito e ainda sofresse para dar guarida a tais ideias. Felizmente que contava com Mário, porque era de todo o ponto impossível o eclipse de semelhante luz.
De espaço a espaço, ao ouvir, ao longe, uns como surdos abalos, dizia consigo:
— É singular principiarem hoje tão cedo a bater com as portas!
O que ela tomava por um estrondo de abrir e fechar de portas eram os ros de peça com que a tropa procurava forçar a barricada da rua da Chanvrerie.