Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 332 de 359

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Os Miseráveis

XI — Abalo no absoluto

É esse o costume no Marais, principalmente em dias de tumulto. Este excelente e an go bairro, quando a revolução o assusta, procura o refúgio do sono, como as crianças, quando ouvem o papão, metem rapidamente a cabeça entre os lençóis.

Ao mesmo tempo Jean Valjean, ajudado pelo cocheiro, rava Mário para fora do carro, pegando-lhe um por baixo dos braços e outro pelas pernas.

Na ocasião em que isto fazia, Jean Valjean meteu a mão por baixo da roupa do rapaz, que se achava toda esburacada, apalpou-lhe o peito e viu que o coração ainda ba a.

Ba a ainda com mais força, como se os balanços do carro lhe vessem produzido uma reacção.

Javert dirigiu-se ao porteiro no tom que convém a uma autoridade que fala com o porteiro de um faccioso.

— Aqui é que mora um tal Gillenormand?

— Sim, senhor. Que deseja?

— Entregar o filho.

— O filho? — disse o porteiro, estupidamente admirado.

— Que vem morto.

Jean Valjean, que seguia atrás de Javert, e para quem o porteiro, ao vê-lo todo roto e sujo, olhava com certo horror, acenou-lhe com a cabeça que não.

O porteiro, porém, não deu mostras de ter percebido nem as palavras de Javert nem o sinal de Jean Valjean.

Javert continuou:

— Foi-se meter na barricada, agora ali o têm!

— Na barricada?! — exclamou o porteiro.

— Morreu porque quis! Mas vá acordar o pai.

O porteiro continuava imóvel.

— Então? Vamos! — tornou Javert.

E acrescentou:

— Amanhã haverá aqui um enterro.

Para Javert, os incidentes habituais dos caminhos públicos estavam classificados por ordem, de categoria, o que é o princípio da previdência e da vigilância, e cada eventualidade nha o seu compar mento; os factos possíveis achavam-se, de algum modo, em gavetas, de onde saíam, chegada a ocasião, em quan dades variáveis; havia na rua barulho, tumulto, carnaval e enterro.

O porteiro limitou-se a acordar Biscainho.

Biscainho acordou Nicolette e esta acordou a tia Gillenormand.

Quanto ao avô, deixaram-no con nuar a dormir, lembrando-se que a todo o momento era tempo de lhe dar a saber o que se passava.

Transportaram Mário para o primeiro andar, sem que ninguém mais de casa o pressen sse, e deitaram-no num velho canapé na antessala de Gillenormand. Enquanto Biscainho saía a procurar um médico e Nicole e rava panos de linho de dentro dois armários, Jean Valjean sentiu que Javert lhe punha a mão no ombro.

Compreendeu e saiu imediatamente, seguido por Javert.

O porteiro viu-os partir, como os vira chegar, no meio de uma sonolência apavorada.

Meteram-no no carro e o cocheiro subiu para o seu lugar.

— Inspector Javert — disse Jean Valjean — conceda-me outro favor.

— Qual? — perguntou Javert com aspereza.

— Deixe-me chegar a casa só por um instante. Depois faça de mim o que quiser!

Javert deteve-se alguns instantes silencioso, com a cabeça pendida para o peito, e, por fim, exclamou, baixando a vidraça da frente:

— Cocheiro, para a rua do Homem Armado, número 7.

XI — Abalo no absoluto

Em todo o resto do caminho não tornaram a trocar uma só palavra entre si. Que nha Jean Valjean em vista?

Acabar o que nha principiado; avisar Cose e, dizer-lhe onde estava Mário, dar-lhe talvez mais algum esclarecimento ú l, tomar, se lhe fosse possível, certas disposições supremas.

Quanto ao que pessoalmente lhe dizia respeito, nada mais nha a fazer; Javert prendera-o, ele não lhe resistia.

Na sua situação, outro qualquer talvez se lembrasse da corda que lhe dera Thenardier e das grades do primeiro cárcere em que fosse metido. Ele, porém, não.

Desde a época do seu encontro com o bispo, Jean Valjean sen a uma profunda hesitação religiosa em presença de qualquer atentado, ainda mesmo contra si.

O suicídio, pois, essa misteriosa violência contra o incógnito, a qual, até certo ponto, pode encerrar a morte da alma, tornava-se impossível a Jean Valjean.

A entrada da rua do Homem Armado, o carro parou, por ser a rua tão estreita, que os carros não podiam passar.

Javert e Jean Valjean apearam-se.

O cocheiro representou humildemente ao «senhor inspector» que o veludo de Utrecht, de que era forrado o seu carro, estava todo sujo de sangue do homem assassinado e da lama do assassino. Era isto o que ele supunha, pelo que vira.

Acrescentou que se lhe devia uma indemnização, e, ao mesmo tempo, rando do bolso um pequeno caderno, rogou ao senhor inspector que vesse a bondade de lhe passar um «atestadozinho em como prestara o auxílio do seu carro para aquela diligência».

Javert repeliu o caderno que o cocheiro lhe apresentava e disse:

— Quanto se te deve por tudo?

— Sete horas e um quarto — respondeu o cocheiro — e o veludo estava ainda em folha. Oitenta francos, senhor inspector.

Javert tirou do bolso quatro napoleões e despediu o carro.

Jean Valjean supôs que a intenção de Javert era conduzi-lo a pé ao posto de Blancs-Manteaux ou ao dos Arquivos, que ficam próximos.

Entraram na rua, que se achava deserta, como de costume. Jean Valjean ia adiante.

Chegaram ao número 7.

Bateu Jean Valjean. A porta abriu-se.

— Está bem — disse Javert. — Suba.

E acrescentou com estranha expressão e como se fizesse um esforço para assim falar:

— Eu espero-o aqui.

Jean Valjean fitou os olhos em Javert.