Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 106 de 359

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Os Miseráveis

IV — No que repara a principal inquilina

A vida de Jean Valjean quase se cifrava em ensinar Cose e a ler e deixá-la brincar, e, além disto, em lhe falar da mãe e fazê-la rezar.

A pobre criança chamava-lhe pai e não lhe sabia outro nome.

Jean Valjean passava horas inteiras a vê-la ves r e despir a boneca, a ouvi-la chilrear.

Parecia-lhe agora cheia de interesse a vida, afiguravam-se-lhe bons e justos os homens, já não descobria razão nenhuma para não poder chegar a muito velho, agora que aquela criança o amava. Via diante de si um futuro iluminado por Cose e como por uma luz encantadora. Os melhores homens não são isentos de um pensamento egoísta. Jean Valjean lembrava-se às vezes com uma espécie de alegria que talvez ela viesse a ser feia.

Isto é apenas uma opinião pessoal, mas para dizermos todo o nosso pensamento, no ponto em que se achava Jean Valjean, quando principiou a amar Cosette, não nos parece bem provado que ele não vesse necessidade desta revivificação para perse-verar no bem. Ele acabava de ver sob novos aspectos a maldade dos homens e a miséria da sociedade, aspectos incompletos, que não mostravam fatalmente senão um lado da verdade, a sorte da mulher resumida em Fan ne, a autoridade pública personificada em Javert; voltara às galés, desta vez por haver pra cado o bem; nham-lhe torturado o coração novas amarguras; apossava-se dele outra vez o tédio e o cansaço; até a mesma recordação do bispo nha talvez um momento de eclipse, para aparecer mais tarde luminosa e triunfante; mas, enfim, esta recordação sagrada ia enfraquecendo. Quem sabe se Jean Valjean estaria em vésperas de perder a coragem e cair de novo? Amou, tornou-se forte. Ah! Porém não estava de novo menos vacilante do que Cose e. Ele protegeu-a e ela fortaleceu-o. Por influência dele, ela pôde caminhar pela senda da vida; por influência dela, ele pôde con nuar na virtude. Ele foi o sustentáculo daquela criança

e aquela criança foi o seu ponto de apoio. Ó insondável e divino mistério dos equilíbrios do destino!

IV — No que repara a principal inquilina

Jean Valjean nha a prudência de nunca sair de dia. Todos os dias, porém, ao descer do crepúsculo, passeava uma ou duas horas, às vezes só, muitas vezes com Cose e, procurando as áleas laterais dos boulevards mais solitários e entrando nas igrejas ao cair da noite. Jean Valjean gostava de ir a S. Médard, que é a igreja mais próxima. Quando não levava Cose e consigo, esta ficava com a velha, mas o maior prazer da criança era sair com o velho, preferindo até uma hora com ele aos deliciosos diálogos com Catarina, a preciosa boneca. Quando Jean Valjean saía com ela conduzia-a pela mão, dizendo-lhe coisas agradáveis.

Era então que Cosette estava no auge da alegria.

A velha tratava do arranjo doméstico, cozinhava e ia às compras.

Viviam sobriamente, tendo sempre o fogão aceso, mas como pessoas pouco abastadas. Jean Valjean em nada alterara a mobília do primeiro dia; só mandara substituir por uma porta a vidraça do quarto em que Cosette dormia.

O seu trajo consis a ainda no mesmo casacão amarelo, nos mesmos calções pretos e no mesmo chapéu velho. Na rua tomavam-no por um pobre, acontecendo às vezes voltarem-se algumas boas mulheres e darem-lhe um soldo. Jean Valjean recebia o soldo e saudava profundamente. Sucedia também outras vezes ele encontrar algum miserável implorando a caridade, e então olhava para trás a ver se alguém o via, acercava-se fur vamente do infeliz e me a-lhe na mão uma moeda de cobre, e às vezes de prata, e afastava-se rapidamente. Isto, porém, nha os seus inconvenientes. Jean Valjean principiava a ser conhecido no bairro pelo nome do pobre que dá esmolas.

A velha, principal locatária, criatura rabugenta e invejosamente curiosa das vidas alheias, examinava muito Jean Valjean, sem ele dar fé. Era um tanto surda, e isto tornava-a tagarela. Restavam-lhe do seu passado dois dentes, um de baixo outro de cima, que de con nuo ba a um contra o outro. A velha fizera minuciosas perguntas a Cose e, porém como esta não sabia nada, nada lhe pôde dizer, senão que vinha de Mon ermeil. Um dia, pela manhã, vendo a curiosa velha entrar Jean Valjean para um dos compar mentos desabitados do casebre, com um ar que lhe pareceu par cular, seguiu-o com o passo de uma gata matreira e pôde observá-lo, sem ser vista, pela fenda da porta, em frente da qual ele se achava de costas voltadas, sem dúvida para maior precaução. Viu-o meter a mão no bolso e tirar um agulheiro, umas tesouras e linhas, pôr-se depois a descoser a costura de uma das abas do casacão e rar da abertura um bocado de papel amarelado, que desdobrou, A velha reconheceu espantada que era uma nota de mil francos, a segunda ou terceira que via em dias de sua vida e deitou a fugir aterrada.