Os Miseráveis
VIII — A aba do casaco rasgada
O arco era fechado com uma for ssima grade, e esta, segundo todas as aparências, girava raras vezes em seus gonzos oxidados, estava presa à ombreira de pedra por uma espessa fechadura, que vermelha de ferrugem, parecia um enorme jolo. Via-se o buraco da chave e a enorme lingueta profundamente embu da no seu encaixe de ferro. A fechadura estava visivelmente fechada com dupla volta. Era uma daquelas fechaduras de Bastilhas, em que o velho Pans se mostrava pródigo.
Para além da grade, o ar livre, o rio, o dia, a encosta estrei ssima, mas suficiente para passar. Ao longe do cais, Paris, pego onde é tão fácil a qualquer ocultar-se, o amplo horizonte, a liberdade. Dis nguia-se à direita olhando para baixo, a ponte de Iena, e à esquerda, olhando para cima, a dos Inválidos; o lugar, esperando a noite, era propício para a fuga. Era um dos pontos mais solitários de Paris; a encosta fronteira ao Gros-Caillou. Por entre os varões da grade entravam e saíam as moscas.
Seriam oito horas da tarde. Ia anoitecendo.
Jean Valjean pôs Mário no chão, encostado à parede e no sí o enxuto do escoadouro, em seguida foi direito à grade e deitou ambas as mãos aos varões; a sacudidela foi frenética, mas o abalo foi nulo.
A grade nem se moveu.
Jean Valjean experimentou os varões cada um por sua vez, esperando poder arrancar o menos sólido e fazer dele alavanca para levantar a porta ou quebrar a fechadura.
Nenhum dos varões deu de si. Os dentes de um gre não são mais sólidos em seus
alvéolos. Nada de alavanca; nada de recurso possível. O obstáculo era invencível. Não havia meio de abrir a porta. Deveria acabar ali? O que faria? Que resolução deveria adoptar? Retroceder, recomeçar o medonho trajecto que já havia percorrido? Não se sen a com forças para isso. Depois, como atravessaria de novo aquele charco, não haveria aquela ronda da polícia, à qual, decerto, não escaparia duas vezes? Além disto, para onde iria? Que direcção deveria tomar? Seguir pelo declive, não era obter o fim.
Chegaria a outra saída e achá-la-ia obstruída com uma rolha ou com uma grade. Todas as saídas estavam indubitavelmente fechadas do mesmo modo.
Não conseguira senão evadir-se para uma prisão.
Estava tudo acabado, fora inú l tudo quanto Jean Valjean fizera. O desalento terminava no aborto.
Estavam ambos presos na sombria e imensa teia da morte, e Jean Valjean sen a correr pelos seus negros fios, estremecendo no meio das trevas, a espantosa aranha.
Voltou as costas para a grade e sentou-se, ou melhor, caiu prostrado junto de Mário, que continuava imóvel, e curvou a cabeça sobre os joelhos.
Não achar uma saída! Era a última gota da angústia!
Em quem pensava ele, no meio daquela incomensurável tortura?
Nem em si mesmo nem em Mário. Pensava em Cosette!
VIII — A aba do casaco rasgada
No meio da sua prostração, sen u pousar-se-lhe uma mão no ombro e ouviu uma voz, dizendo-lhe em tom baixo:
— Repartamos.
Gente no meio daquelas trevas?
Jean Valjean supôs que sonhava, porque nada se assemelha tanto ao sonho como a angústia.
Não tinha ouvido passos.
Seria possível?
Levantou os olhos.
Diante dele achava-se um homem.
Este homem trajava uma blusa, estava descalço e nha os sapatos na mão esquerda; decerto tirara-os para chegar até junto de Jean Valjean, sem ser pressentido.
Jean Valjean não hesitou um instante.
Apesar do imprevisto daquele encontro, conheceu logo quem tinha diante de si.
Aquele homem era Thenardier.
Posto que acordado, por assim dizer em sobressalto, Jean Valjean, afeito aos choques repen nos e aos golpes inesperados, que é necessário aparar logo, readquiriu imediatamente toda a sua presença de espírito. Além de que, a situação não podia piorar, porque a angús a, chegada a certo grau, não pode ir mais avante, de modo que nem o próprio Thenardier podia aumentar o negrume daquela escuridão.
Seguiu-se uma pausa.
Thenardier levou a mão direita à testa como para ver melhor, depois franziu as sobrancelhas, piscando os olhos, o que, com uma leve contracção de lábios, caracteriza a
atenção sagaz de um homem que procurava reconhecer outro. Não pôde, porém, consegui-lo. Jean Valjean, como já dissemos, estava com as costas voltadas para a luz, e, além disso, achava-se por tal modo desfigurado com a lama e o sangue que o cobriam, que fora impossível reconhecê-lo, mesmo à claridade do dia. Pelo contrário, iluminado em cheio pela luz da grade, claridade de subterrâneo, é verdade, lívida, sim, mas precisa na sua lividez, Thenardier foi imediatamente reconhecido por Jean Valjean. Essa desigualdade de condições era bastante para assegurar a Jean Valjean uma tal ou qual vantagem, no; misterioso duelo que se ia travar entre as duas situações e os dois homens.
O encontro tinha lugar entre Jean Valjean velado e Thenardier desmascarado.
Jean Valjean viu logo que Thenardier não o reconhecera.
Contemplaram-se ambos um momento, no meio daquela penumbra, como se previamente se quisessem medir.
Thenardier foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— E agora para saíres?
Jean Valjean não respondeu.
Thenardier continuou:
— Forçar a grade é impossível. Todavia, o que tu queres é sair.
— É exacto! — disse Jean Valjean.
— Nesse caso, repartamos.
— Que queres tu dizer com isso?
— Mataste o homem, fizeste muito bem! E eu tenho a chave.
Ao dizer isto, Thenardier apontava para Mário.
— Apesar de te não conhecer — prosseguiu ele — quero ajudar-te. Não podes deixar de ser um dos nossos.
Jean Valjean começou a entender. Thenardier tomava-o por um assassino.
O antigo estalajadeiro tornou:
— Escuta, camarada. Tu, com certeza, não matavas esse homem sem ver primeiro o que ele trazia nos bolsos. Dá-me metade que eu abro-te a porta.
E, mostrando parte de uma chave que trazia escondida por baixo da esburacada blusa, acrescentou:
— Queres ver com que te posso tirar desses assados? Olha.
Jean Valjean «ficou estúpido» — a frase é do velho Corneille — a ponto de duvidar que fosse real o que estava vendo. Era a Providência, sob um aspecto de horror; era o bom anjo surgindo da terra, sob a forma de Thenardier.
O estalajadeiro meteu a mão ao bolso da blusa, rou uma corda e entregou-a a Jean Valjean.
— Toma — disse ele — ainda por cima te dou uma corda.
— Uma corda para quê?
— Também hás-de precisar de uma pedra, mas essa achá-la-ás lá fora, num monte de entulho que lá está.
— E para que quero eu a pedra?
— Pateta! Então não te é preciso uma corda e uma pedra para deitar o gajo ao rio, de modo que ele não fique a boiar na água?
Jean Valjean pegou na corda. Não há ninguém que não tenha destas anuências maquinais.
Thenardier fez estalar os dedos, como se de súbito lhe vesse acudido uma ideia, e exclamou:
— É verdade, camarada, como arranjaste tu para sair do atoleiro? Eu não me atrevi a meter-me nele. Puf! Não cheiras nada bem!
E, após uma pausa, acrescentou:
— Estou a fazer-te perguntas a que tu tens razão para não responder. Aprendi a ser confiado com certo juiz do meu conhecimento. E, demais, não dizendo a gente nada, não se arrisca a falar alto de mais. É o mesmo; por eu te não ver a cara nem te saber o nome, não cuides que não sei quem és nem: o que queres. Assim; eu soubera outras coisas!
Deste um, piparote cá no amigo e agora o que desejas é metê-lo seja onde for, no rio, por exemplo, que é o grande encobre-asneiras! Vou rar-te de assados. Eu cá dou o cavaco por ajudar a livrar um bom rapaz de entaladelas!
Ao mesmo tempo que fingia aprovar o silêncio de Jean Valjean, o empenho de Thenardier era, sem dúvida, obrigá-lo a falar. Deitou-lhe a mão ao ombro, a fim de poder vê-lo de perfil, e exclamou, sem contudo, altear mais a voz:
— A propósito do atoleiro, sempre te direi que és bruto como uma casa! Porque não deixaste lá o homem?
Jean Valjean não respondeu.
Thenardier con nuou, puxando até ao nó da garganta o trapo que lhe servia de gravata, gesto que completa o ar grave de um homem sério:
— Para te falar a verdade, talvez fizesses bem. Os trabalhadores que amanhã hão-de vir tapar o buraco, com certeza encontrariam o gajo no meio da lama, e talvez, fio por fio, viessem a dar-te na pista e agarrar-te. Passou gente pelo cano. Quem foi? Por onde saiu? Viu-o alguém sair? A polícia é muito matreira! O cano é traiçoeiro e não põe reparo em denunciar um homem. Um achado desta natureza é uma raridade, que chama logo a atenção, porque poucos se servem dos canos para os seus negócios, ao passo que do rio todos se u lizam. O rio é a verdadeira cova. Ao cabo de um mês, encontra-se um homem nas redes de Saint-Cloud. E que tem lá isso? Quem matou esse homem? Paris. E a jus ça não dá nem um passo! Fizeste bem!
Quanto mais Thenardier falava, mais Jean Valjean se conservava silencioso.
Thenardier tornou a pôr-lhe a mão no ombro.
— Agora concluamos o negócio. Repartamos. Viste a chave, mostra-me também o dinheiro.
Thenardier apresentava-se com ar desvairado, feroz, astuto, um tanto ameaçador, porém afável.
Dava-se uma estranha circunstância: os modos de Thenardier não pareciam naturais; conhecia-se que nha o que quer que fosse que o inquietava e posto não afectasse ar misterioso, falava em voz baixa; de tempos a tempos, punha o dedo na boca e
murmurava:
— Chut!
Di cil, porém, seria adivinhar o mo vo de tudo isto, porquanto ali só estavam eles.
Jean Valjean lembrou-se de que talvez por ali perto es vessem mais alguns bandidos, com quem Thenardier não desejava muito repartir o que pudesse colher.
Thenardier continuou:
— Acabemos com isto. Quanto tinha o gajo nas ajambras?
Jean Valjean levou as mãos aos bolsos. Como estareis lembrados era costume seu trazer sempre consigo algum dinheiro. A sombria vida de expediente a que estava condenado assim lho tornava necessário. Desta feita, porém, foi apanhado desprevenido. No dia antecedente, à noite, ao ves r o seu uniforme de guarda nacional, tão lugubremente absorto se achava, que lhe esqueceu meter no bolso a carteira.
Apenas trazia consigo alguns trocos no bolso do colete. Virou-o, todo cheio de lama, e pôs em cima da banqueta do cano um luís em ouro, duas moedas de cinco francos e cinco ou seis soldos.
Thenardier estendeu o beiço com uma torção de pescoço significativa.
— Por pouco te deste ao trabalho de lhe dar cabo da pele! — disse ele.
E, dizendo isto, principiou a apalpar com toda a familiaridade os bolsos de Jean Valjean e os de Mário. Jean Valjean, preocupado, acima de tudo, com a ideia de voltar a ser reconhecido, deixava-o
Ao apalpar Mário, Thenardier, com a destreza de um pres digitador, achou meio de lhe rasgar uma aba do casaco, sem Jean Valjean dar fé e escondê-la debaixo da blusa, lembrando-se talvez de que aquele bocado de pano poderia, um dia, servir-lhe para descobrir o homem assassinado e o assassino. Contudo, não encontrou nada mais além dos trinta francos.
— Não há dúvida — disse ele — não vos encontrei mais nada.
E esquecendo a sua frase: repartamos, deitou a mão a tudo. A vista dos soldos, hesitou um pouco; porém, afinal, depois de reflec r, deitou-lhe também a mão, murmurando;
— Não importa! Sempre é estardar um gajo por bem pouco!
Em seguida, tirou novamente a chave debaixo da blusa.
— Agora, amigo, toca a sair. Isto aqui é como na feira, paga-se ao sair! Pagaste, portanto, podes sair.
E soltou uma gargalhada.