Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 326 de 359

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Os Miseráveis

V — Existe na areia como na mulher certa finura pérfida

Jorge, bem como a outra bifurcação da calçada de Antin.

Chegado pouco adiante de um afluente, que cremos seria a ramificação da Madalena, Jean Valjean parou, arquejante de cansaço, justamente num sí o do cano que um respiradouro bastante largo, talvez o da rua de Anjou, iluminava quase completamente, e poisou Mário na banqueta do cano com a cautelosa solicitude que qualquer usaria para com um irmão ferido.

Ao clarão projectado pelo respiradouro para dentro do subterrâneo, o ensanguentado rosto de Mário desenhou-se como no fundo de um túmulo. Os olhos fechados, os cabelos empastados de sangue, colados às fontes, como pincéis molhados em nta vermelha e depois secos, as mãos pendentes e sem movimento, os membros frios, os lábios manchados de sangue coagulado, eis o aspecto que oferecia o rapaz. Uma grande pasta de sangue cobria-lhe o laço da gravata; a camisa pegara-se-lhe às feridas; o pano do casaco roçava-lhe igualmente nelas e devia avivar-lhe o sofrimento, se ele es vesse em estado de sentir.

Jean Valjean desviou-lhe a roupa com as pontas dos dedos e pôs-lhe a mão no coração, que ainda pulsava. Em seguida, rasgou um bocado da própria camisa, ligou-lhe as feridas o melhor que pôde e obstou assim à con nuação da hemorragia; feito isto, inclinou-se para o jovem que con nuava desmaiado e fitou-o com um olhar de inexprimível ódio.

Ao tratar os ferimentos de Mário, Jean Valjean encontrara-lhe nos bolsos dois objectos — o bocado de pão que ele no dia antecedente nha me do no bolso do casaco e a carteira. Comeu o. pão e abriu a carteira. Apenas terminara esta operação, deparou logo com o bilhete com as seguintes linhas, escritas por Mário, e que o leitor decerto ainda não esqueceu:

«Chamo-me Mário Pontmercy. Peço que levem o meu cadáver a casa de meu avô, o senhor Gillenormand, morador na rua das Mulheres do Calvário, número 6, ao Marais.»

Jean Valjean leu estas quatro linhas ao clarão do respiradouro .e ficou um momento como que profundamente absorto, repetindo a meia voz:

— Rua das Mulheres do Calvário, número 6, senhor Gillenormand.

Em seguida, tornou a meter a carteira no bolso, de Mário e, restaurado de forças com o bocado de pão que nha comido, tornou a pegar nele às Costas, encostou-lhe cuidadosamente a cabeça ao seu ombro direito e continuou a descer O cano.

O Cano Grande, que segue o thalweg do vale de Menilmontant, tem perto de duas léguas de comprimento e é pavimentado de pedra em grande parte da sua extensão.

Uma coisa, porém, cumpre notar.

O facho das ruas de Paris, com que aos olhos do leitor alumiamos a marcha subterrânea de Jean Valjean, não o nha este. Indício nenhum lhe dizia que zona da cidade ele atravessava nem que porção de caminho

nha vencido. Apenas o

descoramento das rés as de luz que de espaço a espaço encontrava lhe indicava que o Sol ia fugindo das ruas e não tardaria a esconder-se; e como o rodar dos carros, que ouvia por cima, cada vez mais indis nto, viesse, por úl mo, a cessar completamente, concluiu daqui que já não se achava por baixo do centro de Paris, mas sim que se avizinhava de algum solitário lugar das imediações dos boulevards exteriores ou dos últimos cais.

Onde há menos casas e menos ruas, os canos também têm: menos respiradouros.

Apesar da Crescente escuridão que por todos os lados o envolvia, nem por isso desistiu de avançar sempre, embora às apalpadelas e rodeado de trevas.

Chegado a certo ponto, esta escuridão tornou-se repentinamente terrível.

V — Existe na areia como na mulher certa finura pérfida

Jean Valjean conheceu que ia a meter-se em água e que o que nha sob os pés já não era pedra, mas lodo.

Em certas costas da Bretanha ou da Escócia, sucede às vezes que um homem, viajante ou pescador, caminhando na baixa-mar pela praia, longe de terra, de súbito dá conta que há muitos minutos experimenta certa prisão ao andar. O solo parece pez, em que se lhe agarram os sapatos, como se já não fosse areia, mas visco, o que os seus pés pisam.

Afigura-se-lhe completamente enxuta a areia, mas a cada passo que ele dá, a cova que seus pés descreveram no chão enche-se de água. Nenhuma mudança, apesar disso, descobre a vista; a imensa plaga con nua lisa e tranquila, toda a areia tem o mesmo aspecto, nenhuma diversidade se nota entre a terra firme e a que já o não é; diante do viandante con nua a saltar do mesmo modo a alegre nuvem dos pulgões marinhos. O

homem segue o seu caminho, vai andando sempre, tomando para o lado da terra e

procurando aproximar-se da costa, sem que, porém, o menor temor o sobressalte.

Temor de quê? Todavia, sente o que quer que seja, como se os pés se lhe tornassem mais pesados a cada passo que dá. De repente, enterra-se. Enterra-se duas ou três polegadas. Decididamente, não vai pelo bom caminho; pára a orientar-se. De súbito, olha para o chão. Os pés desapareceram-lhe debaixo de uma camada de areia. Tira-os, tenta retroceder, volta atrás, enterra-se ainda mais. Ao ver-se enterrado em areia até ao tornozelo, faz um esforço para tomar à esquerda, enterra-se até meio da perna; faz outro esforço, firmando-se para o outro lado, enterra-se até ao joelho. Então conhece, possuído de indizível terror, que se acha no meio de um areal movediço, em que ao homem é tão impossível andar como ao peixe nadar. A ra fora o que traz às costas, se traz alguma coisa, alija tudo o que o sobrecarrega, como o navio surpreendido pela tempestade, mas nada lhe vale, que a areia passa-lhe já acima do joelho.

Então chama e agita o chapéu ou o lenço, e, ao mesmo tempo, a areia mais e mais o submerge; se a praia se acha deserta, se ele está muito distante de terra, se o banco de areia goza de má nota, se não há heróis nos arredores, disse; o infeliz ali ficará submerso, condenado a essa horrorosa morte, demorada, infalível, inevitável, impossível de ser apressada ou espaçada, morte que dura horas, que parece não ter termo, que nos colhe de pé, livre e cheio de saúde, morte que nos puxa pelos pés, e a cada esforço que tentamos, a cada grito que elevamos, nos arrasta agora um pouco, logo mais, que parece punir-nos da nossa resistência, confrangendo-nos gradualmente, que lentamente obriga o homem a entranhar-se pela terra, sem o estorvar de contemplar o horizonte que vai deixar, o horizonte, as árvores, os campos esmaltados de verde, os tectos de colmo dispersos pela amplidão da planície, sobre os quais se elevam espirais de fumo, que se ramificam, se estendem e se dissipam no ar; sem vos estorvar de contemplar as velas dos navios ondulando além no mar, e as aves que esvoaçavam se cantam por cima de Vós, indiferentes à imaginável angús a que lentamente vos absorve a vitalidade; sem vos estorvar de contemplar o Sol e o céu, sorrisos de Deus para as flores, esplendores de clarões em que se perdem e se ofuscam as trevas da vossa agonia.

Sabeis o que é morrer assim, privado de auxílio, tocando com os pés na morte e os braços na vida, respirando o ar, isto é, a vida; sen ndo a pressão da areia molhada, isto é, a morte? Sabeis o que isto é? É a maré do sepulcro subindo das entranhas da terra a submergir aquele homem que está vivo:. cada minuto é um coveiro inexorável. O infeliz tenta sentar-se, firmar-se nas mãos, desprender-se por qualquer modo, e cada movimento que faz no seu exasperado contorcer-se mais o enterra; ora se arranca à voragem, ora cai nela; tenta erguer-se, o abismo abre as fauces, mas logo as cerra com mais frenesi, como se quisesse deixá-lo livre por um instante, a cada esforço que ele faz, para mais ao largo o abocar na sua goela medonha. Ele ruge, implora, brada, contorce-se desesperado. Inú l esforço, baldado estrebuchar! Vede-o como se enterra em areia até ao ventre; vede-o como já esta lhe chega ao peito; livre da boca da voragem, resta-lhe aquilo que vedes — o busto! Ouvi-lhe as vozes sem conforto com que o desgraçado impele os ecos da praia; vede como ergue as mãos, como se expande em gemidos desesperados, cravando as unhas na areia, traidor apoio, que lhe foge com o seu auxílio,

tentando agarrar-se ao que não tem consistência, fincando-se nos cotovelos para se rar desse pego movediço, «soluçando frene camente; e a areia sempre a subir, subindo sem descanso, de con nuo, pouco a pouco, mas incessantemente. Ei-la que lhe cobre os ombros, ei-la que lhe chega ao pescoço; eis que já apenas o rosto é a única parte visível de todo ele. Gritava; encheu-se-lhe de areia a boca, emudeceu. Os olhos, vêem ainda, a areia fecha-lhos. Silêncio, depois trevas. Que resta ainda? Vedes-lhe um fragmento de testa. Lá desapareceu agora. Uma madeixa de cabelos redemoinhando na areia, ao sopro de uma lufada do mar. Lá se sumiu também. Esperai. Lá se agitou o que quer que fosse.

É o derradeiro estertor? É isso e mais. Uma mão, que irrompe do chão, se move no ar e desaparece para sempre.

Ó sinistra desaparição humana!

Eis como, nessas terríveis plagas, têm lugar estas medonhas catástrofes, em que às vezes acontece ficar sepultado cavalo e cavaleiro, e outras não só o carro, mas quem o dirige. É um naufrágio sem ser na água. É a terra afogando o homem. A terra, impregnada de água, convertendo-se em armadilha. É a terra apresentando-se como planície e tragando como vaga. Traição em que o abismo abunda.

Esta fúnebre aventura, ainda hoje possível em certas praias de mar, era-o igualmente, há trinta anos no encanamento de Paris.

Antes dos importantes trabalhos principiados em 1833, era o encanamento de Paris sujeito a repentinos desabamentos.

Infiltrava-se a água em certos terrenos subjacentes, mormente se eram friáveis, e o pavimento do cano, quer fosse (reves do de pedra, como no sistema an go, quer formado de cal hidráulica, como nas galerias actuais, desnivelava-se, uma vez que não achasse ponto de apoio. Em pavimentos deste género, um desvio de nível é uma fenda, é a ruína certa. Abria-se o pavimento dentro de «certa área, e a esta: abertura, hiato de um abismo de lama, chamava-se na linguagem especial «algara subterrânea». Que é uma algara? A areia movediça da beira-mar encontrada, de repente, debaixo da terra; o areal do monte de S. Miguel num cano. O solo parece uma substância em fusão; todas as suas moléculas se acham em suspensão num meio inconsistente; não é terra, mas também não é água. Não se pode imaginar coisa mais temerosa. Se predomina a água, é rápida a morte, porque a submersão é instantânea; ,se predomina a terra, é lenta a morte, porque há enterramento.

Quem há aí capaz de avaliar o horror de semelhante morte? Se o enterramento é horroroso numa praia de mar, que não será numa cloaca?

Em vez do ar livre, da luz do dia, daquele horizonte claro, daqueles majestosos sussurros, daquelas nuvens livres de que chove a vida, daquelas barcas avistadas ao longe, daquela esperança que toma todas as formas, da possibilidade de passar alguém, da possibilidade de ser socorrido até o úl mo instante, em vez de tudo isto, a surdez, a cegueira, uma abóbada escura, o interior de um túmulo pronto e acabado, a morte na lama debaixo de uma tampa! A sufocação lenta por meio da imundície, um caixão de pedra em que a asfixia estende as garras no meio do lodo e vos aperta a garganta; o fé do de envolta com a agonia; o lodo em vez da areia; o hidrogénio sulfurado em vez do furacão; o lixo em vez do Oceano, e clamar, e ranger os dentes, e estorcer-se, e debater-se e agonizar com: a cidade enorme, que o ignora, por cima da cabeça!

Inexprimível horror — o de tal morte!

A morte compensa às vezes a sua atrocidade por uma certa dignidade terrível.

No naufrágio, na fogueira, podemos ser grandes; é possível uma a tude majestosa, quer no meio das chamas, quer no meio da espuma; transfiguram-nos em qualquer dessas conjunturas. Mas, no caso que indicamos, não. Nesse caso, a morte é asquerosa, É humilhante expirar. As supremas visões que flutuam diante de nossos olhos são abjectas. Lama é sinónimo de vergonha. É mesquinho, feio e infame. Morrer afogado num tonel de Malvasia, como Clarence, passa; no lixo de um cano, como Esco bleau, é horrível. Debater-se ali dentro é medonho; ao mesmo tempo que agonizamos, chafurdamos. São trevas demais para se chamar àquilo inferno, e demasiada lama para se lhe dar apenas o nome de tremedal, de modo que o moribundo não sabe se vai transformar-se em espectro, se em sapo.

Em qualquer parte é sinistro o sepulcro, aqui é disforme.

A profundidade das algaras variava, bem como a sua extensão e densidade, segundo a melhor ou pior qualidade das camadas inferiores do solo. Algumas algaras nham três e quatro pés de profundidade, outras oito ou dez, e algumas havia a que não se achava fundo. Nuns sí os a lama era quase sólida, noutros quase líquida. Na algara Lunière gastaria qualquer homem um dia a desaparecer, ao passo que teria sido devorado em cinco minutos pelo atoleiro Phelippeaux. A lama é mais ou menos consistente, segundo a sua maior ou menor densidade. Salva-se Uma criança onde se perde um homem. A primeira coisa essencial para qualquer se salvar é despojar-se de tudo quanto seja objecto de peso. A primeira coisa que um limpador punha em prá ca, apenas sen a fugir-lhe o solo debaixo dos pés, era a rar fora o saco da ferramenta, o cesto ou o caixão.