Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 153 de 359

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Os Miseráveis

XI — Escarnecer, reinar

A barreira do Combate não é um Coliseu, mas sente-se a gente feroz nela como se César ali es vesse. A estalajadeira síria tem mais graça que a a Saguet, mas se Virgílio frequentava a taberna romana, David de Angers, Balzac e Charlet muitas vezes se têm sentado às mesas da tasca parisiense. Paris reina. Fulguram nele os génios, prosperam as caudas vermelhas. Adonai passa pelo meio dele no seu carro de doze rodas de trovões e de relâmpagos; Sileno faz ali a sua entrada, montado no seu jumento. Por Sileno deve entender-se Ramponneau.

Paris é sinónimo de Cosmos. É Atenas, Roma, Sybaris, Jerusalém, Pan n. Estão nele resumidas, todas as civilizações e todas as barbárias. Paris agastar-se-ia, se não possuísse

uma guilhotina.

Não é mau um bocado de praça de Greve. Que seria toda essa eterna festa sem este condimento? As nossas leis sabiamente atenderam a isto, e graças a elas, goteja aquele cutelo sobre este contínuo carnaval.

XI — Escarnecer, reinar

Paris não tem limites. Nunca nenhuma outra cidade possuiu este domínio, que às vezes escarnece dos que subjuga. «Para vos agradar, ó Afenienses!» exclamava Alexandre.

Paris dá mais do que leis, dá a moda. Paris dá mais do que a moda, dá a ro na. Pode ser estúpido, se lhe aprouver, e às vezes assim faz; então o Universo torna-se estúpido como ele; depois acorda, esfrega os olhos e diz: «Que estúpido eu sou!» e desata a rir na cara do género humano.

Que maravilhosa cidade! Como causa estranheza que este grandioso e este burlesco se dêem juntos, que toda esta majestade não seja destruída por esta paródia, e que a mesma boca sopre hoje na trombeta do juízo final e amanhã na gaita de palha!

Paris possui uma jovialidade soberana. A sua alegria é como o raio, a sua força empunha o ceptro. O furacão com que o abala irrompe às vezes duma careta. As suas explosões, as suas batalhas, as suas obras-primas, as suas maravilhas, as suas epopeias chegam ao cabo do universo, do mesmo modo que os seus despropósitos. O seu riso é uma cratera que arroja lava por toda a terra. As suas graçolas são centelhas. Impõe aos povos tanto as suas caricaturas como o seu ideal; os monumentos mais altos da civilização humana sofrem as suas ironias e prestam a sua eternidade às bufonearias dele. É sublime aquela cidade; tem um maravilhoso 14 de Julho, que liberta o globo; faz prestar o juramento da pela a todas as nações; a sua noite de 4 de Agosto dissolve em três horas mil anos de feudalismo; faz da sua lógica o músculo da vontade unânime; mul plica-se sob todas as formas do sublime; inunda com o seu clarão Washington, Kosciusko, Bolivar, Botzaris, Riego, Bem, Manin, Lopez, John Brown, Garibaldi; está em toda a parte onde arde a labareda do futuro; em Boston em 1779, na ilha de Leão em 1820, em Pesth em 1848, em Palermo em 1860; segreda a poderosa senha «Liberdade»

ao ouvido dos abolicionistas americanos, reunidos na barca de Harper’s Ferry, e ao dos patriotas de Ancona, reunidos à noite em Archi, defronte da estalagem de Gozzi, à beira-mar; cria Canáris, Quiroga Pisacano; derrama pela terra o sublime; impelido pelo seu sopro, morreu Byron em Missolonghi e Mazet em Barcelona; é tribuno aos pés de Mirabeau e cratera aos pés de Robespierre; os livros dele, o seu teatro, a sua arte, ciência, literatura e filosofia, são os manuais do género humano; possui Pascal, Regnier, Corneille, Jean Jacques; Voltaire para todos os minutos, Molière para todos os séculos; faz falar a sua língua à boca universal e essa língua torna-se verbo; acende em todos os espíritos a ideia do progresso; os dogmas libertadores que se produzem no seu seio, tornam-se constante defesa das gerações, e é com a alma dos seus pensadores e poetas que desde 1789 se têm formado todos os heróis de todos os povos; não obstante isso, não deixa de garotar, e esse génio extraordinário chamado Paris, ao mesmo tempo que transfigura o mundo com a sua luz, pinta com carvão o nariz de Bouginier na parede do