Os Miseráveis
XII — O futuro latente no povo
templo de Theseu e escreve nas pirâmides — Credevitle Ladrão. Paris tem sempre os dentes à mostra; quando não está agastado, ri.
Eis o que é Paris. As nuvens de fumo que saem dos seus telhados são as ideias do Universo. Montão de barro e pedra, se assim o querem, mas, apesar de tudo, ente moral. É mais do que grande, é imenso. Porquê? Porque tem ousadia.
Ousadia: sem ela não há progresso.
Todas as conquistas sublimes são mais ou menos o prémio da ousadia. Para que a revolução se consumasse, não bastou que Montesquieu a pressen sse, que a pregasse Diderot, que a anunciasse Beaumarchais, que a calculasse Condorcet, que a preparasse Arouet, que a premeditasse Rousseau, foi necessário que Danton ousasse meter-lhe ombros.
O grito — Audácia! — é um Fiat Lux. É preciso, para que o género humano caminhe para diante, que lhe venham sempre de cima sublimes lições de valor. As temeridades arrebatam a história e são uma das grandes luzes do homem. A aurora tem ousadia quando desponta. Tentar, arrostar, persis r, perseverar, ser fiel a si próprio, arcar com o des no, maravilhar a catástrofe, mostrando-lhe o pouco susto que nos causa, ora afrontar a injus ça do poder, ora insultar a ebriedade da vitória, eis o exemplo de que necessitam os povos e a luz que os electriza. O mesmo clarão formidável sai do facho de Prometeu e do cachimbo de Cambronne.