Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 151 de 359

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Os Miseráveis

IX — A velha alma da Gália

Ei-lo: Ohé Titi, ohéée! pica a amarra, desatraca, que anda mouro na costa, desatraca, faz piranço.

Às vezes sabe ler este mosquito, como ele a si próprio se denomina, às vezes sabe escrever; mas o que ele sabe sempre é pintar monos nas paredes. Não hesita em aprender, por não sabermos que misterioso ensino mútuo, todas as habilidades que à república possam ser úteis: desde 1815 até 1830, imitava o gargarejar do peru; desde

1830 até 1848, rabiscava peras pelas paredes. Numa tarde de es o, recolhendo-se Luís Filipe a pé, viu um gaiato, que de pequeno que era suava e punha-se em bicos de pés para desenhar a carvão uma gigantesca pêra num dos pilares da grade de Neuilly; o rei com o pachorrento humor que herdara de Henrique IV, ajudou o gaiato, e acabada a pêra deu-lhe um luís, dizendo: «Isso também tem uma pêra!»

O gaiato gosta das rusgas, agrada-lhe certo estado violento. Os «abades» é que ele não pode ver. Um dia, estando um destes girigotes pequenos na rua da Universidade a pintar um nariz de vara e meia no portão da casa número 69, um indivíduo que ia a passar perguntou-lhe:

— Para que estás aí a fazer isso?

— É porque mora aqui um abade — respondeu o gaiato.

Era aquela, efectivamente, a casa em que morava o núncio do Papa.

Entretanto, por mais intenso que seja o voltaireanismo do gaiato, se se lhe oferece ensejo de ser menino do coro, abraça o mister e ajuda à missa com toda a compostura e gravidade. Existem duas coisas que são para ele o suplício de Tântalo, porque as vê em espírito sem nunca chegar a elas na realidade: derribar o governo e compor as calças.

O gaiato no seu estado perfeito conhece todos, os polícias de Paris, o seu número certo e os seus nomes, de modo que se não vê embaraçado para, quando encontra algum, o designar pelo que lhe pertence. Além disto, estuda-lhes os costumes e possui notas especiais a respeito de cada um deles. Lê-lhes na alma como nas folhas de um livro aberto. Dir-vos-á correntemente e sem balbuciar: fulano é traiçoeiro; sicrano é mau como as cobras; beltrano é um grande homem ou uma criatura ridícula, etc. (estes termos de traidor, mau, grande, ridículo, têm todos na boca deles uma acepção par cular). «Este pensa que traz o rei na barriga; cuida que a gente lhe come alguma coisa em andar a passear por cima das guardas da Ponte Nova; aquele tem a mania de puxar as orelhas a uma pessoa, etc., etc.».

IX — A velha alma da Gália

Tudo o que até aqui temos dito do gaiato possuiu-o em mais ou menos subido grau Poquelin, que nos seus primeiros anos vagueara pelas praças, e possuiu-o Beaumarchais.

A gaia ce parisiense é uma cor do espírito gaulês. Combinada com o bom-senso, aumenta-lhe a força, como ao vinho faz o álcool. Outras vezes, porém, é defeito. Homero repisa; de acordo; mas de Voltaire pode-se dizer que parece gaiato.

Camilo Desmoulins era natural dos arrabaldes. Championnet, que tão rispidamente flagelava os milagres, saiu das ruas de Paris; em pequeno inundou os pór cos de S. Jean de Beauvais e Santo Estêvão do Monte; não era, pois, de admirar que ele, que tantas vezes tratara por tu o relicário de Santa Genoveva, desse ordens à urna de S. Januário.

O gaiato de Paris é respeitoso, irónico e insolente. Os seus dentes são feios, porque se nutre com maus alimentos e padece do estômago, mas em compensação tem olhos belos, porque tem espírito. Na presença de Jeová, subirá num pé os degraus da escada do Paraíso. Como andarilheiro ninguém o excede, brinca nos cais e toma vulto com as rusgas; a metralha não lhe faz perder o desassombro; de gatuno passa a herói, e, como o jovem tebano, sacode a pele do leão; o tambor Barraque era um gaiato de Paris; grita: