Os Miseráveis
V — Como Monsenhor Bemvindo poupava as suas batinas
como um ponto de interrogação. O cadafalso é uma visão, não é um madeiramento, uma máquina, um mecanismo inerte feito de pau, ferro e cordas. É uma espécie de ente dotado de não sei que sinistra inicia va. Dir-se-ia que essa mola de madeira vê, que essa máquina ouve, que esse mecanismo compreende, que esse ferro e essas cordas têm uma vontade. A vista de um cadafalso faz embrenhar o espírito em sombrias cogitações, do meio das quais surge terrível e como que circundado dos espectros das suas vi mas. O
cadafalso é o cúmplice do carrasco, nutre-se de carne e sangue humano. É uma espécie de monstro fabricado pelo juiz e pelo carpinteiro, um espectro que parece viver a horrorosa existência composta de todas as mortes que tem dado.
A impressão que semelhante vista causou no espírito do bispo foi tão profunda e horrível, que no dia seguinte e ainda daí por muitos dias, o bondoso prelado parecia visivelmente oprimido. A serenidade quase violenta do momento fúnebre havia desaparecido para dar lugar ao fantasma da jus ça social que o perseguia e obcecava.
Ele, que habitualmente voltava de todos os actos que ia desempenhar com tão radiante sa sfação, agora quase parecia exprobar-se do que nha feito. Às vezes punha-se a falar sozinho, balbuciando lúgubres monólogos. Eis um que a irmã, uma noite, ouviu e conservou de memória:
«Nunca supus que fosse uma coisa tão monstruosa! É um erro deixarmo-nos absorver pela lei divina, a ponto de olvidar inteiramente a lei humana. Matar só a Deus pertence!
Com que direito tocam os homens nessa entidade desconhecida?»
Com o decorrer do tempo, estas impressões foram-se atenuando, até talvez se extinguirem. Todavia, houve quem notasse que o bispo, desde então, evitava passar pela praça onde nham lugar as execuções. Podiam chamar o prelado a qualquer hora para ir confessar um enfermo ou assis r a um moribundo, que ele não ignorava ser este o seu dever mais sagrado, a sua missão mais sublime. As viúvas e os órfãos não precisavam de o chamar, porque ele lhes acudia voluntariamente. Sabia estar sentado durante horas inteiras a escutar silencioso e a animar com palavras de conforto o homem que perdera a mulher amada, ou a mãe que perdera o filho querido. Admirável consolador! Os seus esforços não tendiam a fazer ex nguir a dor pelo esquecimento, mas a engrandecê-la pela esperança!
— Atentai bem no modo como contemplais os mortos — dizia ele. — Não ocupeis o vosso pensamento com o que apodrece. Olhai fixamente e vereis no fundo do céu a chama viva do ente morto a quem amáveis.
Ele sabia que a crença era santa e por isso aconselhava e serenava o homem desesperado, apontando-lhe o homem resignado, e transformava a dor imóvel diante de uma sepultura, indicando-lhe a dor que fita os olhos no cintilar de uma estrela.
V — Como Monsenhor Bemvindo poupava as suas batinas
A vida ín ma de Carlos Myriel assemelhava-se inteiramente à sua vida pública. Se fora dado a alguém observá-la de perto, ficaria impressionado com o grave e ao mesmo tempo gracioso espectáculo da pobreza voluntária em que vivia o bispo de Digne.
Como todos os velhos e como a maior parte dos pensadores, dormia pouco, mas profundamente. Pela manhã, após uma hora de recolhimento, dizia a sua missa na catedral ou no seu oratório par cular e, assim que terminava esta tarefa diária, ia almoçar. O seu almoço consis a em algumas sopas de pão de centeio com leite, extraído de duas vacas que tinha em casa. Em seguida, dava princípio aos seus trabalhos.
Um bispo é um homem ocupadíssimo; tem de dar todos os dias audiências ao secretário da câmara eclesiás ca, que habitualmente é um cónego, e a quase todos os seus vigários gerais. Além disto, tem de visitar congregações, conceder licenças, examinar uma completa livraria espiritual como catecismos, livros de horas, etc., escrever pastorais, compor as desavenças entre os párocos e as autoridades, dar expediente à correspondência eclesiás ca e à civil, atender de um lado o estado, de outro a igreja; finalmente, mil coisas que lhe reclamam a atenção.
O tempo que lhe sobrava do breviário e do cumprimento de todos os seus encargos e obrigações, dedicava-o em primeiro lugar com os necessitados, com os enfermos e aflitos; e o que de tudo isto ainda lhe sobrava, aplicava-o ao trabalho, ora cavando a terra da sua horta, ora a ler, ou a escrever. A estas duas espécies de trabalho, designava-as com o mesmo nome: jardinar.
— O espírito é um jardim — costumava ele dizer.
Ao meio-dia, quando o dia estava ameno, saía e dava um passeio pela cidade ou pelos arrabaldes, visitando muitas vezes as casas dos pobres que deparava no caminho. Nada mais fácil do que encontrá-lo sozinho, absorto nas suas cogitações, de olhos fitos no chão, encostado à sua comprida bengala, agasalhado na sua acolchoada capa roxa, meias da mesma cor, grandes sapatos e o seu chapéu de três bicos com uma grande borla de oiro em cada um. Onde quer que aparecesse, todos o festejavam. Dir-se-ia que a sua presença aquecia e iluminava. Por onde ele passava, velhos e crianças assomavam às portas, com o mesmo alvoroço com que sairiam a aquecer-se aos raios do sol. Ele abençoava o povo, o povo abençoava-o a ele, apontando a residência episcopal como o lugar em que todo o infortúnio acharia alivio e toda a necessidade socorro. Parava acada momento, gracejando com os rapazes e raparigas, sorrindo benevolamente para as mães e dando conselhos a todos. Enquanto nha dinheiro, visitava os pobres; acabado ele, visitava os ricos.