Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 14 de 359

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Os Miseráveis

XIV — O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo

«Ocupavam» é o termo próprio, porque, efec vamente, cada dia de existência do bispo não tinha um momento vago de bons pensamentos, de boas palavras e de boas obras.

Deixava, porém, de ser completo, se a chuva ou o frio o impedia de ir passear ao jardim uma ou duas horas antes de se deitar, depois de as duas mulheres se terem acomodado. Parecia ser para ele uma espécie de rito o preparar-se para o sono da meditação, na presença do grandioso espectáculo da noite. Às vezes, a hora bastante adiantada da noite, as duas mulheres, se acaso estavam acordadas, ouviam ainda o ruído dos seus vagarosos passos no jardim. Ali permanecia a sós consigo, em plácido recolhimento e adoração, comparando a serenidade do seu coração com a do éter, impressionado no meio das trevas pelos esplendores visíveis das constelações e pelos invisíveis esplendores de Deus, abrindo a alma aos pensamentos que descem do infinito.

Em tais momentos, oferecendo o coração à hora em que as flores nocturnas oferecem o seu perfume, aceso como uma lâmpada no meio da noite estrelada, enlevado no meio do cin lar universal da criação, nem ele mesmo saberia dizer o que se passava no seu espírito; sen a evaporar-se dele e descer sobre ele o que quer que fosse. Misteriosas permutações entre os abismos da alma e os abismos do universo!

Meditava sobre a grandeza e presença de Deus; sobre a eternidade futura: mistério extraordinário; sobre a eternidade passada: mistério mais extraordinário ainda; em todos os infinitos que se lhe apresentavam ao espírito e que ele contemplava, sem pretender compreender o incompreensível. Não estudava Deus, admirava-o. Reflec a sobre esses magníficos encontros de átomos que produzem o aspecto da matéria, revelam as forças provando-as, criam as individualidades na unidade, as proporções na extensão, o inumerável no infinito; que, por meio da luz, produzem a beleza, e de cujo acabamento e constante renovação resulta a vida e a morte. Sentava-se num banco de madeira, encostado a uma latada decrépita, e daí contemplava os outros através das sombras acanhadas e raquí cas das suas árvores de fruto. Aquele palmo de terra tão pobremente plantado, era-lhe caro e suficiente. Que mais necessitava o pobre velho, que dividia os ócios da sua existência, que tão curtos eram, entre a jardinagem de dia e a contemplação de noite? Aquele estreito recinto, com o céu por tecto, não lhe era bastante para poder adorar a Deus simultaneamente nas suas obras mais amenas e nas suas obras mais sublimes? Não era isto mais que suficiente? Um pequeno jardim para passear e a imensidade para meditar.

Que mais podia ele querer? A seus pés, o que podia ser cul vado e dar fruto; por cima da cabeça, o que se podia estudar, o que era assunto de profunda meditação; algumas flores na terra e todas as estrelas do céu.

XIV — O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo

Mais uma palavra.

Como os pormenores desta natureza, especialmente na época actual, poderiam, para nos servirmos duma expressão actualmente em voga, dar ao bispo de Digne certa fisionomia «panteísta» e fazer acreditar, em seu desabono ou em seu elogio, que ele possuía alguma dessas filosofias pessoais, peculiares ao nosso século, que às vezes germinam nos espíritos solitários e vão gradualmente tomando vulto até fazer desaparecer as crenças religiosas, repe mos que ninguém, de entre as pessoas que conheceram Monsenhor Bemvindo, se julgou nunca autorizado a crer semelhante coisa.

O que iluminava aquele homem era o coração. A sua sabedoria dava-lhe a luz que dele nasce.

Poucos sistemas e muitas obras. Não há indício de que ele aventurasse o espírito na averiguação de apocalipses. O apóstolo pode ser ousado, mas o bispo deve ser mido. É natural que vesse escrúpulo de sondar muito profundamente certos problemas, de algum modo reservados aos grandes e terríveis espíritos. Os pór cos do enigma inspiram terror religioso. Vemos aquelas sombrias portas abertas de par em par, porém, uma voz desconhecida nos diz, a nós, caminheiros desta vida, que não entremos. Desgraçado de quem lá entrar!

Os génios, nas profundezas incomensuráveis da abstracção e da especulação pura, situados, por assim dizer, acima dos dogmas, expõem as suas ideias a Deus. O seu orar é uma audaciosa proposta de discussão. A sua oração interroga. Eis o que é a religião directa, cheia de ansiedade e responsabilidade para quem se aventura às suas escabrosidades.

A meditação humana não tem limites. Por sua conta e risco analisa e esquadrinha o seu próprio deslumbramento. Quase poderíamos dizer que, por uma espécie de fulgurante reacção, ela deslumbra também a natureza; o misterioso mundo que nos cerca, res tui o que recebe; é provável que os contempladores sejam contemplados. Seja como for, na terra há homens serão homens? que no fundo dos horizontes da meditação descobrem distintamente as alturas do absoluto e avistam a terrível montanha infinita.

Monsenhor Bemvindo não pertencia ao número desses homens; não era um génio.

Para ele, seriam objecto de temor essas sublimidades, do cimo das quais alguns, como Swedenborg e Pascal, resvalaram na demência. Não há dúvida que essas loucuras têm sua u lidade moral e que por esses árduos caminhos é que o homem se aproxima da perfeição ideal, porém, o bispo seguia o caminho mais curto, o do Evangelho.

Ninguém dirá que ele tentava dar à sua murça as dobras do manto de Elias, que projectava algum raio do futuro sobre o tenebroso redemoinho dos acontecimentos ou que procurava transformar em chama o clarão das coisas; nada nha de profeta nem de mago. Era uma alma amante, e nada mais.

É provável que dilatasse a oração até à aspiração sobrenatural, mas tão-pouco pode haver excesso em orar como em amar; e, se fosse heresia rezar sem ser pelos textos, hereges seriam Santa Teresa e S. Jerónimo.

Não recusava o seu auxílio nem aos que gemem nem aos que expiam. O Universo apresentava-se-lhe como que imensa enfermidade; por toda a parte sen a febre, por toda a parte auscultava sofrimento, e, sem pretender decifrar o enigma, diligenciava curar a ferida. O grandioso espectáculo das coisas criadas tornava-lhe mais intensamente compassiva a índole benfazeja. A sua constante ocupação era procurar para si próprio e inspirar aos outros o melhor modo de consolar e suavizar infortúnios alheios. Para o virtuoso sacerdote, era quanto existe um mo vo permanente de tristeza, mas tristeza que se desvelava em consolações para com todos os infelizes.

Há homens que se ocupam na extracção do oiro; ele ocupava-se em extrair piedade.

As suas minas eram a miséria universal, e o sofrimento tornava-se uma ocasião para ele mostrar sempre a sua natural bondade. Amai-vos uns aos outros eis toda a sua doutrina que ele plenamente executava e que fora seu mais ardente desejo ver geralmente posta em prática.

Um dia, o homem que se julgava «filósofo», o tal senador que já conhecemos, disselhe:

— Ora veja o espectáculo que o mundo apresenta: a guerra de todos contra todos; o mais forte é o que tem razão. O tal amai-vos uns aos outros é um absurdo!

— Pois seja — respondeu o bispo, sem discu r — mas, nesse caso, a alma deve encerrar-se nela como a pérola dentro da concha!

E ele assim fazia. Vivia sa sfeito, plenamente sa sfeito com isso, sem se intrometer nessas maravilhosas questões que atraem e amedrontam, nas perspec vas insondáveis da abstracção, nos princípios da meta sica, em nenhuma dessas profundezas convergentes, aos olhos do apóstolo, para Deus, aos olhos do ateu para o nada; o destino, o bem e o mal, a guerra da criatura contra a criatura, a consciência do homem, o