Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 34 de 359

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Os Miseráveis

VII — Prudência de Tholomyés

Escrita esta nota à margem do relatório de Anglès, voltemos aos nossos quatro pares, que acabavam de jantar.

VI — Capítulo consagrado ao amor

Conversas de mesa, conversas de amor, são tão impalpáveis umas como outras; as conversas de amor são nuvens, as conversas de mesa são fumo.

Fameuil e Dália cantarolavam; Tholomyés bebia, Zefina ria, Fan ne sorria. Listolier soprava numa gai nha de madeira comprada em Saint-Cloud. Favorita fitava Blachevelle com ternura e dizia-lhe:

— Adoro-te, Blachevelle!

Isto deu lugar a uma pergunta feita por Blachevelle:

— Que farias tu, Favorita, se eu deixasse de te amar?

— O que fazia? — exclamou Favorita. — Não digas isso nem a brincar! Se deixasses de amar-me, a rava-me a , arranhava-te, esmurrava-te, deitava-te água e mandava-te prender!

Blachevelle sorriu com a voluptuosa fatuidade de quem se vê acariciado no seu amor próprio e Favorita prosseguiu:

— É o que te digo, chamava pela guarda para te prender! Ora experimenta!

Blachevelle, extasiado, recostou-se no espaldar da cadeira e fechou os olhos.

Dália, sem deixar de comer, disse em voz baixa a Favorita, no meio da confusão geral:

— Pelo que vejo, idolatras o teu Blachevelle?

— Detesto-o! — respondeu Favorita no mesmo tom e tornando a pegar no garfo. — É

um avarento! De quem eu gosto é de um rapaz que mora defronte de mim. Aquilo é que é um rapaz a quem dá gosto amar! Conhece-lo? Parece-me que é actor. Eu gosto dos actores Apenas ele entra em casa, a mãe diz logo: «Ah, meu Deus! Estava tudo tão sossegado e aí vai ele pôr-se a quebrar a cabeça da gente com as suas cantorias!»

Porque, apenas ele põe o pé em casa, vai para as águas-furtadas, para o telhado, para o lugar mais alto que pode e principia a cantar, a declamar, nem eu te sei dizer o que é, a ponto de se ouvir cá de baixo. Já ganha vinte soldos por dia, em casa de um tabelião, a rabiscar sentenças. É filho de um ex-cantor de S. Jacques do Haut-Pas. Oh, é um rapaz muito interessante! Gosta tanto de mim, que, um dia, vendo-me estar a fazer massa para as filhós, disse-me: «Ó menina, faça sonhos das suas luvas e verá como eu as como». Só os ar stas é que sabem dizer destas coisas Estou quase enfei çada por ele!

Mas isso não quer dizer nada, porque vou dizendo a Blachevelle que o adoro Que tal, sei ou não mentir?

Após uma pausa, Favorita prosseguiu:

— Mas olha, Dália, estou triste! Todo o Verão tem chovido, o vento não abranda, Blachevelle é um sovina, na praça só se encontram ervilhas, a gente não sabe o que há-de comer, tenho spleen, como dizem os ingleses, a manteiga está caríssima! E, por fim, ainda isto: estar a jantar numa sala que tem uma cama, vê lá tu se não tenho razão de estar desgostosa da vida!

VII — Prudência de Tholomyés

Ao mesmo tempo que uns cantavam, outros falavam tumultuosamente, era uma verdadeira confusão. Por fim, Tholomyés interveio:

— Não falemos ao acaso nem precipitadamente. Se queremos ser deslumbrantes, meditemos. O muito improvisar cansa e embrutece o espírito. Senhores, nada de pressas. Aliemos a majestade ao regabofe, comamos com comedimento, prolonguemos o banquete, não nos apressemos. Vejam a Primavera; se se adianta demais, cresta-se, isto é, gela-se. O excesso de zelo perdeos pessegueiros e abrunheiros, anula a graça e o prazer dos bons jantares. Nada de zelo, senhores! Grimold de Ia Reynière é da opinião de Talleyrand.

No grupo manifestou-se surda rebelião.

— Tholomyés, deixa-nos tranquilos! — disse Blachevelle.

— Abaixo o tirano! —exclamou Fameuil.

— Bombarda, Bombance e Bamboche! — gritou Listolier.

— Tholomyés, contempla «o meu sossego» (mon calme) — atalhou Blachevelle.

— Mas tu éso marquês deste título — respondeu Tholomyés.

Este insignificante jogo de palavras fez o efeito de uma pedra a rada a um charco: todas as rãs se calaram. O marquês de Montcalm era então um realista célebre.

— Amigos — exclamou Tholomyés, no tom de quem reassumiu a perdida autoridade

— tranquilizem-se! Não recebam com tamanha admiração um calemburgo caído das nuvens. Nem tudo o que aparece de semelhante modo é verdadeiramente digno de

entusiasmo e respeito. O calemburgo é aimundície do espírito que voa. O epigrama cai seja onde for e o espírito, depois de uma tolice, vola liza-se. A nódoa esbranquiçada que se alastra num rochedo não impede o condor de pairar. Longe de mim insultar o calemburgo! Honro-o unicamente na proporção do seu mérito. Quanto tem havido de mais augusto, sublime e gracioso, tudo tem feito trocadilhos de palavras. Jesus Cristo fez um calemburgo a respeito de S. Pedro; Moisés, a respeito de Isaac; Ésquilo, a respeito de Polynice; Cleópatra, a respeito de Octávio. E notem que o calemburgo de Cleópatra precedeu a batalha de Accio e que, a não ser ele, ninguém hoje se lembraria da cidade de Torino, nome grego que quer dizer colher de caldo. Posto isto, volto à minha exortação. Repito, meus irmãos, nada de zelo, nada de excessos, nem gracejos, nem trocadilhos de palavras. Prestem-me atenção, porque eu possuo a prudência de Anfiarao e a calvície de César. É necessário um limite, mesmo nos enigmas. Est modus in rebus.

Repito, tudo tem um termo, até os bons jantares. As meninas gostam de pastéis de fruta, mas não abusem. Até para comer é preciso arte e bom senso. A gulodice cas ga o glutão. Gula punit Gulax. As indigestões são encarregadas por Deus de moralizar os estômagos. E, tomem sen do, cada uma das nossas paixões, mesmo o amor, tem um estômago, que não devemos encher de mais. Em todas as coisas é preciso escrever a tempo a palavra finis; quando isso se torna urgente é forçoso que cada um se contenha, que corramos os ferrolhos sobre o nosso ape te, que encarceremos a fantasia e que se prenda a si mesmo. O mais prudente é aquele que sabe num dado momento efectuar a sua própria prisão. Tenham confiança em mim. Eu conheço um poucochinho de Direito, segundo dizem as minhas cer dões, porque sei a diferença que existe entre questão movida e questão pendente, porque sustentei uma tese em la m sobre o modo como eram torturados os delinquentes em Roma no tempo em que Munacio Demens era questor do Parricídio, porque estou em vésperas de ser doutor, não se segue necessariamente, no meu entender, que eu seja um parvo. Recomendo-lhes moderação nos seus ape tes e, tão certo como eu chamar-me Félix Tholomyés, digo uma coisa acertada. Feliz aquele que, chegada a hora, toma uma resolução heróica, abdicando como Sylla ou Orígenes.

Favorita escutava com profunda atenção.

— Félix — disse ela — é um nome muito bonito! Em latim quer dizer Próspero.

Tholomyés prosseguiu:

— Quirites, gentlemen, caballeros, amigos! Querem deixar de ser aguilhoados pelos desejos, passar sem leito nupcial e zombar do amor? Nada mais simples. Eis a receita: limonada, exercício violento, trabalho forçado, pegar em grandes pesos, levantar pedras, não dormir, velar; tomar beberagens nitrosas e sanas nínfeas, saborear emulsões de papoilas e de agnus-castus, acompanhar isto com dieta rigorosa, até estalar de fome e juntar-lhe banhos frios, cintos de ervas, aplicação de uma chapa de chumbo, lavagens com licor de Saturno e fermentações de oxicrato.

— Gosto mais duma mulher! — disse Listolier.

— A mulher! — con nuou Tholomyés. — Desconfiem delas! Desventurado do que se entrega ao volúvel coração de uma mulher. A mulher é pérfida e tortuosa. Detesta a

serpente por rivalidade de ofício. A serpente é a loja fronteira!

— Estás bêbedo, Tholomyés? — gritou Blachevelle.

— Eu, bêbedo? — retorquiu Tholomyés.

— Então estás alegre! — tornou Blachevelle.

— Concedo! — respondeu Tholomyés. E, levantando-se de copo cheio em punho, exclamou: — Glória ao vinho! Nunc te, Bacche, canam! Desculpem, meninas, isto é espanhol. E a prova, senhoritas, ei-la: tal povo, tal vasilha. A arroba de Castela contém dezasseis litros, o cântaro de Alicante doze, o almude das Canárias vinte e cinco, o quar n das Baleares vinte e seis, a bota do czar Pedro trinta. Viva o czar, que era grande, e viva a sua bota, que ainda era maior! Minhas senhoras, um conselho de amigo: se lhes não desagrada, façam que se enganam e mudem de parceiro. O erro é próprio do amor.

A namorada deve servir para mais alguma coisa do que para estar acocorada e embrutecer-se como criada inglesa que tem calos nos joelhos. O doce namoro deve ser alegremente errante! Dizem que o erro é próprio do homem, eu digo que errar é próprio dos amantes. Minhas senhoras, adoro-as a todas! Ó Zefina, ó Josefina, cara mais que amarrotada, serias encantadora se não andasses de esguelha! A tua cara parece um formoso rosto em cima do qual alguém se sentou por engano! Quanto a Favorita, ó ninfas e musas! Um dia que Blachevelle ia a saltar a enxurrada da rua de Guérin Boisseau, viu uma bonita rapariga de meias brancas muito justas, que deixava ver as pernas. Agradou-lhe este prólogo e eis Blachevelle namorado. A escolhida do seu coração era Favorita. Ó Favorita, tens uns lábios jónios! Havia um pintor grego chamado Euforion, a quem puseram o nome de pintor de lábios. Só esse grego seria capazde pintar a tua boca! Antes de , não exis a criatura digna deste nome. Tu nasceste para aceitar o pomo como Vénus ou para o comer como Eva. A beleza teve princípio em !

Falei agora em Eva: foste tu que a criaste. Mereces privilégio de invenção das formosas!

Favorita, deixo de tratar-te por tu, porque passo da poesia para a prosa. Há um bocado, falava do meu nome. Enterneceu-me isso; porém, a todos digo, sejam quem forem, que se não deixem levar dos nomes, porque podem achar-se enganados. Eu chamo-me Félix e não sou feliz. As palavras são men rosas. Não aceitemos cegamente as indicações que elas nos dão. Seria um erro escrever

para Liége2, pedindo rolhas, ou para Pau3

mandando vir luvas. Miss Dália, no seu lugar, tomava o nome de Rosa. A flor deve cheirar bem e a mulher ser espirituosa. Em Fan ne não falarei; é uma abstracta, uma sonhadora, uma melancólica, uma pensa va, uma sensi va; é um fantasma com forma de ninfa e pudor de freira, que vive extraviada da vida de costureira, que se refugia nas ilusões, que canta e reza e fita a vista no céu sem bem saber o que vê nem o que faz, e que, de olhos fitos no ar, vagueia por um jardim onde há todos os pássaros que não existem. Ó Fan ne, deves saber uma coisa: eu, Tholomyés, sou uma ilusão; mas querem ver que ela nem me escuta, a loira filha das quimeras? Não obstante, tudo nela é frescura, suavidade, juventude, fagueira claridade matu na. Ó Fan ne, rapariga digna de ser Margarita ou Pérola, és a mulher mais belamente oriental que eu conheço! Outro conselho, minhas senhoras: não casem. O casamento é um enxerto, que ora pega, ora não; evitem semelhante risco... Mas para que estou aqui a perder tempo com as minhas

pregações? As raparigas são incuráveis no assunto casamento; tudo o que nós dissermos, nós, os prudentes, não impedirá que essas costureiras e debruadeiras de bo nhas, deixem de sonhar com maridos cobertos de diamantes! Enfim, seja assim; mas reparem bem, minhas belas, comem demasiado açúcar. Reparem no que lhes vou dizer: as mulheres não têm senão um defeito, é a gulodice. Ó amável sexo roedor, os vossos den nhos alvos morrem de amor pelo açúcar! O açúcar é um sal. Todo o sal é dissecante. O açúcar é o mais dissecante de todos os sais. Suga os líquidos do sangue através das veias; daqui a coagulação, em seguida a solidificação do sangue; daqui os tubérculos do pulmão; depois a morte. É por isso que a diabetes confina com a sica.

Portanto, não comam açúcar e viverão! Volto-me agora para os homens. Senhores, façam conquistas! Roubem as amantes uns aos outros sem remorsos! Revezem-se. Em amor não há amigos! Onde houver uma mulher bonita estão abertas as hos lidades! Nada de quartel, guerra e mais guerra! Uma mulher bonita é um casus belli, é um flagrante delito.

Todas as invasões de que reza e história foram causadas por saias. Rómulo roubou as Sabinas, Guilherme as Saxónias, César as Romanas. O homem que não é amado paira como abutre sobre as amantes dos outros. Da minha parte, a esses infelizes que se vêem viúvos, lanço a sublime proclamação de Bonaparte ao exército da Itália: «Soldados, falta-vos tudo, mas o inimigo está bem provido».

Tholomyés interrompeu-se:

— Toma fôlego, Tholomyés! — disse Blachevelle.

E, dizendo isto, Blachevelle, acompanhado por Listolier e Fameuil, em tom de queixume entoou uma dessas canções de oficina, compostas das primeiras palavras que ocorrem, rimadas a torto e a direito e vazias de sen do como o vergar de uma árvore e o sussurro do vento, nascidas do fumo dos cachimbos e dissipando-se com ele. Eis o que o grupo respondeu à arenga de Tholomyés:

Uns pobres patetas deram

A certo agente dinheiro.

Impondo como condição

Clermont-Tonerre fazer

Papa eleito em S. Jean

Mas ele por não ser padre,

Não pôde a Papa chegar

E o agente com tristeza

Foi o dinheiro entregar.

Pouco próprio era isto para acalmar o improviso de Tholomyés. O rapaz, contudo, esvaziou o copo, tornou a enchê-lo e continuou:

— Abaixo a sabedoria! Façam de conta que não ouviram nada do que eu disse. Não sejamos nem graves, nem prudentes, nem prá cos. Proponho um brinde à alegria, sejamos alegres! Completemos o nosso curso de Direito, comendo e fazendo loucuras.

Indigestão e digesto! Seja Jus niano o varão e Ripaille a fêmea! Haja alegria até às profundidades! O mundo é um grande diamante. Sinto-me feliz. Os pássaros são admiráveis. Que festa por toda a parte! O rouxinol é um Elleviou grá s. Eu te saúdo, ó Verão! ó Luxemburgo, ó geórgicas da rua da Madame e da álea do Observatório! Ó