Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 288 de 359

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Os Miseráveis

I — Indiscrição de um espelho

— É apenas meia-noite: a rua do Homem Armado não é longe, portanto vou levar a carta e ainda volto a tempo.

LIVRO DÉCIMO QUINTO — A RUA DO HOMEM AMADO

I — Indiscrição de um espelho

O que são as comoções duma cidade a par das revoltas da alma? O homem é uma profundidade maior ainda que o povo. Naquele mesmo momento, em que se passava quanto acabamos de ver, estava Jean Valjean preso de medonha agitação interior.

Tinham-se aberto novamente nele todos os abismos. Estremecia também como Paris, no limiar de uma revolução formidável e obscura. Para isto nham bastado apenas algumas horas. O des no e a consciência nham-se-lhe coberto inopinadamente de sombras.

Podia dizer-se a seu respeito, como a respeito de Paris: estão face a face os dois princípios. O anjo cândido e o anjo negro vão lutar corpo a corpo sobre a ponte do abismo.

Qual deles precipitará o outro? Quem vencerá? Na véspera daquele mesmo dia 5 de Junho fora Jean Valjean, acompanhado de Cose e e de Toussaint, estabelecer-se na rua do Homem Armado, onde o esperava uma peripécia.

Cosette não tinha saído da rua Plumet sem intentar resistir. Fora a primeira vez, desde que exis am em companhia um do outro, que a vontade de Cose e e a vontade de Jean Valjean se nham mostrado dis ntas e se haviam senão emba do, pelo menos achado em contradição. Tinha havido objecção de um lado e Inflexibilidade do outro. O

inopinado conselho para que se mudasse, dado por um desconhecido a Jean Valjean, assustara-o a ponto de o tornar despó co. Julgava-se descoberto e perseguido. Cose e tivera de ceder. Tinham chegado ambos à rua do Homem Armado sem abrirem a boca, sem proferirem uma só palavra, absorto cada um na sua preocupação pessoal; Jean Valjean tão inquieto que não reparava na tristeza de Cose e, Cose e tão triste que não via a inquietação de Jean Valjean.

Jean Valjean levara também Toussaint, coisa que nunca fizera nas precedentes ausências. Entrevia que não voltaria talvez à rua Plumet, e por isso não podia deixar ali Toussaint, nem comunicar-lhe o seu segredo. E depois nha-a por dedicada e segura. Da criada para o amo a traição começa pela curiosidade. Ora, Toussaint, como se fora predes nada para criada de Jean Valjean, não era curiosa através do seu gaguejar, e falando como os camponeses de Barneville, dizia:

— Eu cá sou assim. Faço a minha obrigação e não me meto com a vida de ninguém.

Naquela saída da rua Plumet, que fora quase uma fuga, Jean Valjean não levara consigo senão a cheirosa caixinha bap zada por Cose e com o nome de inseparáveis.

Para conduzir malas seriam necessários moços, e os moços são testemunhas. Jean Valjean mandou esperar uma carruagem à porta que deitava para a rua da Babilónia e, chegada a ocasião, meteram-se todos nela e partiram.

Foi com muita dificuldade que Toussaint obteve licença para fazer uma trouxa de alguma roupa, Cose e não levara senão a sua papeleirazinha (espécie de pasta com mata-borrão).

Jean Valjean, para aumentar a solidão e a sombra desta desaparição, preparara tudo de modo que não saísse da rua Plumet senão ao anoitecer, o que dera tempo a Cose e

de escrever o seu bilhete a Mário.

Quando chegaram à rua do Homem Armado, era noite fechada e trataram logo de se deitar, o que fizeram no maior silêncio.

A habitação da rua do Homem Armado era situada num pá o traseiro, num segundo andar, e constava de dois quartos de cama, de uma casa de jantar, que dava para uma cozinha -e de um vão, onde havia uma cama, que foi des nada a Toussaint. A casa de jantar servia ao mesmo tempo de sala e de separação dos dois quartos de cama. Tudo estava convenientemente mobilado. O homem tranquiliza-se quase tão loucamente como se inquieta; é assim a natureza humana. Apenas Jean Valjean se achou na rua do Homem Armado, sen u diminuir a aflição que o oprimia, até que gradualmente se dissipou.

Há locais que são calmantes e que actuam no espírito de certo modo mecânico. Rua obscura, habitantes pacíficos. Jean Valjean sen ndo não sei que contágio de tranquilidade naquele beco do an go Paris, tão estreito, que era vedado aos trens por uma prancha assente transversalmente em dois postes, mudo e surdo no meio da cidade amo nada, crepuscular de dia claro e, para assim dizer, incapaz de comoções entre as suas duas fileiras de altos prédios centenários, sempre calados como verdadeiros velhos.

Há naquela rua um como esquecimento estagnado.

Ali respirou Jean Valjean. Por que meio o descobririam num tal lugar?

O seu primeiro cuidado foi colocar a inseparável junto de si.

Dizem que a noite é boa conselheira, porém, pode-se afirmar que ela não só aconselha, mas tranquiliza. No dia seguinte pela manhã, Jean Valjean ergueu-se quase de aspecto jovial. Achou lindíssima a sala de jantar que não podia ser mais feia, mobilada com uma mesa redonda, velha, um bufete baixo, sobre o qual se via um espelho inclinado, uma poltrona carunchosa e algumas cadeiras, sobre as quais jaziam as trouxas de Toussaint. Por uma abertura destas trouxas entrevia-se o uniforme de guarda nacional de Jean Valjean. Quanto a Cose e, ordenou a Toussaint que lhe levasse um caldo ao quarto e não apareceu senão de tarde.

Por volta das cinco horas, Toussaint, até então atarefada nos arranjos da nova morada, pôs na mesa uma galinha assada, a que Cose e, por deferência para com seu pai, mal deitara os olhos.

Terminada a simples refeição Cose e pretextou uma violenta dor de cabeça e re rouse ao seu quarto, dando as boas noites a seu pai. Jean Valjean comera uma asa de galinha, com muito ape te, e debruçara-se depois sobre a mesa, parecendo quase res tuído à sua primi va serenidade. Durante a sóbria refeição, por duas ou três vezes lhe parecera ouvir a algaraviada da criada, falando-lhe de «barulhos» na cidade, porém absorto numa infinidade de combinações interiores, não fizera reparo no que a velha tinha dito, ou, para melhor dizer, nem a tinha ouvido.

Decorridos assim alguns instantes, levantou-se e principiou a passear da janela para a porta e da porta para a janela, cada vez mais desassombrado.

Com o desassombro voltara-lhe ao pensamento a ideia de Cose e, sua única

preocupação. Não porque lhe desse cuidado aquela dor de cabeça, crise nervosa sem consequência, arrufo de mulher jovem, nuvem de um momento, que dentro de um ou dois dias completamente desapareceria, mas vinha-lhe à lembrança o futuro, e, como de ordinário, a ideia do futuro tornava-se-lhe suave. No fim de tudo, que obstáculo havia para que a vida feliz con nuasse o seu curso? Em certas horas tudo parece impossível, noutras tudo parece fácil; Jean Valjean achava-se numa dessas boas horas. De ordinário sucedem às más, como o dia à noite, em virtude dessa lei de sucessão e de contraste que cons tui o fundo da natureza, e que os espíritos superficiais denominam an tese. Nesta pacífica rua, em que se havia refugiado, Jean Valjean desembaraçava-se de tudo o que há pouco o perturbava. Por isso mesmo que nha visto sempre trevas, é que principiava a entrever um fragmento de céu. Sair da rua Plumet sem complicação nem incidente era já um bom passo dado. Talvez a prudência aconselhasse uma mudança de terra, para Londres, por exemplo, ainda que não fosse senão por alguns meses. E porque não!

Tanto valia estar em França como em Inglaterra, uma vez que vesse Cose e a seu lado.

Cose e era a sua pátria; era-lhe bastante a jovem para que ele se julgasse completamente feliz.

A lembrança de que ele não bastaria a torná-la feliz, lembrança que, noutro tempo, o torturava a ponto de lhe causar febre e rar o sono, essa nem ao espírito se lhe apresentava. Estava no colapso de todas as suas dores passadas em pleno op mismo. O

ver Cose e sempre ao pé de si fazia-lhe parecer que ela lhe pertencia, efeito óp co que toda a gente experimenta.

Deste modo, portanto, planeava a sós consigo, com todas as facilidades imagináveis, a sua par da para Inglaterra em companhia de Cose e, parecendo-lhe, no seu devanear, ver reconstruído o edifício da sua ventura, onde nem ele bem o sabia.

Ao tempo que assim passeava de uma para outra parte, embebido em toda a espécie de pensamentos agradáveis, o seu olhar fixou-se, de repente, num estranho objecto.

Em frente de si, no espelho inclinado sobre o bufete, acabava de avistar as linhas que em seguida reproduzimos:

«Meu querido. Infelizmente, meu pai quer que partamos já. Esta noite estaremos na rua do Homem Armado, número 7, e dentro de oito dias em Londres. Cose e — 4 de Junho».

Jean Valjean parou estupefacto.

Cosette, quando chegara, pusera a pasta sobre o bufete diante do espelho e, entregue à sua dolorosa aflição, esquecera-se de a levar dali, sem ao menos reparar em que a deixara aberta, e aberta precisamente na página sobre a qual nha enxugado as linhas que escrevera e de que encarregara o rapazito que passara pela rua Plumet. A escrita tinha passado toda para o mata-borrão.

O espelho reflectia a escrita.

Resultara o que em geometria se chama imagem, simétrica; de tal modo que a letra, que no mata-borrão se achava inver da, apresentava-se no espelho no seu sen do natural; e Jean Valjean nha diante dos olhos a carta que Cose e escrevera na véspera a Mário.

Era uma coisa simples e fulminante.

Jean Valjean aproximou-se mais do espelho. Releu aquelas linhas, mas não as acreditou. Produziram-lhe um efeito como se lhe aparecessem no clarão de um sonho.

Não passava de uma alucinação. Era impossível. Não podia ser!

A pouco e pouco foi-se-lhe tornando a percepção mais precisa e determinada; olhou para a pasta de Cose e e teve então o sen mento da realidade. Pegou no mata-borrão, onde a inclinação das letras produzia as mais extravagantes garatujas, e não viu nelas sentido algum. Então disse consigo:

— Mas isto não significa nada.

E respirou com toda a força dos pulmões, inexplicavelmente aliviado. Quem há que não tenha experimentado destas alegrias estúpidas em momentos horríveis? A alma não se rende ao desespero senão depois de ter esgotado todas as ilusões.

Conservava o mata-borrão na mão e contemplava-o, estupidamente sa sfeito, e quase disposto a rir-se da alucinação que o lograra. De repente tornou a olhar para o espelho e de novo se lhe deparou a mesma visão. Aquelas linhas desenhavam-se no vidro com inexorável ni dez. Desta vez não era uma miragem, a reincidência de uma visão é realidade, era a escrita posta a direito pelo espelho. Compreendeu tudo.

Jean Valjean cambaleou, deixou cair da mão o mata-borrão e sentou-se na velha poltrona que estava ao lado do bufete, com a cabeça curvada, as pupilas vítreas e desorientadas. Viu então ser evidente que a luz do mundo se eclipsara para sempre e que Cose e escrevera aquilo a alguém. Então ouviu a alma, novamente terrível, soltar nas trevas um rugido surdo. Vede se sois capaz de rar ao leão o cão que ele tem na jaula!

Extravagante e triste coisa: naquele momento ainda Mário não nha recebido a carta de Cose e; o acaso, como traidor, mostrara-a a Jean Valjean antes de a entregar a Mário.

Até àquele dia nunca Jean Valjean fora vencido pela provação. Tinha sido subme do a medonhas experiências; a fortuna não lhe poupara violências; a ferocidade da sorte, armada com todas as vindictas e com todos os desprezos sociais, tomara-o por alvo e encarniçara-se contra ele. Não recusara nem vergara em presença de coisa alguma.

Aceitara, sempre que fora preciso, todas as extremidades; nha sacrificado a sua inviolabilidade de homem reconquistada, entregando a sua liberdade, arriscado a cabeça, perdido e sofrido tudo, e mostrara-se sempre desinteressado e estóico, a ponto tal que, por momentos, o poderiam julgar ausente de si mesmo como um mártir.

A sua consciência, aguerrida em todos os assaltos possíveis da adversidade, podia parecer para sempre inexpugnável. Pois bem, se alguém lhe houvesse penetrado no foro íntimo seria obrigado a registar a sua fraqueza naquele momento.

É que de todos os tratos que sofrera na prolongada tortura que o des no lhe aplicara, aquele era o mais temível. Nunca fora agarrado por semelhante tenaz.

Sen u a agitação misteriosa de todas as sensibilidades; sen u a beliscadura da febre desconhecida. Ah! A provação suprema, digamos melhor a provação única, é a perda do ente amado!

O pobre velho Jean Valjean não amava decerto senão como um pai; mas já o fizemos notar: nesta paternidade nha a própria viuvez da sua vida introduzido todos os amores; amava Cose e como uma filha, amava-a como sua irmã; e, como não vera nunca amante nem esposa, como a natureza é um credor que não aceita protesto algum, também esse sen mento menos fácil de perder do que qualquer outro, se achava aliado aos demais, angélico, divino, menos como um sen mento do que como um ins nto, menos como ins nto do que como uma inclinação, impercep vel e invisível, mas real; e o amor propriamente dito estava na sua ternura enorme por Cose e como o veio de oiro na montanha, tenebrosa e virgem.

Recorde-se esta situação do coração, que já indicámos. Entre eles não é possível consórcio algum; nem mesmo O das almas; todavia é certo que os seus des nos se nham desposado. A excepção de Cose e, isto é, à excepção de uma infância, nunca Jean Valjean, em toda a sua longa vida, conhecera nada do que pode amar-se. As paixões e os amores que se sucedem não nham produzido nele os sucessivos verdes, verde desmaiado e verde sombrio, que se notam nas folhas que passaram o Inverno e nos velhos que passaram os cinquenta anos. Em suma — mais de uma vez temos insistido nesse ponto. Toda aquela efusão interior, todo aquele conjunto, cuja resultante era uma elevada virtude, terminavam por fazer de Jean Valjean um pai Para Cose e. Pai extraordinário, forjado do avô, do filho, do irmão e do marido, que residiam em Jean Valjean; pai em que chegava a haver mãe, pai que amava Cose e, que a adorava, e para quem aquela criança era a luz, a habitação, a família, a pátria, o paraíso.