Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 26 de 359

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Os Miseráveis

XII — O bispo trabalha

Ao cabo de alguns instantes, levantou vagarosamente o braço esquerdo à altura da testa, rou o boné, tornou a deixar cair o braço com a mesma len dão e voltou à sua primi va postura de contemplação, com o boné na mão esquerda, a barra de ferro na direita, os cabelos eriçados, a expressão do rosto selvática.

O bispo continuava a dormir com a maior serenidade sob aquele temeroso olhar.

O reflexo do luar tornava confusamente visível por cima do fogão o vulto do crucifixo, que parecia abrir os braços a ambos, com uma bênção para um e o perdão para o outro.

De repente, Jean Valjean pôs o boné na cabeça, caminhou rapidamente ao longo da cama, sem olhar para o bispo, direito ao armário, que ele entrevia junto à cabeceira.

Feito isto, levantou a barra de ferro como para forçar a fechadura, mas viu nela a chave.

Apenas abriu a por nhola, deparou-se-lhe logo o açafate em que estava a prata; pegou nele, atravessou o quarto a largas passadas, sem a menor precaução, indiferente ao

ruído que poderia produzir, chegou à porta, entrou no oratório, abriu a janela, pegou no cajado, saltou para o jardim, meteu a prata na mochila, a rou para longe de si o açafate, transpôs o muro como o faria um tigre e fugiu.

XII — O bispo trabalha

No dia seguinte, ao nascer do sol, andando Monsenhor Bemvindo a passear no jardim, viu Magloire vir a correr na sua direcção com ar transtornado.

— Monsenhor! Monsenhor! — gritou ela. — Sabe onde está o açafate da prata?

— Sei — respondeu o bispo.

— Ora graças a Deus! — tornou ela. — Já não sabia o que pensar!

O bispo que naquele instante levantava o açafate de um alegrete, apresentou-o à senhora Magloire.

— Está aqui.

— Mas não tem nada dentro. E a prata?

— Ah! — replicou o bispo. — Era a prata que procurava? Não sei onde está.

— Jesus! Roubaram-na! Foi decerto o homem que cá ficou!

Num abrir e fechar de olhos, com a vivacidade própria de velha sagaz e bem conservada, Magloire correu ao oratório, entrou na alcova e voltou logo para junto do bispo. Este agachara-se havia um instante e contemplava com a maior tristeza um pé de cocleária de Guillons que o açafate nha quebrado ao cair no meio do alegrete; ao ouvir, porém, os gritos de Magloire, ergueu-se.

— Ai, Monsenhor! O homem roubou a prata e fugiu! — Ao mesmo tempo que soltava esta exclamação, dirigiu o olhar para o muro, onde se viam os ves gios da escalada. —

Olhe, foi por ali que ele fugiu! Saltou para a travessa de Cachefilet. Que crueldade!

Roubar-nos a prata!

O bispoconservou-se por momentos silencioso; por fim, disse com a maior serenidade, erguendo os olhos para Magloire:

— Aquela prata pertencia-nos porventura?

Magloire ficou sem saber o que havia de responder.

Seguiu-se outra pausa, após a qual o bispo prosseguiu:

— Magloire, há muito tempo que eu era ilícito possuidor daquela prata, que pertencia de direito aos pobres. E quem era aquele homem? Não era, sem a menor dúvida, um pobre?

— Valha-me Nossa Senhora! — replicou Magloire. — Não falo por mim, nem pela senhora Bap s na, a nós não nos faz falta, mas com Monsenhor já não sucede o mesmo. Com que talher há-de comer agora?

O bispo encarou-a com ar de espanto e respondeu:

— Essa agora! Pois não há colheres de estanho?

Magloire encolheu os ombros.

— O estanho tem mau cheiro.

— Nesse caso, há os de ferro.

A criada fez uma careta expressiva, dizendo:

— O ferro tem muito mau sabor.

— Pois então, colheres de pau.

Daí por alguns instantes, o bispo estava a almoçar naquela mesma mesa em que Jean Valjean, no dia antecedente, es vera sentado. No decurso do almoço, Monsenhor Bemvindo notou, gracejando, a sua irmã, que não proferira palavra, e a Magloire, que resmungava surdamente, não ser preciso garfo nem colher, mesmo de pau, para molhar um pedaço de pão numa chávena de leite.

— Nunca se viu uma coisa assim! — dizia Magloire, andando de um para outro lado. —

Recolher um homem daqueles e deitá-lo quase ao pé de si! Ainda devemos dar graças a Deus por só nos ter roubado! Parece-me que ainda sinto um estremecimento quando me lembro de semelhante coisa!

No instante em que obispo e a irmã se levantaram da mesa, bateram à porta.

— Entre — disse o bispo.

A porta abriu-se e um estranho e violento grupo assomou no limiar. Três homens traziam um quarto agarrado no meio deles. Os três eram gendarmes, o quarto era Jean Valjean.

Apenas em presença do bispo, o gendarme que parecia ser o comandante do grupo adiantou-se para ele, fazendo a continência militar e disse:

— Monsenhor...

Ouvindo este tratamento, Jean Valjean, que se mostrava sombrio e aba do, ergueu a cabeça com ar de estupefacção e murmurou:

— Monsenhor?! Pensei que era o cura...

— Silêncio! — ordenou um dos gendarmes. — É o senhor bispo.

Entretanto, Monsenhor Bemvindo aproximara-se dos homens com a presteza que lhe permitia a sua avançada idade e exclamou, com os olhos fitos em Jean Valjean:

— Ah, então voltou?! Es mo muito tornar a vê-lo. Mas agora me lembro: eu também lhe dei os cas çais, que são de prata, como o resto, e que lhe podem render duzentos francos ou mais. Porque não os levou?

Jean Valjean abriu os olhos e encarou o venerável bispo com uma expressão que nenhuma linguagem poderia traduzir.