Os Miseráveis
XII — O bispo trabalha
Ao cabo de alguns instantes, levantou vagarosamente o braço esquerdo à altura da testa, rou o boné, tornou a deixar cair o braço com a mesma len dão e voltou à sua primi va postura de contemplação, com o boné na mão esquerda, a barra de ferro na direita, os cabelos eriçados, a expressão do rosto selvática.
O bispo continuava a dormir com a maior serenidade sob aquele temeroso olhar.
O reflexo do luar tornava confusamente visível por cima do fogão o vulto do crucifixo, que parecia abrir os braços a ambos, com uma bênção para um e o perdão para o outro.
De repente, Jean Valjean pôs o boné na cabeça, caminhou rapidamente ao longo da cama, sem olhar para o bispo, direito ao armário, que ele entrevia junto à cabeceira.
Feito isto, levantou a barra de ferro como para forçar a fechadura, mas viu nela a chave.
Apenas abriu a por nhola, deparou-se-lhe logo o açafate em que estava a prata; pegou nele, atravessou o quarto a largas passadas, sem a menor precaução, indiferente ao
ruído que poderia produzir, chegou à porta, entrou no oratório, abriu a janela, pegou no cajado, saltou para o jardim, meteu a prata na mochila, a rou para longe de si o açafate, transpôs o muro como o faria um tigre e fugiu.
XII — O bispo trabalha
No dia seguinte, ao nascer do sol, andando Monsenhor Bemvindo a passear no jardim, viu Magloire vir a correr na sua direcção com ar transtornado.
— Monsenhor! Monsenhor! — gritou ela. — Sabe onde está o açafate da prata?
— Sei — respondeu o bispo.
— Ora graças a Deus! — tornou ela. — Já não sabia o que pensar!
O bispo que naquele instante levantava o açafate de um alegrete, apresentou-o à senhora Magloire.
— Está aqui.
— Mas não tem nada dentro. E a prata?
— Ah! — replicou o bispo. — Era a prata que procurava? Não sei onde está.
— Jesus! Roubaram-na! Foi decerto o homem que cá ficou!
Num abrir e fechar de olhos, com a vivacidade própria de velha sagaz e bem conservada, Magloire correu ao oratório, entrou na alcova e voltou logo para junto do bispo. Este agachara-se havia um instante e contemplava com a maior tristeza um pé de cocleária de Guillons que o açafate nha quebrado ao cair no meio do alegrete; ao ouvir, porém, os gritos de Magloire, ergueu-se.
— Ai, Monsenhor! O homem roubou a prata e fugiu! — Ao mesmo tempo que soltava esta exclamação, dirigiu o olhar para o muro, onde se viam os ves gios da escalada. —
Olhe, foi por ali que ele fugiu! Saltou para a travessa de Cachefilet. Que crueldade!
Roubar-nos a prata!
O bispoconservou-se por momentos silencioso; por fim, disse com a maior serenidade, erguendo os olhos para Magloire:
— Aquela prata pertencia-nos porventura?
Magloire ficou sem saber o que havia de responder.
Seguiu-se outra pausa, após a qual o bispo prosseguiu:
— Magloire, há muito tempo que eu era ilícito possuidor daquela prata, que pertencia de direito aos pobres. E quem era aquele homem? Não era, sem a menor dúvida, um pobre?
— Valha-me Nossa Senhora! — replicou Magloire. — Não falo por mim, nem pela senhora Bap s na, a nós não nos faz falta, mas com Monsenhor já não sucede o mesmo. Com que talher há-de comer agora?
O bispo encarou-a com ar de espanto e respondeu:
— Essa agora! Pois não há colheres de estanho?
Magloire encolheu os ombros.
— O estanho tem mau cheiro.
— Nesse caso, há os de ferro.
A criada fez uma careta expressiva, dizendo:
— O ferro tem muito mau sabor.
— Pois então, colheres de pau.
Daí por alguns instantes, o bispo estava a almoçar naquela mesma mesa em que Jean Valjean, no dia antecedente, es vera sentado. No decurso do almoço, Monsenhor Bemvindo notou, gracejando, a sua irmã, que não proferira palavra, e a Magloire, que resmungava surdamente, não ser preciso garfo nem colher, mesmo de pau, para molhar um pedaço de pão numa chávena de leite.
— Nunca se viu uma coisa assim! — dizia Magloire, andando de um para outro lado. —
Recolher um homem daqueles e deitá-lo quase ao pé de si! Ainda devemos dar graças a Deus por só nos ter roubado! Parece-me que ainda sinto um estremecimento quando me lembro de semelhante coisa!
No instante em que obispo e a irmã se levantaram da mesa, bateram à porta.
— Entre — disse o bispo.
A porta abriu-se e um estranho e violento grupo assomou no limiar. Três homens traziam um quarto agarrado no meio deles. Os três eram gendarmes, o quarto era Jean Valjean.
Apenas em presença do bispo, o gendarme que parecia ser o comandante do grupo adiantou-se para ele, fazendo a continência militar e disse:
— Monsenhor...
Ouvindo este tratamento, Jean Valjean, que se mostrava sombrio e aba do, ergueu a cabeça com ar de estupefacção e murmurou:
— Monsenhor?! Pensei que era o cura...
— Silêncio! — ordenou um dos gendarmes. — É o senhor bispo.
Entretanto, Monsenhor Bemvindo aproximara-se dos homens com a presteza que lhe permitia a sua avançada idade e exclamou, com os olhos fitos em Jean Valjean:
— Ah, então voltou?! Es mo muito tornar a vê-lo. Mas agora me lembro: eu também lhe dei os cas çais, que são de prata, como o resto, e que lhe podem render duzentos francos ou mais. Porque não os levou?
Jean Valjean abriu os olhos e encarou o venerável bispo com uma expressão que nenhuma linguagem poderia traduzir.