Os Miseráveis
VII — Fauchelevent torna-se jardineiro em Paris
Como da primeira vez, ninguém se mexeu. Javert repetiu:
— Ainda não conheci senão um homem que fosse capaz de o fazer, era o tal forçado.
— Ai que eu morro! — gritava o velho.
Madelaine ergueu a cabeça, encontrou o olhar de falcão de Javert, sempre fixo nele, olhou para os circunstantes imóveis e sorriu com tristeza. Depois, sem dizer uma palavra, deitou-se de joelhos e antes mesmo que a mul dão vesse tempo de soltar um grito, estava debaixo do carro.
Seguiu-se um terrível momento de silenciosa espectativa.
Todos viram Madelaine quase de bruços, sob aquele enorme peso, tentar em vão duas vezes aproximar os cotovelos dos joelhos e gritaram-lhe:
— Saia daí, senhor Madelaine!
O próprio Fauchelevent disse-lhe:
— Olhe que se arrisca a ser esmagado como eu, senhor Madelaine! Bem vê que não me pode salvar, tenho por força de morrer!
Madelaine não lhe respondeu.
Todos os presentes estavam arquejantes de ansiedade. As rodas nham con nuado a enterrar-se e era já quase impossível que Madelaine pudesse sair debaixo do carro.
De repente, todos viram mover-se a enorme massa, o carro erguia-se lentamente, as rodas apareciam já meio desenterradas, ao mesmo tempo que se ouvia uma voz, gritando:
— Ajudem-me, depressa!
Era Madelaine que acabara de fazer um derradeiro esforço. Precipitaram-se todos. A dedicação de um só dera força e coragem aos outros. A carroça foi levantada por vinte braços e o velho Fauchelevent foi salvo.
Madelaine ergueu-se. Estava pálido, conquanto escorrendo suor, e nha o fato todo rasgado e coberto de lama. Todos choravam de prazer, e o pobre velho abraçava-o pelos joelhos, chamando-lhe o seu redentor. Quanto a ele, nha no rosto como que uma expressão de sofrimento feliz e celeste, e fixava o seu olhar sereno em Javert, que continuava a encará-lo do mesmo modo.
VII — Fauchelevent torna-se jardineiro em Paris
Fauchelevent nha deslocado um joelho ao cair. O senhor Madelaine mandou conduzi-lo imediatamente para uma enfermaria que estabelecera para os seus operários, no próprio edi cio da fábrica, que era dirigida por duas irmãs de caridade. No dia seguinte, o pobre velho encontrou sobre a mesa de cabeceira uma nota de mil francos, com estas palavras escritas pelo punho do senhor Madelaine: «Compro-lhe a carroça e o cavalo». Ora a carroça estava desconjuntada e o cavalo morto. Fauchelevent restabeleceu-se, mas o joelho ficou-lhe sempre aleijado Madelaine, com as recomendações das irmãs de caridade e do cura, arranjou-lhe o lugar de jardineiro num convento de freiras no bairro de Santo António em Paris.
Daí a algum tempo, Madelaine foi nomeado maire. Javert, da primeira vez que o viu reves do da faixa que lhe dava toda a autoridade sobre a cidade, sen u a espécie de estremecimento que percorreria o corpo de um cão de fila ao farejar um lobo debaixo da roupa do seu dono e, daí em diante, evitou a sua presença sempre que lhe foi possível.
Quando, porém, as necessidades do serviço o exigiam absolutamente e ele não podia deixar de se encontrar com o maire, falava-lhe sempre com profundo respeito.